Filme ‘Terra à Deriva 2’ mostra como China quer ser vista – 26/04/2026 – Ilustrada
De mansinho, sem estrondo, porquê é de seu feitio, a China começa a por as manguinhas de fora no mundo audiovisual. Não se trata de um filme de Jia Zhangke ou alguém assim. “Terreno à Deriva 2” é vendido porquê um enorme sucesso no país, e logo no início traz um observador anunciando o último grito da informática: uma maneira de passar memória, personalidade e tudo mais de uma pessoa para um computador ou similar. Vida Do dedo é o nome de seu projeto, que nos promete a vida eterna, desde que digitalizada.
Temos portanto três tarefas diante do filme: a primeira, interpretar o próprio filme, cuja estética parece tomar por base o sistema hollywoodiano do blockbuster, com planos curtos e a maior segmento do tempo agitados, um espírito de videogame que o destina a plateias jovens e muitos efeitos especiais —tantos que de vez em quando o filme parece uma animação— embalando um roteiro por vezes difícil de seguir em detalhes. No mais, um tanto dissemelhante: em vez dos tradicionais foguetes, os astronautas são levados ao espaço por poderosos elevadores.
A orientação universal é muito didática: diante da prenúncio à espécie humana no planeta, criou-se um governo de solidariedade universal. Todos os países colaboram com o projeto de salvação chamado Terreno à Deriva, que pretende acomodar os humanos fora da Terreno. Projeto que se opõe ao outro, o Vida Do dedo.
O segundo repto é interpretar a China nessa história. Estamos em 2044, existe o governo universal, mas, atenção: as nações não deixaram de viver. Não perderam a identidade. Cada representante leva sua bandeira na lapela. Maneira de expressar que a China procura a solidariedade entre as nações, a colaboração sadia etc. Existe aí certa originalidade ideológica em relação a Hollywood: não se procura acirrar os conflitos entre nações, mas o inverso. O principal, no entanto, é que a China deixa de ser o grande e misterioso “Outro” do mundo. Está junto com os demais países diante do transe generalidade.
Por término, pode-se tentar interpretar o cinema chinês ditoso pelo Estado a partir deste filme. Existe uma clara valorização dos filhos. O mocinho da história tem um rebento e investe tudo no porvir dele. Já o vilão perdeu a filha na vida real, mas quer que ela continue viva no mundo virtual. Optar pela verdade é importante, parece nos expressar o filme, enquanto negar o mundo real em obséquio do do dedo é uma insânia. Em certos momentos é quase impossível não lembrar do cinema de David Cronenberg. Por vezes “Terreno à Deriva 2” se lança num caminho delirante próprio (o que também é interessante).
Porquê bom filme de ação, o pau come em “Terreno à Deriva 2”. Mas um tanto o distingue claramente dos blockbusters de Hollywood, em que há sempre um Tom Cruise ou alguém assim para salvar a humanidade. Cá a operação privilegia a ação coletiva, embora um ou outro personagem se realce. Ainda quanto a momentos de relevo em relação ao cinema ocidental, note-se um diálogo interessante.
Um astronauta (galicismo e preto, se ouvi muito) diz a Peiqiang, astronauta chinês, que o importante não é viajar pelo espaço ou um tanto assim, mas levar flores à namorada. Peiqiang responde que isso não passa de um tremendo clichê. No entanto, ele logo aparecerá com um reluzente buquê de rosas vermelhas para ela. E essas flores terão papel relevante no filme.
Aliás, as mulheres têm papel de destaque no projeto (e no filme). As mulheres chinesas em privativo, que, sabemos, há não tanto tempo assim eram relegadas a papéis domésticos e pouca coisa mais.
Dito isso, lá fora, o pau come. A tecnologia está pronta para levar os homens a lugar mais aprazível. A orientação básica é clara: o pessoal de Vida Do dedo são os vilões: hackers terroristas que invadem os sistemas e botam Terreno à Deriva em xeque. O governo colaborativo da humanidade teme Vida Do dedo, pois à medida que as sabotagens são bem-sucedidas, o tempo para salvar a humanidade vai se tornado exíguo. Ou seja, a evolução do filme é muito tradicional.
Estamos em 2044, e pelo que se vê não sobra uma mísera árvore na Terreno. Mas a China, o filme dá a entender, está completamente comprometida com o porvir da espécie e só o concebe porquê um projeto de engajamento universal. Há gente do mundo inteiro. Até uma brasileira aparece rapidamente em cena. E, trajo muito importante, cada representante vernáculo fala sua própria língua —outra diferença em relação ao padrão hollywoodiano, centrado no linguagem inglês. Aliás, os estadunidenses do filme são boa gente, embora vez por outra equivocados. O importante, no entanto, é enfatizar o tempo todo que a China não quer encrenca, e sim colaboração.
“Terreno à Deriva 2” oferece ao testemunha não um espetáculo irretocável, mas a oportunidade de entender porquê a China pretende ser vista e, aos poucos, introduzir sua cultura no Poente: vagarosamente, em silêncio, porquê quem não quer zero, mas disposta a buscar sua segmento no negócio e divulgação de imagens —porquê, aliás, faz com outros produtos.




