É com tristeza que o plumitivo, dramaturgo, professor e palestrante Gabriel Chalita, 56, olha para a política brasileira. Não há grandes temas em discussão no Congresso Vernáculo e a ensino está um caos, ele opina.
“O Brasil já teve projetos incríveis, mas há a pouquidade de ininterrupção. Está sempre andando para trás”, afirma, ao ressaltar que prefere manter intervalo da vida partidária depois as experiências uma vez que vereador, deputado federalista e secretário da Instrução.
No teatro, a história é outra. Chalita estreou em São Paulo sua décima peça, “Poemas”, texto inédito interpretado pelos atores André Torquato e Marcos Pitombo. É uma obra filosófica, sem uma trama clássica, com protagonista e contraditor.
“Quis entrar nas profundezas da filosofia, com grandes temas uma vez que pavor, memória, construção de identidades, traumas”, afirma. “Quem é da filosofia vai identificar menções a Schopenhauer, Platão, Aristóteles, Spinoza”.
“Poemas” tem uma atmosfera onírica, com dois personagens que alternam um diálogo sobre lembranças da puerícia e projeções para a vetustez. No presente, buscam a verso uma vez que possibilidade de dar significado à existência.
“Falta um poema para mudar o mundo. Que mundo? O mundo fora, o mundo dentro”, afirma. No espetáculo, a construção de um poema é uma metáfora para a capacidade de geração do ser humano.
A peça foi escrita há três anos, a partir da participação de Chalita em um grupo de educadores de 21 países. O coletivo discute o suicídio entre jovens, objecto que o instiga diante da dificuldade que as pessoas têm de dar nomes para as dores, o que leva a um sofrimento intenso e solitário, principalmente em uma rotina enclausurada entre telas.
“É a história do bullying na escola. Se você chega em moradia e fala para alguém, já amenizou o efeito. Quando não fala, aquilo é um monstro que vai crescendo dentro de você”, diz.
O dramaturgo ouviu de uma amiga o relato sobre um estupro sofrido na puerícia e nunca denunciado. A vítima passou a vida convivendo com o criminoso, que é seu tio, e optou por permanecer calada. Essa história também o inspirou para a escrita de “Poemas”.
A violência é sugerida no espetáculo, mas não de forma explícita. A montagem, dirigida por Duda Maia, explora a dualidade entre vida e morte, prosa e verso, liberdade e submissão.
Em um cenário com rampas que são manipuladas em cena, os dois atores contam com elementos teatrais uma vez que o vento, a transparência dos figurinos e a trilha sonora para erigir a narrativa.
“Porquê educador, acredito que a arte é redentora da ensino”, diz Chalita sobre a sua paixão pelas artes cênicas. “As pessoas saem do teatro e vão pesquisar os personagens, a história, o tempo em que a história se passou, o figurino. São muitas artes dialogando. Isso que a gente fala da multidisciplinaridade na ensino, tem no teatro”.
Um dos prazeres, revela, é ver o texto ser transformado durante o processo coletivo de encenação. No caso de “Poemas”, a dramaturgia ganhou intensidade com a direção matemática e coreografada de Duda Maia.
A montagem exige uma grande preparação física dos dois atores, que se movimentam o tempo todo entre as rampas e estimulam a plateia a participar da construção da história.
“Eu acho que é o enlace de duas linguagens muito fortes: a forma de grafar do Chalita junto com a minha assinatura física. Estamos procurando essa dualidade o tempo inteiro, nas palavras, nos corpos, na trilha sonora, no cenário, no figurino e na iluminação”, diz a diretora.
“Os dois personagens estão dialogando, mas pode ser um diálogo interno também”, diz Pitombo sobre a pândega com as palavras proposta no espetáculo. “O texto tem uma sequência, um objetivo, que é erigir um poema que pretende salvar o mundo. E que mundo é esse? Será que fala do mundo físico, de todo mundo, do mundo à minha volta, ou do meu mundo privado, o nosso mundo de dentro? A gente fala um pouco sobre o que nos inspira, sobre nossas dores e também sobre o que nos move”.
A abordagem do suicídio também é simbólica e não definitiva. O pulo de uma janela pode ser a decisão de morrer ou de se libertar de uma dor.
“Em vez de oferecer respostas prontas, o espetáculo cria um espaço de escuta, de silêncio, de vento, onde o que parece escuro pode, de repente, atear pequenas luzes. São dois personagens tentando grafar o poema que falta, mas talvez o que mais interessa não seja o poema em si, mas esse processo de procura. Às vezes é no mistério que a gente se salva”, reflete Torquato.





