‘Habeas Corpus’, na Netflix, aborda o racismo da Justiça – 22/09/2026 – Ilustrada
Na série americana “How to Get Away with Murder”, uma advogada dá aulas de recta para encontrar pupilos que a ajudem nos tribunais. É o que acontece também na brasileira “Habeas Corpus”, que chega nesta quarta-feira ao catálogo da Netflix.
Na trama, a advogada criminalista Inez, vivida por Marjorie Estiano, decide virar professora em seguida tolerar um atentado. Ela seleciona estudantes perspicazes para, juntos, tentarem inocentar um varão recluso de forma injusta.
Primeira série jurídica brasileira da Netflix, “Habeas Corpus” chega um ano em seguida “How to Get Away” ter sido tirada do catálogo da plataforma. Protagonizada por Viola Davis, a produção dos Estados Unidos estreou no Brasil em 2015 uma vez que aposta da Netflix para atrair assinantes. À idade, o streaming tentava se estabelecer uma vez que opção à TV tradicional.
Um dos criadores de “Habeas Corpus”, o diretor Luiz Villaça nega a inspiração. “Nosso sistema judicial é completamente dissemelhante do mostrado nas séries de fora. A gente se baseou em documentários”, ele conta, citando a documentarista Maria Ramos, conhecida por investigar a Justiça brasileira em seus filmes.
Com “Habeas Corpus”, Villaça queria retratar a “imensa diferença socioeconômica e cultural que a gente vive”, ele diz. Por isso, a professora Inez, que é branca, divide protagonismo com Marina, estudante negra e pobre escolhida para a trupe da docente. Marina é misteriosa, com razões secretas para querer ajudar a advogada. Além de se destinar às aulas, ela precisa cuidar do fruto.
Embora “Habeas Corpus” e “How to Get Away” sigam por caminhos diferentes, ambas se assemelham quando denunciam a devassidão da Justiça e expõem preconceitos do sistema prisional. No caso da série brasileira, o interesse está em próprio no racismo que permeia os tribunais.
“Sou preta, nasci pobre, e já fui deixada na mão pela Justiça. Eu conhecia essa hostilidade que pessoas vulneráveis enfrentam”, diz a atriz e cantora Any Gabrielly, que interpreta Marina. “Muita gente não tem noção sobre as Marinas do nosso país. Ou até têm, mas não pensam nelas.”
Gabrielly ficou famosa quando era juvenil ao ser escalada, há nove anos, para o grupo músico Now United, que une artistas de vários países. Antes de ter renome e quantia, ela viveu em bairros da periferia de São Paulo.
Além do lado vergonhoso da Justiça, “Habeas Corpus” quer retratar o Innocence Project Brasil, instituição que há dez anos revisa erros do judiciário brasílico. O programa criado há dez anos em São Paulo faz secção de uma franquia global que já reverteu a pena de 624 inocentes.
Villaça e a equipe de roteiristas ouviram os voluntários do projeto, consultaram casos reais, visitaram tribunais para estudar julgamentos, e só portanto escreveram os oito episódios da série. A Netflix contratou advogados para prometer a verdade da trama.
Ao desvendar que três advogados do Innocence Brasil juntam estudantes de faculdades para buscar possíveis inocentes condenados, o diretor imediatamente se interessou. “É prato pleno para uma série”, afirma.
O vestuário de os tribunais lhe parecerem um palco de teatro o ajudou a ver ali o espaço para uma história dramática. De onde ficava na plateia, durante os julgamentos, Villaça afirma ter tido a sensação de que juiz, promotores e defensores estavam encenando seus discursos para tentar impressionar e convencer o público.
Marjorie Estiano abusa dessa teatralidade ao narrar os feitos do seu cliente no prelúdios do primeiro incidente. Com os braços erguidos, a atriz gesticula, imposta a voz, muda de tom, faz caras e bocas. No termo da cena, Inez é atingida por um tiro, que a traumatiza e a faz mudar de ofício.
“Habeas Corpus” é a primeira obra original Netflix com Estiano no elenco. Embora tenha ficado famosa nas novelas da Orbe, a atriz depois passou a se destinar a obras autorais e independentes.
Antes de “Habeas Corpus”, Estiano já havia investigado o sistema judiciário para encarnar a socialite Ângela Diniz numa minissérie da HBO. A obra é do ano pretérito. “Sou grata por estudar cidadania, meu país, o humano, as nossas contradições”, diz. “Quero oferecer reflexões e provocações ao testemunha. Me faz um ser político mais engajado.”





