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Halloween: capas de terror revelam o medo de cada época
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Halloween: capas de terror revelam o medo de cada época – 30/10/2026 – Ilustrada

Mais do que invocar a atenção nas prateleiras, capas de livros de terror guardam —e revelam— as ansiedades e medos do tempo em que foram produzidas.

Em “Paperbacks from Hell”, ainda não lançado no Brasil, o repórter e colecionador de livros Grady Hendrix revisita capas que circularam nos Estados Unidos dos anos 1960 aos 1990, período em que, segundo ele, a falta de temor de controvérsias permitiu designs bastante diretos.

“Não são somente as capas que fisgam o olhar. É também a escrita, que não respeita nenhuma regra, a não ser uma: ser sempre interessante”, escreve Hendrix.

O americano já publicou no Brasil títulos porquê “O Exorcismo de Minha Melhor Amiga” e “Manual das Donas de Mansão Caçadoras de Vampiros”. As capas de seus livros simulam o estilo que ele conta apreciar: simples e jocoso.

Mais do que qualquer outro gênero, diz, o terror é um resultado de seu tempo, expondo os medos de hoje e antecipando os que estão por vir. Segundo Adriano Messias, psicanalista e semioticista, as formas assumidas pelo temor variam conforme as demandas sociais. “Todo monstro tem uma relação direta com o nível de mal-estar na cultura de cada era, de cada país, de cada condição”, afirma.

Nos anos 1950, por exemplo, os medos do comunismo e de uma guerra nuclear encontraram sentença em filmes sobre invasores alienígenas, frequentemente vindos de Marte, o planeta vermelho. Por outro lado, até a epidemia de aids dos anos 1970, personagens eram mais livres para explorar sua sexualidade.

Para Messias, são sete as representações do teratológico no mundo de hoje. Os zumbis representam a exaustão e a perda de autonomia —com o “burnout” se aproximando de uma zumbificação.

Histórias sobre “doppelgängers” traduzem o temor do outro em um mundo de polarização. Os transmorfos evocam a suspeição sobre a informação diante de tanta fake news.

O ecoterror expõe a humanidade porquê agente da devastação ambiental. Ameaças tecnológicas revelam a subordinação das pessoas em um mundo do dedo que pouco compreendem. Os vampiros, sugadores de sangue, simbolizam a exploração corporativa. Já crianças cruéis expressam a instabilidade de infâncias cada vez mais roubadas por patologias.

As imagens podem mudar ou lucrar novas interpretações ao longo do tempo. “O temor nunca vai embora, ele se desloca”, afirma Messias. Por isso, monstros clássicos porquê vampiros, zumbis e o Frankenstein —personificação do temor de exclusão— persistem.

O que muda é o olhar de quem reconhece a ameaço. Se os livros de décadas passadas apostavam em capas com monstros grotescos e cenas de impacto, grande segmento da produção atual prefere sugerir e deixar que o leitor complete a imagem. O inconsciente, segundo Messias, é onde a produção ficcional repercute.

“Paperbacks from Hell” credita essa viradela ao sucesso de “O Silêncio dos Inocentes” nos anos 1990, que estimulou editoras a trocar a vocábulo terror nas lombadas por suspense ou thriller.

Capas precisam seguir também os hábitos de compra do público. “A principal particularidade para os dias de hoje é ter um tamanho de texto grande o suficiente para ser lido nas páginas de vendas online”, conta Alceu Chiesorin Nunes, diretor de arte da Companhia das Letras.

Segundo a designer gráfica britânica Divya, que produz teor sobre capas de livros nas redes, a tipografia é meão. “Insinuando gênero, era e as metáforas contidas no livro, a disposição das letras e palavras é o principal elemento de informação e definição do tom da envoltório”, diz.

Uma tendência que ela observa no mercado e que se apoia exclusivamente em tipografia e cor é o que labareda de “bratificação”. Inspirado pelo álbum “Brat”, de Charli XCX, esse estilo de design abusa do contraste desconcertante entre texto em negrito sobre fundo de cor única.

Outros padrões visuais que Divya identifica são obscuridade parcial, arranhões e rasgos —que sugerem um pouco terrificante à espreita— além de distorções e gotas escorrendo. “Já superamos a era de mulheres de costas caminhando em uma floresta enevoada”, brinca a designer.

No catálogo da Suma, selo da Companhia das Letras, as diferentes fases gráficas coexistem em Stephen King. O americano publica livros desde 1974 e essa passagem de tempo aparece nas capas brasileiras. Entre designs originais e adaptados, releituras e novas edições, a editora tem que lastrar a preferência de fãs com briefings dos editores estrangeiros.

Há ainda os limites do admissível, que variam dependendo de quem olha para a envoltório. “O designer e o responsável provavelmente diriam que a função da envoltório de terror é explorar a curiosidade do leitor e os temas principais do livro. Já a editora segmento de seu principal objetivo, que é vender a obra”, acrescenta Divya.

Na Companhia das Letras, Nunes conta que todas as capas são produzidas de modo a não “fabricar qualquer tipo de repulsa aos leitores mais sensíveis”.

Mas é provável provocar temor por meio do design? Divya garante que sim, citando o exemplo das embalagens de cigarro. “Elas são um gênero de terror por si só. Ainda petiz, ver aquelas imagens de dentes podres foi suficiente para me distanciar do cigarro para o resto da vida.”

Folha

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