Há alguma coisa de ritualístico em sentar-se onde antes ficava a tela do Cine Copan e observar a ação vertendo-se pelo rampa da antiga plateia. Rafael Gomes opera uma inversão que é, simultaneamente, espacial e filosófica: o testemunha torna-se testemunha de um mundo que desaba morro aquém, literalmente. O espaço em ruínas é um interlocutor ativo. Vigas expostas, paredes descascadas e o silêncio rachado somente pelo sistema de climatização compõem uma dramaturgia arquitetônica que engole os atores e os devolve transformados, uma vez que sobreviventes de um naufrágio.
Gabriel Leone encarna um Hamlet que recusa a monumentalidade clássica. Sua preparação em commedia dell’arte revela-se na alternância visceral entre a vacilação intelectual e a explosão física. Num momento, ele sussurra solilóquios entre os espectadores, rompendo a quarta parede com uma cumplicidade quase incômoda; no outro, ocupa sozinho a vastidão do espaço, e o repercussão de sua voz parece emanar das fundações do prédio. Aos 32 anos, Leone equilibra a impetuosidade juvenil e a consciência da falência. É um príncipe em fratura, de quem corpo traduz a paralisia moral de uma quadra.
O elenco respira uma vez que um organização único sob a direção de Gomes. Samya Pascotto constrói uma Ofélia que subverte o clichê da loucura passiva — sua cena de morte, visualmente fantástico, carrega a precisão de um gesto político contra a brutalidade ao volta. Susana Ribeiro e Eucir de Souza, uma vez que Gertrude e Cláudio, movem-se com a seriedade de quem habita uma ordem corrompida, com seus corpos tão marcados pela opulência dos figurinos de Alexandre Herchcovitch quanto pela crueza do envolvente. A direção de movimento de Fabrício Licursi garante que os 13 atores utilizem as passarelas e escadarias uma vez que extensões de seus conflitos internos, criando uma coreografia de vigilância e conspiração que nunca cessa, mesmo nos silêncios.
A luz de Wagner Antônio esculpe o espaço sem domesticá-lo. Manchas de infiltração tornam-se texturas dramáticas; a penumbra engole personagens inteiras, devolvendo-as somente quando a cena exige. É um teatro de ruinoso e resiliência, onde cada gesto carrega o peso de um prédio que se prepara para a reinvenção. O que resta, ao término, é a sensação de ter visto a uma possessão — do espaço pelo texto, dos atores pelo espaço e de todos nós pelo assombro de um príncipe que encontrou um fortaleza à sua fundura.
Três perguntas para…
… Rafael Gomes
O título Sonhos que Virão desloca o foco do “ser ou não ser” para a especulação sobre o que nos aguarda. O que essa escolha diz sobre a leitura que você e Bernardo Oceânico fizeram do texto?
O libido que moveu esse projeto sempre foi o de realizar uma encenação site-specific, nas ruínas de um cinema esquecido – portanto, um velho palácio da cultura, um templo da imaginação e de seus universos possíveis. Nesse sentido, meu libido era que o subtítulo dialogasse com esse mundo do que já não é mais em sua forma física, mas que de alguma forma ainda habita um sítio esquecido e sua concretude: os fantasmas, a arqueologia factual e afetiva, os pesadelos e os sonhos (que virão). E essa leitura, que dialoga com as projeções, a memória e os vestígios internos e externos, foi justamente uma de nossas bússolas na adaptação.
A tradução utilizada é a de Aderbal Freire-Rebento, Wagner Moura e Barbara Harrington — conhecida por sua fluidez. Porquê essa versão do texto dialoga com a ocupação espacial que você propõe?
No sítio onde estamos encenando, a peça ganha proporções expandidas – trata-se de um espaço vasto e excessivo, tanto no sentido literal quanto no sentido simbólico. De modo que a relação com a plateia já nasce dissemelhante do que aconteceria em um palco tradicional. E o libido de informação plena sempre foi nosso setentrião: fazer essa trama, esses personagens e suas paixões, a relação entre eles e seus muitos desencaixes dialogarem da forma mais nivelado provável com o público. A escolha por uma tradução que descomplicasse a linguagem, sem achatá-la ou reduzi-la, foi e é, portanto, meão nesse objetivo.
Hamlet é frequentemente lido uma vez que uma tragédia política, mas sua montagem parece privilegiar o mistério do libido e a paralisia decorrente de impasses internos. Essa escolha tem relação com o momento contemporâneo?
Penso que tem a ver com o que ainda nos move no libido de encenar essa história de mais de 400 anos. Aquilo que é de qualquer tempo e qualquer espaço, e que dispensa geografia e contexto histórico para fazer sentido. Mas suprimir a trama mais diretamente política da peça, a meu ver, não diminui suas reverberações políticas. Viver, por fim, é um tirocínio de política. Oriente protagonista lacerado entre um projeto de porvir e o fardo do pretérito, com seu enorme libido de vida sendo atravessado por circunstâncias que demandam dele a brutalidade e a violência, essa é uma trama contemporânea a qualquer momento do mundo. Logo, sim, a escolha tem também a ver com a construção de pontes para a reflexão e a experiência das plateias deste presente em que estamos.
Nu Cine Copan – av. Ipiranga, 200 – República, região meão (ingresso pela galeria do Copan). Quarta, 20h. Quinta, 17h e 20h30. Sexta, 20h. Sábado, 16h e 20h. Domingo, 17h. Temporada prorrogada até 3/5. Duração: 175 minutos (sem pausa). Classificação indicativa: 14 anos. Ingressos: de R$25,00 a R$250,00 em nucinecopan.byinti.com
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