Mulher é enterrada até a cintura na peça ‘Dias Felizes’ – 18/06/2026 – Ilustrada
Nos momentos em que o mundo fica muito paradoxal, é hora de encenar Samuel Beckett novamente. Com esse pensamento, a atriz Patrícia Selonk sugeriu à Arrecadação Companhia de Teatro uma montagem de “Dias Felizes”, peça em que a personagem Winnie encontra em seus pequenos rituais diários uma forma de resistência contra o colapso.
Em uma superfície inclinada, Winnie, interpretada por Selonk, aparece enterrada até a cintura, no primeiro ato, enquanto lida com a luz do sol inclemente e a estridência de um sino que anuncia um tanto indecifrável. O término dos tempos? A última chance de tentar ser feliz? No segundo ato, quando aparece enterrada até o pescoço, a luz diminui e a solidão parece mais intensa, mas a mulher segue viva.
O teor da bolsa —uma escova de dentes, um batom, um espelho e um revólver— são o mote para as recordações da personagem que procura, entre o desespero e o sarcasmo, a atenção do único interlocutor verosímil, Willie, o companheiro soturno, introvertido e sibilino.
A sugestão da atriz foi feita ao grupo durante a pandemia, quando os artistas ficaram sem a possibilidade de dar ininterrupção a seus projetos e precisaram pensar em estratégias de sobrevivência. Uma das cenas de “Dias Felizes” chegou a ser registrada em vídeo na era, porém a peça só estreou para valer em maio do ano pretérito, no Rio de Janeiro.
Posteriormente participar do Porto Feliz em Cena, também em 2025, do Festival de Curitiba, em abril deste ano, e da programação do Modern Drama Valley Theatre Festival, em Shangai, na China, no mês pretérito, o espetáculo estreia no Sesc Pompeia, em São Paulo, no dia 25 de junho.
No palco, a dupla em cena vive em um mundo em que não existem mais as estruturas capazes de produzir sentido para a existência, dos pontos de vista moral, político e religioso. O desconforto, típico da obra de Beckett, escancara a fragilidade humana e também a capacidade de seguir em frente, do jeito que é verosímil: “Mais um dia feliz”, repete Winnie, em uma reação aparentemente insensata ao caos.
Willie, que pouco se comunica, é fundamental na trama por simbolizar a possibilidade que a mulher tem de ser ouvida. “Será que você consegue me ouvir? Será que você consegue me ver?”, ela pergunta.
“Acho que a pior coisa que aconteceria para ela é se perceber falando sozinha, falando para ninguém”, diz Selonk. “Encontrei nas palavras da Winnie um jeito de expressar coisas que eu já vinha percebendo. Quando li o texto, pensei: caramba, quero preencher essas palavras de vida, porque elas dão conta de sensações minhas”.
Antes de entrar em cena, a atriz costuma refletir sobre a disposição do público, nos dias de hoje, para uma confraria com uma figura que fica paragem o tempo todo, semi-enterrada em meio a um cenário seco. Beckett, ela lembra, não oferece respostas fáceis para os espectadores.
Em 1996, quando estreou sua versão de “Dias Felizes” em São Paulo, Fernanda Montenegro garantiu: “O público gosta de ator falando”. Era uma era em que os vídeos curtos, auto-descritivos e banais vistos pelos celulares ainda não haviam virado epidemia, ou seja, a capacidade de concentração era outra.
Porém, apesar das dúvidas da protagonista, a montagem da Arrecadação Companhia de Teatro arrebata o público por onde passa, inclusive na China, onde foi encenada em português e com legendas no Daning Theatre, com capacidade para milénio lugares.
Beckett escreveu “Dias Felizes” no início da dez de 1960, quando o temor da explosivo atômica assombrava o mundo. Agora, na visão do diretor Paulo de Moraes, são as catástrofes naturais que ameaçam soterrar a humanidade.
Ele criou o cenário de uma parede caída em cima de pedras inspirado no região de Atafona, em São João da Barra (RJ), que está sendo engolido pelo mar, com ruínas de construções e ruas antes cheias de vida, em uma mistura de materiais orgânicos e inorgânicos.
Montado sem patrocínio, o espetáculo usa plataformas de outras montagens da companhia e aproveita materiais guardados no repositório da sede do grupo, na Fundição Progresso, na Lapa, região meão do Rio.
No segundo ato, quando somente a cabeça de Winnie está desenterrada, um telão ajuda o público a escoltar as minúcias das expressões da atriz, em uma tradução que vai da esperança à ironia, e passa pelo desespero. Para Patrícia, é uma peça que dialoga com o mundo atual. De vestuário, mulheres contemporâneas conseguem ver a si mesmas na insistência de Winnie.
“Essa mulher, com algumas coisas dentro da bolsa e os rituais de todos os dias, encontra um jeito de seguir vivendo. Talvez ela mexa nessas coisinhas para não pensar muito na exigência em que está. Fazendo um paralelo com hoje, ficamos ali, nas redes sociais, rolando, de certa forma uma vez que uma anestesia”, diz.
A Winnie de Selonk não é romantizada e não tem pena de si mesma. É uma mulher na fita dos 50 anos que segue em frente. Wilie é interpretado em dias alternados por Felipe Bustamante, Isabel Pacheco e Jopa Moraes, leste último também responsável pela tradução do texto que transporta Beckett para os dias de hoje.
“A intenção não foi atualizar, mas revelar que essa experiência humana de persistir no meio da revés continua profundamente presente ainda hoje”, afirma Moraes.
Ao fazer a versão de “Dias Felizes” na França, Beckett mudou as citações de textos literários ingleses para obras francesas. A tradução de Jopa, por sua vez, recorre à literatura brasileira, relacionando a cultura sítio aos temas abordados pelo dramaturgo.
Há pequenos trechos de “Versos Íntimos”, de Augusto dos Anjos; “No Meio do Caminho”, de Carlos Drummond de Andrade; “Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda”, de Lamartine Babo; e “Eu Quina porque o Momento Existe”, de Cecília Meireles.
O mundo distópico de Beckett ficou em papeleta em São Paulo até o término de maio em outra peça, “Termo de Partida”, com Marco Nanini, Guilherme Weber, Helena Ignez e Ary França dirigidos por Rodrigo Portella.
No caso da Arrecadação Companhia de Teatro, é a segunda montagem de um texto do dramaturgo. A primeira, em 1998, foi “Esperando Godot”. Entre uma e outra, o diretor destaca o vestuário de agora estar mais velho e, portanto, mais próximo do universo do plumitivo irlandês, o que deixa mais aguçada a percepção da resistência.
“A resistência precisa do tempo. É simples que um jovem também resiste, insiste, mas isso leva um tempo para ocorrer de uma forma mais plena. E a teoria da resistência está no cerne de ‘Dias Felizes’. Winnie é uma mulher que insiste em resistir, em se relacionar”.





