Indianos tensionam corpos e evocam deuses em exposição – 26/08/2026 – Ilustrada
Homens transam num quadro de tons terrosos, mas a pintura de T. Venkanna não evoca prazer. É que, ao volta deles, paira uma atmosfera fantasmagórica, que inscreve sombras escuras sobre seus corpos. São camadas alternativas de pele, ora opacas, ora translúcidas, que rompem limites dessas figuras e reúnem genitais masculinos e femininos.
Noutra tela, essa de Shine Shivan, o libido também ofídio um preço sombrio. Por fim, dois seres de cabelos longos são totalmente apagados pelos cachos negros, que tomam a moldura de tá a ordinário, e por nuvens pretas presas aos rostos. Só se vê o perímetro das faces e as línguas que buscam uma à outra.
Apesar das caveiras, dos olhos arregalados e dos membros cor de sangue, em quadros e esculturas, nem tudo são trevas na mostra “Índia”, que une artistas contemporâneos ao ver raízes culturais e espirituais do país asiático. Daí surgem, por exemplo, os trabalhos de Acharya Vyakul, que priorizam um tom mais lúdrico ao reduzir a anatomia a manchas que parecem se dissolver.
Em papeleta no velho Palácio dos Duques de Cadaval, na cidade de Évora, em Portugal, a exposição revê elos entre a biologia humana, as forças da natureza e o misticismo emanado por deuses ou mesmo por iconografias famosas.
Quanto às últimas, um bom representante é “Back to Save Humanity”. Também de Venkanna, a pintura emula um campo de guerra, tomado por máscaras ancestrais, tanques de guerra, dinossauros ferozes, crocodilos que lembram aliens de Ridley Scott, um médico da peste negra e até a imagem de Saturno devorando um avião militar, em referência à obra de Goya.
De um jeito ou de outro, a tela ilustra destruições provocadas por símbolos do imaginário. “Meu trabalho surge de coisas que encontramos no dia a dia”, explica o artista indiano, que ganhou glória por misturar erotismo e visceralidade.
“O corpo é precípuo, pois é onde o libido, o susto, o humor, a violência, a devoção e a vulnerabilidade coexistem. Não me interesso por ele uma vez que alguma coisa idealizado, mas uma vez que alguma coisa puramente humano e contraditório.”
Já os traços de Mayank Kumar Shyam propõem uma relação harmoniosa entre varão e envolvente. Num de seus desenhos vibrantes, um tronco de madeira se confunde com um corpo sinuoso, que se desdobra em pernas, braços e peitos. Revestido por galhos, o que se vê é um ser metade árvore e metade mulher.
É um estilo que dialoga, de certa forma, com o de Jivya Soma Mashe, que utilizava estrume de vaca para retratar costumes do povo Warli, que o criou. Da pesca à reparo de pássaros, ele se especializou em pintar redes com tracejados brancos, que unem grilos, peixes e outras espécies em obras que comparam a pequenez do varão à graduação monumental da natureza.
Em seguida perder a mãe aos sete anos, Mashe deixou de falar e escolheu as artes uma vez que forma de informação. Morto em 2018, dedicou-se a obras animistas, que reconhecem a presença de uma espírito em tudo que existe, e se firmou uma vez que expoente das artes tribais da Índia.
Segundo o curador da mostra, Hervé Perdriolle, a teoria de “fertilização” faz jus a esses trabalhos que embaralham desejos internos, o estabilidade entre o varão e o mundo e tradições populares. O francesismo compara a inconstância indiana à brasileira.
“Porquê a Índia, o Brasil nos oferece o que há de melhor nas artes que recuperam vanguardas antigas e na arte contemporânea, no sentido plural do termo. Particularidades desses dois países permitem festejar a riqueza cultural e ampliar seu alcance.”
O crítico de arte ainda destaca indianas uma vez que Sosa Joseph e Siji Krishnan, que centralizam mulheres em ilustrações campestres e ribeirinhas. Numa das telas da primeira, uma moça carrega um varão pálido. Dissemelhante dele, vermelhos fortes emanam de seus cabelos e roupas, enquanto borrões verdes e roxos se misturam num lugar mágico, uma fusão entre uma cidade e uma vila rústico.
Com uma paleta mais tímida, as obras de Krishnan apostam em tons claros para recordar memórias que ameaçam vanescer, mas resistem. É o caso da pintura em que uma jovem se confunde com manchas que lembram o fluxo de um rio, uma vez que se a personagem e a natureza fossem uma coisa só.
Ora em traços mais infantis, com seres alegóricos inscritos em tons terrosos, ora em obras minimalistas que seguem a filosofia tantra, usando formas geométricas e cores primárias para recordar espiritualidade, “Índia” sintetiza relações entre o corpo e suas diversas bagagens simbólicas.
Zero é desconsiderado. Por fim, as esculturas de Prashant Pandey são conhecidas justamente por rever materiais descartados. É o caso da esfera, feita com bitucas de cigarros usadas, que surge no palácio uma vez que um meio gravitacional.





