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Filme vê cinema brasileiro como parto de difícil gestação
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Filme vê cinema brasileiro como parto de difícil gestação – 17/09/2026 – Ilustrada

Dar à luz um filme pode ser tão difícil quanto gestar um bebê. É o que Guto Parente mostra em “Morte e Vida Madalena”, longa em que a protagonista, uma produtora pejada de oito meses e enxurrada de problemas, pena para terminar seu novo projeto.

No set, ela tenta conceber uma ficção científica que flerta com o contra-senso, mas os casos que ocorrem detrás das câmeras refletem vivências do diretor, da produtora Ticiana Augusto Lima e de outros que já colaboraram com a dupla.

“O cinema sempre teve vocação para filmar o trabalho, e fazer filmes é um trabalho porquê qualquer outro”, diz Parente, que se firmou com o Alumbramento, coletivo independente que ajudou a projetar o cinema do Ceará. “É um circo. Você monta uma trupe, que muda a cada apresentação. O grupo vai lá, ergue estruturas, une esforços por um tempo e depois desfaz tudo, antes de partir para a próxima.”

No início, sua turma não exigia grandes aparatos —quando criado, em 2006, o Alumbramento fez do orçamento restringido uma máxima. O primeiro marco aconteceu em 2010, ano em que “Estrada para Ythaca” fez história no Festival de Tiradentes, em Minas Gerais.

Com atuações de quatro sócios do coletivo —o próprio Parente, os realizadores Ricardo e Luiz Pretti e o também diretor Pedro Diógenes—, o projeto se destacou pela falta de um roteiro habitual, feito a partir de situações improvisadas, e pelos visuais de baixa definição, e venceu o troféu de melhor filme na mostra Aurora, voltada a novos autores.

Na era, o longa sobre amigos que buscam uma terreno mítica posteriormente perder um colega virou um exemplo definitivo para obras exibidas naquela seção do festival, e reforçou o evento porquê vitrine para vozes que desafiam regras.

Hoje, adiante da Tardo Filmes, produtora de Lima e à qual se juntou em 2012, Parente vê a graduação de seus filmes crescer, mas sem ignorar dramas íntimos e familiares. São eles que descortinam crises nas gravações de Madalena, papel de Noá Bonoba.

Posteriormente o sumiço do ex-marido, escolhido por ela para comandar o roteiro do pai recém-morto, a produtora promove um ator à direção e encara caprichos do artista, tensões da equipe e efeitos da gravidez, entre outros fatores que tornam o set em campo de guerra.

De um lado, a morte do pai de Parente, que também inspirou o fantasmagórico “Estranho Caminho”, é uma das rimas entre a verdade e o seu filme mais recente. Do outro, fora a rotina conturbada entre produções, uma coincidência se deu porquê presságio —pouco posteriormente o término das filmagens, Lima descobriu que estava pejada. Sua bebê nasceu em tempo de ser incluída em gravações extras.

“A personagem vem do estudo de uma profissão comumente invisível. O público precisa saber quem são essas mulheres, que costumam atuar por trás de homens cisgêneros brancos e estruturar tudo de forma silenciosa”, diz Bonoba, que já foi produtora.

Segundo ela, “Morte e Vida Madalena” é uma ode ao cinema independente, mas que não romantiza seus desafios. “O círculo de Madalena sintetiza essa noção —ela transforma o luto e a dor em pulsão de vida, em potência criativa, alinhando o parto do filme ao seu próprio.”

Embora a identidade de gênero não seja abordada pelo filme, a artista, que se autodeclara travesti, tem usado o termo “cisfake” em palestras e entrevistas sobre o longa, já que a protagonista é uma mulher cisgênero.

Pouco espargido, já que são raros os casos, o “cisfake” propõe uma inversão e traz debates sobre o “transfake”, prática há muito denunciada por pessoas trans e que diz saudação à escolha de artistas cisgêneros para papéis trans.

“Há um delírio de que temos e sempre tivemos as mesmas condições de trabalho”, diz Bonoba. “Hoje, no Brasil, vivemos um retrocesso de papéis para pessoas trans. Houve um momento em que a inconstância interessava a realizadores, mas tais personagens estão sendo escritas de forma empobrecida ou estão simplesmente sumindo.”

Ela diz que a procura pela internacionalização, haja visto o sucesso de “O Agente Secreto” e “Ainda Estou Cá”, num período em que os Estados Unidos flertam com a extrema-direita, pode estar influenciando esse processo.

A celebração de corpos dissidentes também passa pela fantasia do longa. Num oferecido momento, Madalena sorri para sua versão párvulo, que a vê detrás de um muro. Nessa cena, quem dá vida à última é Raul Lôbo, moçoila trans que, segundo Lima, se sentiu vista em seu primeiro trabalho de ficção.

Esse texto imaginoso é generalidade a Parente, que costuma costurar gêneros porquê o drama, a comédia e o terror. Em “Inferninho”, um de seus títulos mais conhecidos, o diretor vê um grupo de pessoas queer se refugiar num bar com um garçom vestido de coelho. Lá, cores fortes e episódios oníricos deslocam o estabelecimento de durezas diárias.

Ele e Bonoba dizem que essa mistura de códigos, com que filmes americanos e do Sudeste brasílio domesticaram o público, pode também romper padrões. “O cinema de gênero vem de uma matriz mercantil, categorizando e vendendo filmes”, afirma Parente.

“Existe uma expectativa do Sudeste quanto ao cinema nordestino. Se você não corresponde a ela, está fora. Ao meu ver, o que fazemos é engolir esses códigos, aumentar nossos ingredientes e fazer uma lambança, com feijoeiro, sushi e farofa. Pode ser um pouco indigesto, mas traz novas descobertas.”

Folha

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