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Haitianos veem Copa e Brasil como escape em meio ao
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Haitianos veem Copa e Brasil como escape em meio ao caos – 18/06/2026 – Esporte

Contendor do Brasil nesta sexta-feira (19), o Haiti é um país destroçado, pobre e violento, subjugado por gangues, uma provação que tem sido minimamente aliviada pela alegria com a participação na Despensa do Mundo.

Os haitianos são apaixonados por futebol, mas sobretudo por craques brasileiros, o que torna o confronto na Filadélfia, inédito em Mundiais, ainda mais histórico para a população.

“O futebol continua sendo uma das poucas coisas capazes de proporcionar um escape emocional coletivo em meio a tanto cansaço e frustração. Num país feito o nosso, o futebol não é só entretenimento, é quase uma questão de sobrevivência emocional”, disse à Folha o jornalista Patrick Saint-Pré, fundador do portal Haiti Climat, especializado em envolvente, e colaborador do jornal “Le Nouvelliste” –o mais influente e idoso do país, com 128 anos.

“Há décadas, o Brasil é a segunda seleção para muitos haitianos. Pelé, Ronaldo, Ronaldinho, Neymar… gerações inteiras cá cresceram amando o futebol brasílico. É simples que as pessoas apoiarão o Haiti com orgulho, mas muitos corações também baterão pelo Brasil. Será profundamente simbólico. Mais do que uma partida de futebol, será um vasqueiro momento de união e alegria pátrio, alguma coisa que o Haiti precisa desesperadamente agora”, afirmou Saint-Pré.

Brasílio de coração haitiano, o professor Werner Garbers, o Neno, que vive há 14 anos em Porto Príncipe, capital do país, levou ao pé da letra essa dupla torcida, criando uma camisa dividida, de um lado amarela com a bandeira do Brasil; do outro azul com a bandeira do Haiti.

“Fiz isso porque é mal me sinto, e muitos haitianos também. Eles sempre foram muito apaixonados pelo Brasil e agora estão manifestando o quanto são apaixonados pelo Haiti. É muito bonito de se ver, e é muito novo. É um momento histórico, a gente se sente participando da história mesmo”, contou Neno, que ensina língua portuguesa e cultura brasileira no Núcleo Cultural Brasil-Haiti .

Em 2019, durante um período de nove dias em Porto Príncipe que resultou numa reportagem para a revista piauí sobre o saldo da Minustah –a missão de silêncio liderada militarmente pelo Brasil que durou 13 anos, de 2004 a 2017– pela perspectiva haitiana, levante repórter pôde constatar os reflexos dessa paixão.

Embora a Minustah tenha deixado na imensa maioria da população lugar uma imagem negativa, o ônus não recaía sobre o Brasil –do qual Tropa chefiou a missão em todo o período e cujas Forças Armadas enviaram o maior provisório de soldados, 37,5 milénio–, mas sobre a ONU.

“Para o haitiano, não era o Brasil que estava cá, era a ONU. Na cabeça do haitiano, o Brasil é Pelé, é Ronaldo, é Ronaldinho”, resumiu na quadra o redator-chefe do Nouvelliste, Frantz Duval.

Quando o Brasil foi eliminado pela Bélgica nas quartas de final da Despensa de 2018, na Rússia, protestos violentos explodiram nas ruas da capital. Vitórias da seleção canarinho em Mundiais são comemoradas com sarau.

A surpresa dos haitianos pela seleção aumentou depois do lendário “jogo da silêncio” de 2004 (primeiro ano da Minustah), um amistoso em que o Brasil de Ronaldo e Ronaldinho goleou o time da vivenda por 6 a 0 diante de uma turba fanática.

Primeiro país do mundo a suprimir permanentemente a escravidão –não pelo colonizador, mas numa revolução em que o poder foi tomado pelos ex-escravizados, caso único na história–, o Haiti raramente é lembrado por esse imenso feito, mas mais por suas mazelas, em secção decorrentes de sua insubmissão.

A França cobrou uma indenização bilionária para reconhecer a independência e manter negócios com o país –do qual pagamento foi uma das causas do endividamento histórico haitiano. Os EUA demoraram décadas para reconhecer a autonomia do quase vizinho caribenho.

O histórico de pobreza e violência das últimas décadas –potencializado por grandes tragédias naturais, porquê os terremotos de 2010 e 2021– se agravou desde o assassínio do presidente Jovenel Moïse, em julho de 2021. Gangues dominam a maior secção do país, inclusive 80% do território da capital.

Uma vez que sinal de que mesmo com a Despensa a situação segue turbulenta, no último sábado (13) o superintendente de gabinete do Ministério da Resguardo do Haiti, James Boyard, que também é inspetor-geral da Polícia Vernáculo, foi sequestrado junto com a mulher e a filha pequena, num dos mais graves episódios recentes dessa modalidade que há décadas assola o país.

A notícia do sequestro veio à tona três dias antes da visitante do secretário-geral da ONU, António Guterres ao Haiti, nesta terça (16). O português afirmou que o país vive a crise humanitária mais grave do Hemisfério Ocidental e a que piora mais rapidamente.

A diretora-executiva da ONG de direitos humanos Instauração Je Klere, Marie Yolene Gilles, falou com a reportagem pouco depois de participar de uma reunião com Guterres, e demonstrou desalento.

“Ele disse que a missão [uma força internacional de repressão a gangues com apoio logístico da ONU] está em ação. Mas essa força está cá desde abril, e até agora zero de novo aconteceu. Não podemos ir para o sul, não podemos ir para o setentrião, as gangues estão ganhando território, 80% da capital está sob controle delas.”

Ela vê qualquer conforto com a Despensa. “Porque, posteriormente 52 anos sem participar da Despensa [a única vez foi em 1974], o Haiti estava de costas para o mundo, agora está na frente de todos. Todo mundo vê a bandeira haitiana, e isso é muito importante para nós. Portanto há esperança.”

Yolene Gilles lembra, entretanto, que somente um dos 26 convocados do Haiti (o volante Woodensky Pierre) atua no futebol lugar –cuja liga está ativa, aos trancos e barrancos. Todo o restante atua entre Europa (sobretudo França), Américas (principalmente EUA) e até no Irã. E a maioria (16) nem sequer nasceu no país.

“Eles não conhecem realmente a situação no Haiti. Ouvem pelo rádio ou leem no jornal e nas redes sociais, mas em termos de veras, não sabem. Não entendem muito o crioulo [uma das línguas oficiais, ao lado do francês]”, disse a ativista.

“Eles quiseram simbolizar o Haiti. Tudo muito, e é muito bom para nós. Mas não sei se eles assumem a responsabilidade de falar com os membros das gangues para pedir que deem uma chance à população. Não sei, porque nunca vieram ao Haiti. Gostariam de vir, mas, por falta de segurança, não podem.”

Folha

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