Homero existiu? O mistério por trás do autor de ‘Odisseia’ – 07/08/2026 – Ilustrada
Tradicionalmente, Homero foi considerado um poeta que viveu por volta de 900 anos antes da Era Generalidade, na Grécia Antiga. Cego, ele teria sido o responsável por grafar dois dos poemas épicos fundamentais da Antiguidade: “A Ilíada” e “A Odisseia”.
Um gênio, portanto —mas que, segundo especialistas, pode nunca ter existido.
Cada vez mais pesquisadores contemporâneos acreditam que Homero, porquê responsável dessas duas obras basilares, não foi um quidam histórico. O nome seria a personificação de um coletivo de poetas e editores, de gerações que compilaram tradições orais e as fixaram em texto escrito.
“Não há nenhuma prova de que um responsável chamado Homero tenha existido, ao menos enquanto responsável de dois grandes clássicos da literatura mundial”, diz o historiador André Leonardo Chevitarese, professor na Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Muito provavelmente, é uma tradição ulterior a que vinculou essas duas obras, ‘Ilíada’ e ‘Odisseia’, a um único responsável chamado Homero.”
Segundo o historiador Daniel Brasil Justi, professor na Universidade Federalista do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa) e na Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ) há um consenso já muito estabelecido no século 21 de que o mais correto seja falar em Homeros e não em um único Homero.
“A gente pode assumir que esses Homeros, no plural, foram os redatores que revisaram e copiaram essas obras em suas versões escritas enquanto a tradição vocal não deixava de subsistir”, comenta Justi.
Assim, ele define Homero muito mais porquê “uma tradição de autores” do que porquê uma pessoa em si.
Responsável do livro “Sábios, Filósofos, Profetas ou Magos?” e professor na Universidade de Brasília (UnB), o filósofo Gabriele Cornelli recorda que a questão permeou a primeira lição dada pelo teuto Friedrich Nietzsche (1844-1900) na Universidade da Basileia.
“Ele trouxe uma visão muito equilibrada do problema. Disse que Homero era o poeta responsável da ‘Ilíada’ e da ‘Odisseia’, mas esta não era uma certeza histórica, e sim um pensamento estético”, comenta Cornelli.
“Não adianta procurar o Homero histórico. Resta-nos entender o Homero responsável estético, o responsável literário.”
O professor Cornelli situa as obras atribuídas a Homero, ao lado dos textos da Bíblia judaica, porquê “os pilares que fundamentam a nossa cultura ocidental”.
Vestuário é que ainda na Grécia antiga já havia se consagrado a teoria de Homero porquê responsável dessas obras importantes.
“Já no 5º século antes de Cristo os jovens estudantes atenienses tinham de aprender [os textos atribuídos a] Homero de cor, e saber inclusive comentar algumas das palavras mais difíceis”, diz Cornelli.
Foi nessa quadra, conta o perito, que muitos estudantes começaram a notar que havia discrepâncias de estilo em segmento dos textos atribuídos a Homero e a marcar as passagens que consideravam de autenticidade duvidosa.
Mas foi preciso muito tempo para que o debate ressurgisse com ênfase.
O questionamento da autoria veio com embasamento exclusivamente no finzinho do século 18, por conta do filólogo Friedrich August Wolf (1759-1824). Estudioso das obras antigas gregas, ele considerou impossível que um só responsável tivesse escrito “Ilíada” e “A Odisseia”.
A peroração foi tirada depois que Wolf observou que poemas, daquela extensão, “não poderiam ter sido compostos e preservados por escrito” naquela quadra, explica o filósofo Dennys Garcia Xavier, professor na Universidade Federalista de Uberlândia (UFU).
“A partir dessa premissa, concluiu que as epopeias deveriam ser entendidas porquê resultado de uma longa transmissão vocal, tendo sido reunidas e fixadas exclusivamente posteriormente”.
Wolf concluiu que o texto só poderia ser resultado de uma reorganização de composições orais, o que, na avaliação de Cornelli, foi fundamental para o debate, “porque deslocou a grande questão para observar se há um traço de originalidade por segmento do responsável Homero ou por segmento dos autores Homeros, ou se eles seriam exclusivamente compiladores de tradições orais anteriores”, afirma ele.
Outra questão que aparece, segundo Cornelli, é que o helênico utilizado é ‘”uma mistura muito sintético, ao ponto de com perceptível excesso ter vários dialetos diferentes”.
Mas Xavier ressalta que Wolf não pretendia provar que Homero não existiu. “Seu meta principal era a concepção tradicional de um único poeta escrevendo, sozinho e de uma só vez, os poemas exatamente porquê chegaram até nós.”
Faziam segmento da tradição grega antiga os poetas cantadores —os aedos— que se apresentavam em público, de vilarejo em vilarejo. O mais provável é que essas histórias corressem desta forma, por tradição vocal.
Com o passar do tempo, grupos de escribas passaram a compilá-las, em um trabalho coletivo que deve ter se prolongado por gerações, com revisões, edições e enxertos.
“Eram histórias que já circulavam, amplamente conhecidas e que de alguma forma foram sistematizadas por volta do século 8º ou 7º antes da Era Generalidade”, pontua Chevitarese.
Para o historiador, o que havia era uma escola de aedos, os poetas cantores da quadra, que deve ter se ocupado em reunir as obras que circulavam naquele contexto.
Chevitarese acrescenta que tudo indica que a Ilíada e a Odisseia nem tenham sido feitas pelas mesmas pessoas.
“São duas narrativas absolutamente diferentes, situadas geograficamente em lugares diferentes. Em geral, lidam com tradições orais que foram transformadas, passadas para a escrita em um longo processo temporal”, analisa.
O filósofo Aldo Dinucci, professor na Universidade Federalista do Espírito Santo (UFES), lembra ainda de uma outra teoria, a levantada pelo plumitivo britânico Samuel Butler (1835-1902), tradutor da “Odisseia”.
No seu livro “The Authoress of the Odyssey” ele sustenta uma teoria de que a obra teria sido escrita por uma autora mulher —enquanto Ilíada, esta sim, teria sido feita por um varão.
Dinucci afirma que a arquitetura e a narrativa coerentes da obra permitem ver uma forma final porquê resultado de “um planejamento sofisticado”.
“Mas se entende que tanto Ilíada porquê Odisseia nascem de uma longa tradição vocal herdada ao longo de séculos. E que o texto que nos chegou é uma certa cristalização dessa tradição”, afirma.
O nome
O professor Xavier apresenta algumas hipóteses interessantes que podem dar pistas sobre o nome Homero, caso tenha sido esta uma denominação inventada. Segundo ele, a etimologia mais imediata avalancha ao substantivo “refém”, em helênico. “Nesse caso, o nome poderia ter significado literalmente ‘o refém’, ‘aquele entregue porquê garantia’ ou ‘o penhor'”, explica.
Pode-se interpretar que seja o nome escolhido para salvaguardar os itens de valor daquela tradição vocal, porquê uma garantia que ficaria em cofre seguro —o registro escrito— enquanto a versão vocal poderia se perder.
“Biografias antigas procuravam explicar nomes famosos mediante episódios narrativos, construindo uma condição biográfica a partir de uma semelhança lexical. O procedimento é publicado porquê etimologia biográfica ou narrativa: parte-se do nome para inventar ou organizar uma história que pareça justificá-lo”, diz Xavier.
“No caso específico de Homero, a coisa toda resta por ser explicada”, acrescenta.
Há ainda a tradição que retrata Homero porquê um velho sábio cego. Isto porque, conforme explica Xavier, a termo poderia valer “cego” em um dialeto da região da antiga cidade de Cime, na atual Turquia.
Ele conta que há um relato biográfico idoso de Homero que diz que o poeta se chamava originalmente Melesígenes —e passou a ser chamado Homero depois de perder a visão.
“Essa explicação exerceu enorme influência sobre a imagem tradicional de Homero”, afirma o professor. “O poeta cego tornou-se uma figura canônica na arte, na literatura e na historiografia antiga.”
Chevitarese não descarta, mas, que o nome Homero seja uma referência ao mais famoso dos compiladores daquela quadra.
“Embora seja alguma coisa muito mais teórico do que alguma coisa que possamos provar”, salvaguarda.
Mistério eterno
Dada a carência de registros, muito provavelmente nunca ficará provada a existência ou não de Homero enquanto figura histórica.
“A resposta mais rigorosa que a boa ciência pode oferecer é: não existem provas diretas de que Homero tenha existido, mas também não existe qualquer evidência irrefutável que permita concluir que ele nunca existiu”, afirma o professor Xavier.
A posição preponderante entre os especialistas evita ambos os extremos.
“Homero permanece uma figura historicamente verosímil, embora sua existência não possa ser demonstrada com os critérios normalmente exigidos pela investigação historiográfica moderna”, prossegue Xavier.
“Não temos inscrições, documentos oficiais, correspondência, dedicatórias, moedas, túmulos identificáveis ou qualquer testemunho contemporâneo que mencione um poeta chamado Homero.”
Assim, resta a literatura atribuída a ele. Esta, ao que tudo indica, permanece inexaurível.





