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Mostra recoloca Alberto Cavalcanti na história do cinema 23/09/2026
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Mostra recoloca Alberto Cavalcanti na história do cinema – 23/09/2026 – Ilustrada

Em agosto de 1978, na Cinemateca Francesa, alguma coisa mudou na retrospectiva do cinema brasiliano que ali acontecia. Em vez da sala quase vazia, típica do mês de férias na Europa, a lotação estava quase completa. Em vez da recepção indiferente dos outros dias, quando terminou a sessão de “Simão, o Caolho” toda a sala voltou-se para uma das últimas fileiras, onde estava um velhinho, e começou a aplaudir de pé.

O velhinho, no caso, era Alberto Cavalcanti, o primeiro brasiliano a ser reconhecido porquê grande cineasta fora do Brasil. Essa foi uma das últimas homenagens que recebeu antes de morrer, quatro anos depois, em Paris. Sua obra continua quase ignorada no Brasil, e essa foi uma das razões que levou a Cinemateca Brasileira a realizar esta retrospectiva de sua filmografia, cuja primeira segmento acontece entre 24 de setembro e 3 de outubro.

Não por casualidade, Cavalcanti quis ser enterrado em Paris. Viveu a maior segmento de sua vida fora do Brasil. Estudou em Genebra, de onde saiu formado arquiteto. Foi para Paris, onde começou no cinema porquê assistente de Marcel L’Herbier.

Desde portanto, começou sua relação com o grupo da vanguarda francesa do pós-Guerra. E logo em seu segundo filme, “Rien que les Heures”, de 1927, ganhou prestígio ao pôr a cidade em destaque num trabalho poético que prefigurava as grandes sinfonias urbanas do final da era muda, porquê “Berlim, Sinfonia de uma Metrópole”, de Walter Ruttman.

O prelúdios do sonoro não é exatamente grandioso: trabalha para a Paramount, fazendo versões francesas de filmes hollywoodianos, num momento em que ainda não existiam nem legendas nem dublagem.

Por sorte, recebe o invitação do britânico John Grierson para fazer segmento do movimento do documentarismo inglês, que revolucionaria o gênero no início da era sonora. Sua curso prossegue entre Paris e Londres até que o início da Segunda Guerra o leva a se fixar de vez na Inglaterra, agora trabalhando para Michael Balcon, produtor famoso por ter lançado Alfred Hitchcock porquê diretor.

Nesse momento, embora sem grandes chances, realiza seu “Filme e Verdade”, reflexão sobre o filme- documentário, e assina um dos episódios de “Dead of Night”, de 1943, um dos mais bem-sucedidos longas britânicos daquela idade.

Depois da guerra, com a Europa encarando o sinistro, recebe o invitação de Franco Zampari para ser gerente de estúdio da recém-criada Cia. Vera Cruz. O duelo não é pequeno —Cavalcanti volta ao país posteriormente mais de 30 anos com a função de montar o primeiro estúdio realmente profissional do Brasil.

Importa equipamentos, monta grandes estúdios em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, e, sobretudo, contrata profissionais de diversas funções —porquê fotógrafos, operadores de câmera, técnicos de som, montador— vindos de vários países diferentes.

Partia do pressuposto, um tanto discutível, de que no Brasil não havia profissionais capazes. Os estrangeiros deveriam formar os brasileiros, que no início trabalhavam porquê assistentes. O projecto tinha consistência, pois os estrangeiros vinham de vários países, de maneira que não conseguiriam impor um estilo único, permitindo que um modo de ser brasiliano de filmar finalmente surgisse.

A teoria podia ser muito boa, mas Zampari se fez ladear pelos técnicos e diretores italianos da companhia, o que já era um problema. O projecto de Cavalcanti de dar a direção de “Angela”, de 1951, ao brasiliano Agostinho Martins Pereira dá para trás e o anglo-argentino Tom Payne assume a função. E ainda na período de pré-produção já se anunciam os problemas econômicos da companhia.

Cavalcanti sai fora e faz, na Cinematográfica Maristela, seu primeiro filme brasiliano, a comédia “Simão, o Caolho”, de 1952. A seguir, cria sua própria companhia, a Kino Filmes, onde produz “O Quina do Mar”, de 1953, e “Mulher de Verdade”, de 1954.

Nesse momento, Cavalcanti ainda elabora o primeiro projecto de geração do INC, o Instituto Vernáculo de Cinema. Mas ele ainda era, nessa profundidade, um corpo estranho na cinematografia pátrio. De quebra, entrava em conflito, para debutar, com Humberto Mauro, o diretor do Ince, o Instituto de Cinema Educativo, que seria substituído.

Além de os planos para o INC darem em zero, seus dois últimos filmes fracassam e os prejuízos levam ao fechamento da Kino Filmes. O desencanto do cineasta coincide com sua decisão de voltar à Europa.

Não será, no entanto, um momento feliz, com a exceção, talvez, da oportunidade que teve de guiar “O Senhor Puntila e Seu Criado Matti”, de 1955, fundamentado no texto de Bertolt Brecht.

O vestuário de seu trabalho ainda ser quase incógnito no Brasil foi o motivo principal que levou a Cinemateca Brasileira a projetar a retrospectiva a partir do restauro de seus três filmes brasileiros, mas também daqueles que produziu para a Vera Cruz e da segmento dos que dirigiu e produziu na França e na Inglaterra.

A Cinemateca vai projetar uma segunda segmento da retrospectiva, mas ainda não há data.

A oportunidade de rever e reavaliar a obra de Cavalcanti é enfatizada pela realização, nesta sexta (26), posteriormente a projeção de “Mulher de Verdade”, de um debate com Luciana Araujo, Marco Vale e Mariarosaria Fabris, com mediação de Carlos Augusto Calil, no quadro do programa Revisão Sátira do Cinema Brasílico.

Folha

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