O Cypress Hill foi escalado para tocar no término da tarde deste sábado (21) no Lollapalooza. Mas apesar do palco —o Samsung, segundo maior do festival— e horário nobres, o grupo atraiu uma plateia pequena.
Em termos de verificação, o show do Interpol, na mesma hora e palco, na véspera, estava muito mais pleno. Quem também reuniu mais público foi o Foto em Grupo, filarmónica recém-criada que tocou no Samsung neste sábado, só que mais de duas horas antes, sob sol poderoso.
A falta de apelo pode ser explicada pelo lineup. O segundo dia deste Lollapalooza é encabeçado por Chapell Roan, cantora pop cujos fãs se fizeram identificar pelas maquiagens e chapéus rosa, e tem na escalação outros nomes pop, porquê Marina e Lewis Capaldi, e da música eletrônica, porquê Skrillex. O rap ficou relegado a nomes nacionais no pequeno palco eletrônico.
A falta de público não significa que o Cypress Hill não tenha credenciais para estar no Lollapalooza. O grupo foi formado no término da dezena de 1980 na região metropolitana de Los Angeles, mas apesar de ter sido gestado nos Estados Unidos possui raízes latinas. Sen Dog nasceu em Cuba, enquanto B-Real tem progénie mexicana e cubana. Já Eric Histrião é fruto do renomado percussionista de jazz latino Willie Histrião, que já trabalhou com gente porquê Tito Puente e Miles Davis.
Eles nunca pararam de produzir, tendo lançado álbuns regularmente ao longo dos últimos anos, incluindo um projeto recente gravado com a London Symphony Orchestra, no Royal Albert Hall, em Londres. Mas seus sucessos estão todos concentrados na dezena de 1990.
O álbum de estreia do quarteto, autointitulado, saiu em 1991, e fez fragor na cena underground. Dois anos depois, com o disco “Black Sunday”, o Cypress Hill estreou em primeiro lugar na paragem americana, recebeu indicações ao Grammy e cravou seu nome entre os mais importantes do rap americano.
São dessa período as músicas que dominaram o repertório do quarteto. O show começou com “When the Shit Goes Down”, passou por “Shoot em Up” e chegou a “Tequila Sunrise”, música relaxada que revela a valia do grupo porquê um dos primeiros nomes latinos a fazer sucesso no rap —as letras inclusive misturam inglês e espanhol.
Em São Paulo, o Cypress Hill mostrou uma sonoridade bastante propriedade. As músicas têm a rostro do rap dos anos 1990, construídas com batidas do tipo “boom bap”, com samples, scratches e breakbeats, quase sempre no estilo g-funk —estilo de rap mais lento e suingado característico da Califórnia, popularizado por nomes porquê Dr. Dre.
Tudo é temperado pela percussão latina e bateria de Eric Histrião, que faz dela um diferencial do Cypress Hill junto ao dedo nervoso de DJ Lord, possessor das picapes no show. Os dois fizeram um momento de improvisação que arrancou aplausos da plateia. A força do grupo ao vivo vem dessa sonoridade e também da química entre B-Real, de flow veloz e voz aguda e anasalada, e Sen Dog, que rima com graves demarcando os compassos.
Mas o que mais é marcante no grupo é a resguardo da legalização da maconha. O show teve o cheiro da grama, já que muitas pessoas na plateia aproveitaram para inflamar seus baseados, enquanto o telão estava repleto de imagens relacionadas à cultura canábica.
O Cypress Hill fez seu nome cantando sobre maconha —um tanto muito parecido com o que o Planet Hemp estava fazendo no Brasil na mesma idade. O grupo brasílico liderado por Marcelo D2 e BNegão, aliás, é companheiro do americano, e ambos têm a legalização da cannabis porquê bandeira.
A veia canábica é o tema das músicas mais famosas do Cypress Hill, em próprio do álbum “Black Sunday”. Mas mesmo essas não empolgaram tanto o público —que sequer parecia conhecê-las. Primeiro veio a versão em espanhol de “I Wanna Get High”, arrastada porquê a brisa da vegetal descrita por B-Real na letra, em que ele diz querer permanecer muito chapado.
Depois, vieram “Hits From the Bong” e “Insane in the Brain”. A primeira é carregada por um sample do fragor de borbulhas de alguém fumando um bong —espécie de cachimbo de chuva usado para consumir maconha. A segunda é o maior hit do Cypress Hill, e também um clássico do rap americano daquela dezena, sobre permanecer doidão.
A plateia até cresceu ao longo do show, mas não chegou perto de lotar a pista do palco Samsung. Se a maioria estava conversando e prestando pouca atenção, pelo menos um núcleo pequeno de pessoas mais perto do palco fez o trabalho de levantar as mãos, pular e fazer a sarau no show.
