Flipelô 2026 tem missa com axé e procissão de best-sellers – 12/08/2026 – Ilustrada
Carla Madeira quis saber se aquele movimento todo naquele quina histórico de Salvador era normal. Angela Penedo respondeu que não. O préstimo, disse, foi todo da Flipelô, a Sarau Internacional Literária do Pelourinho, que realizada dos últimos dias 5 a 9 de agosto.
Já são vários momentos marcantes em dez anos de sarau, e isso desde o início. A primeira edição, em 2017, abriu com Maria Bethânia cantando “Menino de Braçanã”, do verso “quem anda com Deus não tem terror de assombração, e eu ando com Jesus Cristo no coração”, na histórica Igreja de São Francisco.
Diretora da Instalação Vivenda de Jorge Estremecido, que organiza a Flipelô, Penedo às vezes se pergunta se a repercussão do festival seria maior se, digamos, ele ocorresse a uns 2.000 km dali. Uma vez que em Paraty, sede da Flip, ou em São Paulo.
O sarau de Bethânia na igreja, por exemplo. “Se acontecesse isso em qualquer evento no Sudeste, seria o boom! Estaria em todas as mídias nacionais. E a gente não saiu nelas. Tudo muito, era a primeira edição.”
Demorou nove anos para o Jornal Pátrio noticiar a Flipelô pela primeira vez, no ano pretérito, lembra Penedo. A Companhia das Letras, editora de envergadura pátrio, montou um espaço próprio no Pelourinho só agora, em 2026.
Há mais pistas de que a feira vem crescendo. A mineira Carla Madeira não foi a única best-seller na programação. Sua conterrânea Ana Maria Gonçalves também foi, assim porquê o baiano Itamar Vieira Junior, o amazonense Milton Hatoum, o fluminense Gregorio Duvivier e a paulista Aline Bei.
As mesas acontecem em palcos montados na rua ou num dos vários casarões da vizinhança. A organização contou murado de 330 milénio acessos em seus eventos. Se estimarmos que uma pessoa foi, na média, em seis atividades durante o festival todo, seriam 55 milénio visitantes. A Flip do mês pretérito recebeu 40 milénio pessoas em Paraty.
A Flipelô não serpente por nenhum dos seus painéis e shows, inclusive faz parcerias para que museus do polo turístico, mesmo sem programação literária, abram de perdão no período. “O traje de tudo ser totalmente gratuito é um diferencial”, diz Penedo. A tenda principal da sarau em Paraty, referência para a mana soteropolitana, saía por R$ 140 a ingressão inteira.
Evidente que numerário não cai do firmamento. A maior segmento dos custos é bancada pela Motiva, ex-CCR, gigante na extensão de rodovias e mobilidade urbana. A Caixa Econômica Federalista entrou com verba neste ano. O problema é que o evento incha continuamente em logística e atrações, e isso tem um preço. “A gente precisa de mais. O evento cresce, e os patrocínios não crescem igual”, diz Penedo.
É justo proferir que talvez não houvesse Flipelô sem Flip. Myriam Penedo, poeta baiana laureada e mãe de Angela, teve a teoria de montar a sarau posteriormente uma ida a Paraty em 2006 para debater seu companheiro Jorge Estremecido, o homenageado daquela edição.
É impossível racontar a história da Flipelô sem falar da amizade entre Myriam, Jorge e a escritora Zélia Gattai, mulher dele. O responsável de “Gabriela, Cravo e Canela” chegou a grafar um livro infantil para presentear um rebento da poeta. “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” fala de um paixão meio “A Senhora e o Vagabundo” entre os dois animais.
Myriam gostava de servir ao par frigideira de maturi, prato tradicional da culinária nordestina, à base de castanha de caju ainda verdejante. Aos convescotes na lar da anfitriã, no boêmio bairro do Rio Vermelho, uniam-se ilustres porquê Carybé e Vinicius de Moraes. Todos “tios” e “tias” de Angela Penedo.
A Flipelô é também uma forma de honrar essa efervescência cultural de que tanto gostava Myriam, a artista homenageada nesse decênio do festival. Muito acontece o tempo todo.
Deu para ouvir Milton Hatoum criticar um “projeto da extrema direita de predadores e destruidores”, seguir uma missa que promiscuidade amém e axé na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e testemunhar um improvisado concurso de sósias do Michael Jackson.
Sérgio Rodrigues, responsável de “Ortografar É Humano”, se dizia preocupado com o potencial de estrago da IA sobre nossa espécie. Enfim, o humano é um tipo preguiçoso: se puder pegar elevador, não vai de escada. Ele introduziu a plateia à concepção da “F-art”, a fake art, que são os conteúdos gerados por perceptibilidade sintético. Não desce pra ele. “Se ninguém se deu ao trabalho de grafar, por que eu vou me dar ao trabalho de ler?”
Todo mundo queria ler, e todo responsável queria ser lido, na mesma semana em que a navegadora Tamara Klink causou um auê no meio editorial ao sugerir que as pessoas parassem de comprar seu livro, para poupar o meio envolvente do excesso de papel gasto.
A professora Bárbara Carine, que nas redes sociais atende por Uma Intelectual Diferentona, empolgou o público com seu noção de “pilhagem epistêmica”. Criticou a premissa de que o tanto de conhecimento que a humanidade produziu em milênios irradia do mesmo lugar, sempre branco. “Eu tinha um problema com a Grécia. Não é verosímil, tudo nasceu na Grécia?”
Carine também questionou por que embranquecer uma cultura tão rica em saberes porquê o Egito Vetusto, onde prevaleciam as peles escuras, e não uma Cleópatra com a tez de sua tradutor mais famosa, Elizabeth Taylor. A autora lançou na Flipelô o Atotô Editorial, selo que criou com o marido, Thiago Thomé, e que prioriza obras que partem da perspectiva negra.
Gregorio Duvivier provocou uma das maiores filas do sábado ao apresentar um solilóquio derivado de “Aos Pés da Letra”, livro sobre seu fascínio pela língua portuguesa. Coisas porquê acordos ortográficos que fulminaram modos antigos de grafar —porquê a queda do circunflexo em “voo”, que “já não tem acento, deu overbooking”.
Voos maiores estão no radar de Angela Penedo para o ano que vem. Receber sua xará Angela Davis, que acaba de passar pela Flip, é sempre uma desejo. Ela lembra que a ativista americana gosta de Salvador, que já visitou várias vezes, a última delas em 2023, para uma conferência da Universidade Federalista da Bahia.
Se topar, poderá saber de perto o que a idealizadora da Flipelô concebia porquê barafunda literária da melhor qualidade. “O caos”, certa vez preconizou Myriam Penedo, “é o latifúndio dos poetas”.





