Peça As Bondosas critica opressão patriarcal; veja – 23/07/2026 – Mise-en-scène
Contratadas para chorar a morte alheia, as carpideiras vivem no limiar entre a encenação sagrada e a sobrevivência profana. Na peça “As Bondosas”, da Cia. SOS de Teatro Investigativo, esse ofício tradicional do interno do Nordeste ganha contornos de uma farsa ácida, revelando que os ritos de luto servem frequentemente para camuflar a decadência moral.
O texto escrito por Ueliton Rocon estabelece uma interlocução direta com “As Criadas”, de Jean Genet. Ocorre cá uma transposição geográfica e cultural desse ponto de partida ao focar no universo das rezadeiras profissionais. O núcleo do conflito deixa de ser a servidão doméstica violenta da obra francesa e passa a ser a ritualística do luto mercantilizado e a vigia moral coletiva. As carpideiras tornam-se observadoras da falsidade que estrutura as relações familiares e os ritos de passagem.
A ação dramática concentra-se inteiramente no velório da filha caçula de uma abastada família lugar, cuja morte ocorreu sob circunstâncias suspeitas. O espaço de recolhimento religioso é desestruturado pelo cansaço físico, pela miséria e pela sede das três rezadeiras, abandonadas sem assistência pelos anfitriões. Essa quebra no pacto de hospitalidade autoriza as carpideiras a dispararem julgamentos severos sobre a conduta alheia.
A cenografia de Sidcley Batista traduz essa dinâmica com o uso de exclusivamente cinco caixotes de madeira. Esses objetos são movidos e ressignificados continuamente pelos atores, servindo porquê bancos de igreja, o caixão da falecida, as divisórias físicas da cena e as barreiras psicológicas que confinam as personagens em seus papéis sociais.
O figurino, elaborado por Leandro Mariz, materializa a dualidade das personagens Prudência (Batista), Angústia (Gerson Lobo) e Astúcia (Mariz). Sob as túnicas negras que atestam a respeitabilidade das rezadeiras, esconde-se o libido reprimido. O elemento revelador dessa tensão é um par de sapatos vermelhos, símbolo de vaidade e procura de liberdade individual em meio à vexame patriarcal. A moral austera se fragmenta à medida que a noite avança, expondo a gula, a fofoca e a sexualidade dessas mulheres.
A decisão de escalar atores homens para interpretar papéis femininos funciona porquê um mecanismo de distanciamento estético. Essa escolha afasta o espetáculo da zombaria fácil, concentrando a atenção na desnaturalização dos papéis de submissão histórica exigidos das mulheres. O elenco trabalha em simetria física e vocal, alternando momentos de comicidade com a revelação da dor que une aquelas existências desprovidas de afeto.
A direção de Tom Pires equilibra o tom satírico e a estudo social, garantindo que o ritmo rápido da comédia não anule a densidade das revelações psicológicas. O riso é empregado porquê utensílio de desnudamento da hipocrisia, indicando que as fraquezas morais pertencem tanto à escol contratante quanto às próprias carpideiras. Ao final, “As Bondosas” opera um desmascaramento coletivo, convidando o testemunha a examinar as próprias convenções e opressões cotidianas.
Três perguntas para…
… Tom Pires
A peça completou treze anos de trajetória em 2026. Porquê foi o trabalho de manutenção e atualização da direção ao longo desse tempo para prometer que o espetáculo mantivesse o frescor, o ritmo da comédia e a precisão corporal original?
O trabalho continua sendo o mesmo feito para a estreia, há treze anos. São atores que, apesar de pernambucanos, porquê eu, têm formação e experiências em linguagens totalmente diferentes. Portanto, cada um entendia a encenação dessa peça de uma maneira dissemelhante. Precisei de muitas horas de trabalho de mesa, workshop corporal e experimentação cênica para equalizar o talento dos três atores em uma mesma linguagem, e continuamos, até hoje, atentos às tentações do riso fácil, da gag cômica e do grotesco pelo grotesco.
Até a data da estreia, não tínhamos muita certeza de que daria patente, mas eu nunca faria de outra forma. Sigo, até hoje, ensaiando com o storyboard da peça nas mãos.
Você assina tanto a direção quanto a pesquisa músico do espetáculo. Porquê foi desenhada a identidade sonora da peça e de que forma a trilha atua para delimitar a fronteira entre o riso grotesco e a atmosfera lúgubre do velório?
Esse é um ponto muito importante. Definido o concepção da encenação, todas as outras áreas, porquê cenário, figurino e música da peça, precisavam andejar na mesma direção. Somos todos nordestinos, e as ladainhas, rezas de procissões, romarias, velórios etc. fazem segmento das nossas memórias afetivas. Porém, nossa montagem pretende universalizar a requisito da mulher na sociedade patriarcal, com suas castas sociais, seus direitos, seus desejos etc. Não era o caso de regionalizar nem a prosa nem a malha sonora da peça.
Nesse sentido, Philip Glass, que já me acompanha em outros trabalhos com a Cia. SOS de Teatro Investigativo, foi um caminho procedente. Utilizei também fragmentos da maravilhosa Orquestra de Câmara de Porto Feliz, que me presenteou, no início dos anos 2000, com o CD Divina Decadência, que abre nossa peça. E finalizamos com o hino do Estado de Pernambuco, porque somos bairristas mesmo.
Colocar três atores interpretando personagens femininas em um contexto patriarcal é um dos pontos fortes da peça. Porquê fez para que essa escolha funcionasse porquê um distanciamento estético crítico sem tombar na zombaria das figuras femininas?
Até pouco tempo, tínhamos dúvidas se poderíamos voltar a rodar com essa peça, justamente por justificação desse lugar de fala. Mas entendemos que o teatro, porquê utensílio de conscientização social e porquê lente de aumento do que acontece ao nosso volta, nos dá a dimensão exata do que é real e do que é ficção.
Ao colocar um texto feminino na boca de homens, estamos potencializando a figura da mulher e fazendo a sociedade pensar onde e quem determinou o limiar de gêneros. Amparados nessa crença, nossos atores não mimetizam a mulher em seus trejeitos, eles se permitem vivenciar uma experiência feminina no palco.
Trabalhando o distanciamento pregado por Brecht, conseguimos externar nossa sátira sem nos perdermos nas armadilhas da cena. São atores que contam histórias.
Galpão Folias – Rua Ana Cintra, 213, Santa Cecília, região médio. Sexta, 20h. Sábado, 18h e 20h. Domingo, 18h. Até 2/8. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. A partir de R$ 40 (meia-entrada) em bilheteriaexpress.com.br ou pelo clubedoingresso.com





