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Flip: Ana Paula Tavares cutuca ferida histórica de Angola
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Flip: Ana Paula Tavares cutuca ferida histórica de Angola – 25/07/2026 – Ilustrada

A verso de Ana Paula Tavares guarda muitas feridas. Ao ler seu trabalho, é provável antever as dores do colonialismo, mas também aquelas provocadas pelo patriarcado. Na tarde deste sábado (25), a poeta angolana refletiu sobre cada uma dessas chagas históricas em uma das mesas mais concorridas da Sarau Literária Internacional de Paraty, a Flip.

No auditório da Matriz, principal espaço do evento, centenas de pessoas se reuniram para ouvir a escritora. No telão posicionado no lado de fora, outros tantos admiradores se aglomeravam para seguir a mesa, mediada pelo poeta Tarso de Melo.

Todo esse interesse do público não é sem motivo. Tavares, finalmente, é um dos principais nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa.

O prestígio ficou ainda mais evidente no ano pretérito, quando ela ganhou o prestigiado prêmio Camões. Nome de destaque da Flip, a poeta lança na feira literária o livro de crônicas “O Sangue da Buganvília”, volume publicado pela editora Pallas.

A exemplo do que acontece na verso, o trabalho de Tavares em prosa joga luz sobre assuntos que muitos gostariam que continuassem nas sombras, uma vez que as heranças do patriarcado e do colonialismo em Angola.

“Eu penso que houve uma ousadia de tentar expor essas feridas”, afirma a escritora. “É um país multíplice que teve sucessivas guerras que oficialmente terminaram, mas que, no fundo, as feridas que a guerra causou continuam lá.”

Com um estilo tão lacónico quanto pungente, Tavares mostra em seu trabalho as cicatrizes de uma sociedade que ainda lida com desafios do pretérito.

“Eu pus a ferida cá afora e, muitas vezes, dei por mim a voltar àquela ferida e a levantar antigas cicatrizes para perceber muito muito que tecido tinha resultado depois de tantas tentativas de tratamento que não resultaram. Apesar de Angola ter se tornado independente de Portugal em 1975, os desafios não acabaram com a chegada da liberdade.”

“Aquilo que nós temos hoje na pós-colonialidade é uma situação realmente controversa e complexa”, diz ela, para quem o país espelha as crises da geopolítica mundial. “Angola vive os constrangimentos do mundo confuso uma vez que é aquele em que nós vivemos. É um país muito martirizado por más políticas, graves problemas e por todos aqueles anos da guerra.”

Nos últimos anos, passou a ser recorrente na ateneu e na prelo o noção de decolonialidade, teoria que procura romper com práticas ligadas ao pretérito colonial. Tavares, porém, tem uma visão nuançada sobre esse tema.

“A teoria é muito formosa, mas eu vou reportar Cora Coralina quando ela diz que, na prática, a teoria é outra. Eu acho que nós não podemos aderir à teoria uma vez que se ela fosse um remédio para todos os nossos males.”

Nascida na província angolana Huíla, ela cresceu em um mundo dividido pela influência lusitana. Em um lado, havia os portugueses e seus descendentes no topo da pirâmide; no outro extremo, existiam os chamados indígenas. Esse termo fazia referência a pessoas que não eram vistas uma vez que cidadãos aos olhos do Estado português.

No meio dessa ramificação, havia os assimilados, ou seja, indivíduos que se adaptaram aos costumes lusitanos. O lar da autora fazia segmento justamente desse grupo.

A poeta, no entanto, decidiu ir por outro caminho e se aproximar de suas raízes culturais. Escolheu também fazer tudo aquilo que não era esperado de uma mulher, uma vez que ler, redigir e se destinar aos estudos.

“Eu assumi o papel de rapariga malcomportada, porque era mais fácil para a minha família ler-me uma vez que pessoa malcomportada do que ter diante de si um ser estranho, inquieto, que escrevia cadernos.”

Esse libido por romper as amarras do patriarcado pode ser sentida não unicamente em suas falas, mas também em seus versos. “Tratar isso nos meus poemas era a única maneira que eu tinha para quebrar todo aquele pacto de invisibilidade que atingia as mulheres do meu país.”

A notabilidade de malcriada da puerícia acompanhou Tavares até a vida adulta, quando ela lançou o livro de poemas “Ritos de Passagem”, publicado em 1985.

Em razão de poemas com verve erótica, a obra foi tachada de pornográfica. Curiosamente, aquilo que era para ser uma sátira se tornou propaganda, impulsionando as vendas do volume.

“Por um lado, foi muito bom porque esgotou em dois meses”, afirmou a escritora, arrancando risadas da plateia. “Mas depois as pessoas ficaram muito desiludidas. Realmente, não era muito um livro pornográfico.”

Folha

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