Ian McEwan: IA não transa, então não ameaça a literatura – 24/05/2026 – Ilustrada
A um mês de completar 78 anos, Ian McEwan tem se predisposto mais a pensar o porvir. Um dos mais aclamados escritores de língua inglesa, o britânico nunca se mostrou avesso a perscrutar novas tecnologias, curioso para sentir o pulso da longa marcha da humanidade.
Não é uma relação sem conflitos. Diante de problemas de conexão na entrevista que concedeu à Folha, brinca que “nunca fez uma chamada de Zoom que não deu qualquer problema”. Mas fala num tom risonho, por fim, uma vez que sabe quem leu obras fundamentais uma vez que “Reparação” e “Na Praia”, a notícia entre as pessoas sempre foi enxurro de pedregulhos.
Agora o redactor elabora a dificuldade de entendimento entre as gerações, num alerta suave que ecoa com elegância em seu novo romance, “O que Podemos Saber” —publicado agora pela Companhia das Letras e antes distribuído pelo clube de assinaturas TAG Livros.
A obra, recebida uma vez que a volta à forma de um responsável cujos últimos livros tiveram recepção mais apagada, se passa no ano de 2119. Tom, o protagonista, é um pesquisador de história da literatura especializado no período de 1990 a 2030, antes de o planeta passar por uma grande inundação disparada pela crise do clima e desdobrada em guerras territoriais e no sumiço de várias metrópoles.
A evolução tecnológica, que hoje se enxerga uma vez que inevitável, é bruscamente interrompida pela escassez de recursos provocada pelo evento climatológico de meados do século 21, que os personagens lá do porvir chamam de Desarranjo. É um pouco que McEwan tem transparência de que vai sobrevir em qualquer momento —ou melhor, diz que é um pouco que já começou.
A pesquisa do personagem é sobre um poeta, Francis Blundy, que teria deixado um poema mítico, um libelo em resguardo do meio envolvente, dos quais paradeiro se perdeu há muito tempo. A única pista é que o texto foi lido numa sarau de natalício de sua esposa, a diligente Vivien Blundy, pois foi escrito em homenagem a ela. Em uma viradela típica de McEwan, logo descobriremos que a verdade tem cores muito diferentes.
Na entrevista a seguir, o redactor projeta o porvir enquanto discute a preço de lembrar o pretérito —mesmo com a noção contraditória de que nunca entenderemos os fantasmas de quem nos precedeu. No livro e na conversa, McEwan oferece uma visão multiangular, uma vez que quem dirige um sege numa estrada em risca reta enquanto sabe que tem que manter o olho no retrovisor.
Um de seus principais interesses em ‘O que Podemos Saber’ é a grande intervalo entre o que autores conseguem compreender com suas pesquisas e aquilo que de indumento aconteceu na veras. Por que o sr. considera esta questão tão relevante?
De evidente modo, levante é um romance sobre biografias. A dificuldade, o charme e a formosura das biografias. É segmento de uma questão mais ampla: o que conseguimos saber sobre qualquer coisa? Sobre o outro, sobre a história, sobre o presente?
E um bom jeito de olhar para o presente é imaginar o que alguém do porvir, olhando para trás, acharia de nós.
O livro é um tipo de ficção científica, mas sem muita ciência. Li muitos livros sobre o porvir, mas eles nunca falam de história, do porvir das humanidades. A ficção científica foi capturada pela tecnologia, por robôs e naves, mas nunca senti que estava sendo orientado a uma especulação real de uma vez que seria a vida.
Sua projeção do porvir parece uma cortinado de fumaça para sua verdadeira preocupação: uma vez que e por que devemos estudar o pretérito.
Por mais indeterminado que seja [esse esforço], tentar compreender o pretérito —em próprio os últimos 100, 150 anos— é crucial. É por isso que também trago no romance a história de um varão com Alzheimer. Quando se perde a memória, se perde a individualidade.
A história da lenta desintegração da identidade do fazedor de violinos [Percy Greene, personagem do livro] é uma miniatura do sinistro que se abate sobre uma sociedade que não tem noção de seu pretérito.
O sr. pinta um quadro muito sombrio do porvir da humanidade, com inundações, guerras e desastres esperando por nós logo ali na esquina. Mas também pode ser uma visão otimista —por fim, ainda continuamos cá depois de tudo isso.
É um tipo de otimismo nuançado, ou, se preferir, um pessimismo nuançado. Nós já estamos no desarranjo das mudanças climáticas.
Em todo o mundo, sofremos de um profundo pessimismo cultural. Leio hoje mais histórias com pessoas de olho em catástrofes vindas do clima, de guerras nucleares ou dos perigos da perceptibilidade sintético. Parecemos muito fixados em uma vez que vai terminar o projeto humano.
Enfrentamos uma crise de contração. Vários países estão com metade dos níveis necessários para substituir sua população. Uma vez que as mulheres têm controle de sua reprodução, elas param de ter cinco ou nove filhos, escolhem ter dois. No Japão, na Coreia do Sul, no Canadá, estão inferior de um. É outra catástrofe: se não substituirmos todos os mortos, vamos contrair.
Minha suspeita é que o que vai nos matar é o pessimismo. É isso que permite todo o resto. Se você perde a fé no progresso humano, já está escrevendo o nosso término.
Mas em paralelo a isso, há milhares de projetos otimistas ao volta do mundo. Nós não os conhecemos nem nos unimos a eles. Por exemplo, há um enorme movimento de restauração da vida selvagem cá no Reino Unificado. Isolamos uma espaço de centena milhas quadradas na costa da Escócia, onde a pesca é proibida. E os biólogos marinhos ficaram impressionados com a rapidez com que a natureza reagiu a isso.
Assim, o romance reflete meu sentimento de que nós passaremos por catástrofes, mas conseguiremos passar raspando. Vamos sobreviver, assim uma vez que sobrevivemos a duas guerras mundiais no século 20.
O sr. apresenta uma visão bastante dura da nossa geração. Século anos no porvir, seremos vistos uma vez que um grupo de pessoas ambiciosas e negligentes, que se preocupam com lucro e guerra sem pensar no longo prazo. Diria que nossa geração é particularmente estúpida ou seguimos o padrão histórico da experiência humana?
A natureza humana é uma regular. Temos mais poder de promover dano do que as pessoas vivendo na Idade da Pedra, mas acho que eles seriam tão brutais quanto nós.
Lembre que o meu pesquisador, vivendo daqui a um século, está olhando para nós com inveja. Ele admira muito do que nós subestimamos. Estamos vivendo uma era de incrível expansão nas ciências, na cosmologia, na bioquímica. E ele patroa nosso espírito aventureiro, a ousadia de gastarmos bilhões em um telescópio para deslindar as origens do universo. Temos muito a nosso obséquio e muito contra nós. Vivemos tempos interessantes.
Mas todo o poder que temos hoje, com avanços na perceptibilidade sintético e na geração de bombas nucleares, não muda uma vez que nos comportamos?
Entendo que a velocidade da mudança tecnológica esteja acelerando. Mesmo assim, a maioria da população ainda se preocupa com gerar seus filhos, ter seus relacionamentos, fazer aquilo de que os romances falam há séculos. Os Estados Unidos estão numa guerra estúpida com o Irã, mas as pessoas estão preocupadas com o preço da gasolina.
Nós vamos mudar fundamentalmente? É uma possibilidade, não tenho teoria. Acho que a IA vai ter um impacto colossal em uma vez que vivemos e pensamos. Mas há fundamentos que permanecerão os mesmos.
No seu livro, a perceptibilidade sintético tem um papel curioso, servindo uma vez que um tipo de oráculo a que as pessoas recorrem para ouvir conselhos.
Isso já está acontecendo também. Desde que escrevi o livro, vejo jovens buscando a IA para falar de seus pais, suas relações, seu porvir.
Veja só meu cunhado, um ciclista enamorado e católico fervoroso. Ele foi fazer o caminho de Santiago de Compostela de bicicleta e pediu dicas à IA. Ela disse: “Relaxe, a questão não é o rumo, é a jornada.”
É um bom juízo, mas ele poderia ter ouvido o mesmo do pai dele.
O sr. usa IA para alguma coisa?
Não. Adoraria, mas não consigo imaginar para que iria querer usar. Todo mundo ao meu volta usa. Leio sobre isso e tenho muito interesse. Mas talvez eu tenha vivido o suficiente para só querer me movimentar dentro da minha própria cabeça.
Muitos escritores veem a IA uma vez que uma ameaço, não só por questões de direitos autorais, mas dizendo que pode reduzir a curiosidade e a inventividade.
Eu concordo. Até agora, a IA produz prosa muito medíocre, suas metáforas são bobas e extravagantes. E a limitação é que a IA não vive dentro de um corpo. Não sabe de verdade o que é a dor, o paixão, a alegria, o luto.
Um dia desses, quem sabe, vai conseguir nos enganar fingindo que tem. Mas sem um corpo, quanto você consegue entender sobre as pessoas? A IA nunca transou com ninguém. Não conhece os prazeres do paixão. É isso que digo para mim mesmo para acalmar o pânico de pensar que todo romancista vai perder o ofício.
O sr. imagina um porvir muito analógico. Seus personagens leem livros impressos, exploram bibliotecas e têm rotinas familiares a nós. O sr. projeta que a vida será assim daqui a centena anos ou compôs o romance dessa forma por ser uma vida mais próxima da sua?
Um pouco dos dois. Século anos não são tanto assim. Nos primeiros rascunhos, eu estava 400 anos adiante de nós, mas tive dificuldade, porque a nossa língua provavelmente mudará bastante. Século anos detrás, havia telefones, filmes, automóveis —muito do que hoje define a vida moderna.
Se eu pudesse viajar no tempo, me dividiria entre espreitar daqui a centena anos ou daqui a 10 milénio anos. Nós não saberemos, não estaremos cá, mesmo que Elon Musk e seus amigos esperem estender a mortalidade.
Eu estou perto de completar 80 anos. Se tiver sorte, terei mais 10 ou 15 anos de vida consciente. E acho que até lá continuaremos nessa mesma bagunça de agora.
Que tipo de arte produzida hoje vai perdurar daqui a centena anos?
O romance ainda é o melhor meio de descrever quem somos e entender nossas relações com os outros e com a sociedade. Não encontro isso nos filmes nem nos palcos, essa possibilidade sem limites de estudo e projeção.
Os problemas que enfrentamos no dia a dia —mourejar com a morte de um pai, com um divórcio ou uma traição— podem ser representados em diversas formas de narrativa, mas ainda precisam de linguagem. E o romance, que tem exclusivamente 300 anos de história, nos deu ferramentas que nunca tivemos antes. Aguçou nossa identidade. Tornou nossos universos mentais lugares um pouco mais vastos.
Estamos fadados a continuar fazendo isso. Com todas as máquinas que temos, ainda vamos querer nos enamorar. Tudo que fascinou o romance do século 19 vai continuar nos fascinando. Ainda lemos “Anna Karenina”, Flaubert, Cortázar.
O sr. explora bastante no livro a permanência da prosa contra a da verso no tempo.
A mais subida forma literária que temos é a verso. A prosa tende a escoltar destinos ao longo de um período de tempo. O poema nos dá o agora, a percepção deste momento, nossa premência existencial de olhar para um rosto ou uma paisagem.
Não consigo imaginar isso morrendo enquanto as pessoas se deslumbrarem pelo mero indumento de existirem. Viver sem verso é viver metade letargo.
Proferir isso não é subestimar seu próprio trabalho uma vez que romancista?
É. Um pouco de humildade.
Seu protagonista diz sentir nostalgia por lugares e tempos que nunca conheceu. O sr. sente um pouco parecido?
Sim. Vivo numa ilhéu pequena comparada ao Brasil. É linda, mas a cultura industrial a estragou bastante. Penso no primórdio do século 19, quando estavam vivos poetas britânicos uma vez que Wordsworth, Coleridge, Keats, que vagavam por paisagens fabulosas com animais e flores silvestres, e sinto uma nostalgia colossal.
A verso, naquele momento, acordou todo mundo. A formosura das montanhas precisava ser invenção pelos poetas românticos, e isso é um pouco que eu teria adorado testemunhar.
Mas não é preciso viajar muito longe no pretérito até não ter mais chegada a anestesia. Dar à luz naquela idade era muito perigoso. Seus dentes estragavam no seu crânio e ir ao dentista era visitar os portões do inferno. Logo não romantizo o pretérito. Mas, pelos poetas, sinto essa saudade.
RAIO-X – IAN MCEWAN, 77
Em atividade desde os anos 1970, quando publicava coletâneas de contos, é considerado um dos principais romancistas da atualidade. Suas obras intercalam thrillers políticos e meditações sobre relacionamentos humanos. Venceu o prêmio Booker por ‘Amsterdam’, em 1998, e foi indicado ao troféu outras quatro vezes. Um de seus livros mais celebrados, ‘Reparação’, de 2001, foi adequado por Joe Wright seis anos depois no filme ‘Libido e Reparação’, vencedor do Oscar. Dramaturgo e professor, deu aulas em instituições uma vez que o University College London, que lhe conferiu título honorário de doutor em literatura
Cinco livros para saber Ian McEwan
‘Amsterdam’ (1998)
Um convénio entre dois homens sobre eutanásia desemboca em rede de intrigas fatais
‘Reparação’ (2001)
Uma moçoila arruína a vida de um par mais velho ao recontar uma moca
‘Sábado’ (2005)
Acompanha um dia na vida de um cirurgião sob a tensão da violência e da guerra
‘Na Praia’ (2007)
Romance curta sobre um par que se afasta por angústias em relação à sexualidade
‘Enclausurado’ (2016)
Romance exposto por um feto que escuta um transgressão de dentro do útero





