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Flávio Bolsonaro não consegue dissipar minhas suspeitas 20/10/2026
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Flávio Bolsonaro não consegue dissipar minhas suspeitas – 20/10/2026 – Wilson Gomes

Certamente não são pessoas porquê eu que Flávio Bolsonaro tenta convencer por meio de posts, discursos, sabatinas e debates. De resto, com a minha aversão ao gregarismo ideológico e o meu proveniente ceticismo, não devo mesmo ser o público-alvo de qualquer campanha.

Finalmente, meu marxismo é mais o de Groucho Marx (“não entro em clubes que aceitem pessoas porquê eu”) que o de Karl, e minha abordagem dos candidatos sempre foi mais parecida com a de um consumidor que com a de um militante enamorado. E, sim, acredito em coisas que causam repugnância em quem moraliza excessivamente a política, porquê votar no menos pior disponível —sem velar meu voto para o candidato ideal porquê quem se guarda para a mulher da sua vida. Política é outro tipo de negócio.

Dito isso, Flávio Bolsonaro tem fracassado completamente em dissipar uma inquietação importante sobre os anos da sua eventual Presidência: seu compromisso com a ordem liberal-democrática. Não se trata do vago apelo a “salvar a democracia”, de que o lulismo tanto abusou, confundindo frequentemente a resguardo da democracia com a resguardo da sua própria agenda política, porquê se não pudesse possuir democracia fora da esquerda.

Sei que cada um tem seus temores diante do porvir do país com Lula ou com os Bolsonaros —sim, no plural, porque eles costumam governar os quatro ao mesmo tempo, porquê vimos da última vez. Sei também que algumas listas de exigências são feitas sob medida para que só caiba nelas um candidato de esquerda, quando não o próprio Lula. Não é o meu caso. Não tenho dificuldade em concordar que o Brasil seja governado por alguém de direita, conservador ou contendor daquilo em que acredito. A vontade da maioria eleitoral não tem obrigação de coincidir com a minha.

Mas, para encarregar a Flávio o governo do país, precisaria de razões para confiar que ele e seu círculo próximo respeitarão as regras do jogo quando elas contrariarem seus interesses. A democracia liberal não se resume a eleições periódicas. Exige saudação à separação dos Poderes, ao Estado de Recta, aos limites da domínio presidencial e, sobretudo, à possibilidade de perder eleições e deixar o poder.

Não se trata unicamente de saber o que Flávio conhecia ou desconhecia dos planos golpistas do pai. Ele mesmo passou anos defendendo, em livro e discursos, o golpe de 1964, celebrando a ditadura militar e exaltando alguns dos seus mais notórios agentes de repressão. Não é um pretérito que o condene a pensar assim para sempre, mas, com semelhante histórico pessoal e familiar, caberia a ele, mais do que a qualquer outro, convencer-nos de que se converteu às convicções liberal-democráticas.

Na campanha, ele chegou a prometer que respeitará o resultado das urnas e que não disputará a reeleição. Promessas não são garantias, naturalmente. Ainda mais quando, ao anunciar que não pretende se reeleger, deixa ensejo a possibilidade de ser beneficiado por uma extensão do próprio procuração. Mas o problema maior é outro: porquê conciliar essas declarações com sua atitude diante da tentativa de golpe de Estado pela qual o pai foi sentenciado?

Flávio não precisaria negar, contra as evidências reconhecidas pela Justiça, o envolvimento de Jair Bolsonaro na tentativa de impedir a alternância de poder. Bastaria convencer-me de que, sob seu governo, não se repetiria coisa semelhante. Em vez disso, trata a pena do pai porquê uma injustiça a reparar, promete beneficiá-lo com o perdão presidencial e quer receber dele a fita na posse. Porquê símbolo principiante do novo governo, imagina receber a transmissão da domínio republicana justamente de quem foi sentenciado por tentar subvertê-la. Um tapa na face da democracia.

Não estamos falando de uma divergência sobre decisões do STF, mas de uma tentativa de golpe de Estado que incluiu planos para fuzilar o presidente, o vice-presidente e um ministro do Supremo, admitindo até a morte de civis porquê dano paralelo. E de uma ação de sedição, em 8 de janeiro de 2023, que Flávio insiste em tratar porquê sintoma cívica injustamente punida. Não é uma questão de simpatia pelo Judiciário, mas de compromisso com os limites que nenhuma disputa pelo poder pode legitimamente ultrapassar.

Posso concordar de um candidato quase qualquer divergência política, por mais profunda que seja, mas não posso transigir, sobretudo em tempos tão turbulentos, quanto ao seu compromisso com o Estado de Recta e com os direitos e garantias fundamentais.

E Flávio Bolsonaro tem feito muito mais para nutrir minhas suspeitas que para dissipá-las.


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Folha

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