Bloomberg
Três das maiores e mais importantes empresas de tecnologia do mundo devem apresentar um incremento robusto quando divulgarem seus resultados nesta semana.
Normalmente, isso seria considerado um catalisador para estabilizar o vacilante mercado acionário. Mas, para Wall Street, tudo depende de dois dados: quanto verba essas empresas estão gastando com lucidez sintético e quando esse investimento começará a gerar retornos significativos. E, com base na reação violenta do mercado ao aumento das despesas de capital da Meta Platforms Inc. na semana passada, a resposta a qualquer logro provavelmente será implacável.
Os investidores estão “absolutamente sem nenhuma tolerância neste momento para despesas de capital mais elevadas”, disse John Belton, gestor de portfólio da Gabelli Funds. “O mercado acionário pode fingir que está tudo muito por qualquer tempo, mas, em qualquer momento, isso terá impacto ou, no mínimo, criará um mercado mais frágil.”
Mão robótica em teclado de computador
–
Dado Ruvic – 23.set.26/Reuters
A impaciência dos investidores já está elevada no início da semana, diante da disparada dos preços do petróleo, com o Brent sendo negociado em seu nível mais cimeira desde abril. Os operadores também voltaram a buscar em volume a segurança relativa dos títulos do Tesouro dos EUA, levando o rendimento dos papéis de dez anos novamente para menos de 5% pela primeira vez em um mês. Somando-se a isso a guerra em curso no Irã e as decisivas eleições legislativas de meio de procuração nos EUA na próxima semana, o cenário macroeconômico é provocador.
Nesse contexto, gigantes de tecnologia avaliadas em mais de US$ 10 trilhões (R$ 50,3 trilhões) devem vulgarizar resultados, entre elas grandes investidoras em IA, uma vez que Alphabet Inc., Microsoft Corp. e Amazon.com Inc. Espera-se que as três registrem aumentos percentuais de dois dígitos na receita do trimestre. Mas o maior interesse dos investidores estará nos comentários sobre quanto pretendem gastar com IA e em que medida esses investimentos estão se mostrando rentáveis.
“Esta é uma temporada de resultados bastante decisiva”, disse Kevin Shea, comentador sênior de ações da BNY Wealth. “O mercado está aplicando um desconto ao incremento das megacaps porque está cada vez menos convicto de que esse incremento seja sustentável.”
Esse nervosismo ficou evidente nas negociações das ações da Meta depois que a empresa divulgou seus resultados na tarde de quarta-feira (21). Os papéis dispararam nas negociações depois o fechamento, já que os números mostraram tendências animadoras. Mas, quando o mercado abriu na manhã de quinta-feira (22), o sentimento havia se virado, à medida que os planos da empresa de sublevar em US$ 125 bilhões (R$ 629 bilhões) seus compromissos de gastos futuros, para US$ 825 bilhões (R$ 4,1 trilhões), começaram a ser assimilados.
As ações fecharam a quinta-feira em queda de 6,1%, seu pior dia desde julho, e o preço dos swaps de inadimplência de crédito da Meta com prazo de cinco anos atingiu um novo recorde, uma vez que os gastos elevados significavam que a companhia precisaria enunciar mais dívida.
O sentimento dos investidores em relação aos gastos com IA mudou rapidamente nas últimas semanas, sustentado por uma confluência de temores em todo o setor de tecnologia. Primeiro, comentários da provedora de computação em nuvem CoreWeave Inc. reforçaram as preocupações sobre o intensidade em que a expansão da infraestrutura de IA está sendo financiada por dívida, sobretudo porque a subida persistente dos juros amplia o risco de que as coisas deem falso. A empresa de pesquisa de mercado Gartner estimou que mais de US$ 3,5 trilhões (R$ 17,6 trilhões) em gastos com infraestrutura de IA poderão suportar perdas de valor até 2030 caso a receita gerada pela tecnologia não justifique os investimentos.
“Estamos em um movimento extremo de procura por segurança neste momento”, disse Jed Ellerbroek, gestor de portfólio da Argent Capital Management. “Os investidores estão fugindo das ações ligadas a despesas de capital com centros de dados, da tecnologia e de tudo relacionado a data centers.”
Em seguida, a Anthropic PBC, importante laboratório de IA que deverá penetrar o capital no próximo mês, informou a potenciais investidores que sua receita no terceiro trimestre cresceu murado de 45% em relação ao mesmo período do ano anterior, ritmo subalterno ao do segundo trimestre, obscurecendo a narrativa universal.
“É uma combinação difícil: cenário macroeconômico inverso, desaceleração da receita com IA e uma viradela de subida nas despesas de capital com IA”, disse Belton, da Gabelli.
As ações das megacaps de tecnologia foram a principal força a impulsionar o mercado por anos, mas isso mudou em 2026. O índice Bloomberg Magnificent Seven acumula subida de unicamente 6,5% no ano, muito aquém dos avanços de 11% do índice S&P 500 e de 15% do Nasdaq 100, fortemente concentrado em tecnologia. Entre as sete integrantes do grupo, unicamente Apple Inc. e Nvidia Corp. superam o mercado. E uma versão do S&P 500 que exclui as gigantes de tecnologia avançou 12% em 2026.
Os investidores parecem divididos em relação aos gastos com IA. Há um otimismo generalizado de que a tecnologia será, com o tempo, uma força poderosa para o mercado. Ao mesmo tempo, porém, persiste o debate sobre se e quando as centenas de bilhões de dólares investidas se refletirão no lucro líquido. A questão é particularmente sensível porque o ciclo de investimentos transformou muitas das grandes empresas que gastam com IA, antes máquinas de geração de caixa, em companhias com fluxo de caixa livre negativo.
“Se tivermos outro cenário em que seja necessário reduzir as projeções de fluxo de caixa livre, isso elevará as preocupações sobre a sustentabilidade dos gastos com IA e a submissão de capital suplementar, e o efeito também chegará às empresas de nuvem de novidade geração e a outras partes do mercado”, disse Shea, da BNY. “No entanto, se houver revisões positivas nas projeções de fluxo de caixa livre, o mercado dará um suspiro de refrigério por entender que chegamos ao fundo do poço nas revisões negativas e que já atravessamos a segmento mais difícil do ciclo de investimentos.”
É simples que alguns profissionais de Wall Street ainda veem as megacaps de tecnologia uma vez que uma das apostas mais seguras do mercado, sobretudo porque as quedas registradas neste ano resultaram em avaliações mais baixas. O índice Magnificent Seven é negociado a menos de 24 vezes o lucro estimado, aquém de sua média de dez anos, de aproximadamente 29 vezes, e das 33 vezes registradas há um ano. Microsoft e Alphabet são negociadas com desconto em relação às suas médias de longo prazo, enquanto o múltiplo da Amazon está aquém de 20 vezes, próximo do menor nível desde 2008.
Esses múltiplos mais baixos vêm acompanhados de perspectivas de incremento bastante robustas. Os lucros das Sete Magníficas devem progredir murado de 34% neste ano, supra dos 29% previstos para o S&P 500, segundo dados da Bloomberg Intelligence. Aliás, Wall Street está cada vez mais otimista com as perspectivas de longo prazo do grupo. A projeção consensual é de que os lucros cresçam 27% em 2027, estimativa que subiu de forma acentuada nas últimas semanas. Há dois meses, os analistas previam uma subida subalterno a 19%.
“A expectativa está sendo elevada ainda mais e, por isso, quando essas empresas cumprem as projeções, é quase uma vez que se o mercado ficasse desesperançado”, disse Tiffany McGhee, diretora-presidente da Pivotal Advisors, à Bloomberg TV. “Eles querem resultados extraordinários.”
E há ainda a expectativa de que as gigantes de computação em nuvem sigam adiante com seus vultosos planos de gastos em IA, independentemente de apresentarem retornos expressivos aos investidores —um cenário que tira o sono de Wall Street.
“Os quatro cavaleiros da expansão da nuvem de novidade geração parecem irredutíveis neste momento”, disse Kim Forrest, diretora de investimentos da Bokeh Capital Partners. “Eles seguirão com seus planos de gastos, o que pode estar deixando os investidores nervosos.”





