Foi em 1929 que o surrealista belga René Magritte materializou a separação entre objeto e representação na canônica pintura “A Traição das Imagens”. A obra é inescapável. Sob o fundo bege, um cachimbo marrom, de piteira escura, separada da cabeça por uma tira clara. Aquém da imagem, inscrito em gaulês, em letras cursivas, o mote repetido ad nauseam, “isto não é um cachimbo”. A proposta era clara. O objeto e sua representação não são uma coisa só.
À primeira vista, o compasso gigante reclinado na parede da galeria Fortes, D’Aloia & Gabriel, nos Jardins, na zona Oeste de São Paulo, parece tomar dessa nascente. Mas, com quase dois metros de profundidade e pesando mais de 50 quilos, a estátua de Iran do Espírito Santo é, sim, um compasso.
“Compasso”, enfim executada depois de sete anos de sua concepção, é idêntica a um compasso em todos os seus detalhes. Cada ponta, dobradiça e parafuso é feito para funcionar. Tecnicamente, basta colocar uma lasca gigantesca de grafite para que “Compasso” opere porquê o objeto que a originou.
A obra foi o pontapé para “Peças Frias – O Traçado”, mostra que faz uma retrospectiva parcial da obra de Espírito Santo, em atividade desde os anos 1980. Os seis trabalhos realizados de 2007 a 2025 estão em exibição na galeria até o dia 8 de agosto. É a primeira vez que “Traço e Sombra 4” e “Alambrado” são exibidas no Brasil.
O título da mostra vem das “Pièces Froides” compostas pelo gaulês Erik Satie no final do século 19. Segundo Espírito Santo, solos de piano frios de Satie têm paralelos com seu trabalho, espezinhado na carência de cor, em materiais porquê aço e alumínio, e na precisão dos desenhos técnicos, “derivados de instrumentos, de gabaritos, de régua, compasso”.
Muito porquê “Compasso”, se destaca pela graduação a estátua “Porca”, uma porca sextavada de aço inoxidável de 40 centímetros. Ela é exibida na galeria sem parafuso, direcionando o olhar dos observadores ao seu interno espiralado e perfeitamente polido.
Para Espírito Santo, uma porca gigante e tão perfeita acaba sendo quase uma concretização da teoria do que é uma porca. “Porquê se ela fosse um figura tridimensional”, diz ele. Apesar de sóbrias, o tamanho e a precisão de “Compasso” e “Porca” as tornam esculturas bem-humoradas. O esforço da exatidão nas obras contribui para que os objetos cotidianos que elas representam sejam alçados a um pedestal.
Deslocados de suas funções, resta a forma. Admira-se, assim, não só a obra de Iran do Espírito Santo, mas o aço, o alumínio, as porcas e os compassos.
“Compasso” levou sete anos para ser executado. O artista tomou o não de várias usinas metalúrgicas antes de descobrir, em Turim, na Itália, uma fábrica disposta a produzir o objeto gigante.
Originalmente voltada à indústria automotiva, foi da fábrica de Turim que veio a teoria de usar o alumínio, uma vez que o aço dificultaria a realização e resultaria numa peça muito mais pesada.
Na fábrica, Espírito Santo se sente porquê um estranho no ninho. Ele diz que existe tensão em fazer demandas estéticas e conceituais num espaço, completamente voltado à função dos objetos. Mas foi durante a produção na Itália que o compasso começou a ser associado com o “Varão Vitruviano”, figura de Leonardo da Vinci que inscreve o corpo masculino, com braços e pernas abertos, num círculo perfeito, traçado com compasso.
“Não foi o que me motivou a fazer esse trabalho”, diz Espírito Santo, “mas os significados começam a eclodir enquanto você está lidando com a obra”.
O artista se debruça sobre as ideias de graduação e representação desde o início da curso. Nascido em Mococa, na lema de São Paulo e Minas Gerais, Espírito Santo se formou em artes plásticas na Instalação Armando Álvares Penteado, a FAAP, em 1986.
Lá, ele teve lição com Nelson Leirner, um dos fundadores do Grupo Rex. No mesmo ano em que se formou, Espírito Santo participou da mostra “Novidade Dimensão do Objeto”, onde apresentou a obra “Esc: 1: 01”, um esquema de orbe terrestre feito com isopor cinza, imitando pedra.
Na era, a arte brasileira estava tomada pela Geração 80, marcada por pinturas de pinceladas gestuais e pelas cores extravagantes. Espírito Santo diz que se identificava muito mais com a arte conceitual da geração que o antecedeu.
“Acho que é um libido de controle”, ele diz. Para o artista, existe uma expectativa dos países europeus de que a arte brasileira seja intuitiva, ligada ao corpo e à natureza. Mas ele rejeita a noção de que sua arte, cerebral, precisa e austera, não pareça brasileira. “Sou tão brasílico quanto qualquer outro brasílico.” Tanto que ele representou o país na Bienal de Veneza em 1999 junto de Nelson Leirner.
Espírito Santo voltou à mostra em 2007, quando apresentou “Sem título (Alambrado)”, um figura de uma tela de alambrado feito em marcador permanente diretamente sobre a parede. O trabalho agora é reproduzido no Brasil pela primeira vez na parede da galeria paulistana.
A obra não procura ser uma reprodução impecável de um alambrado. São, por fim, mãos humanas que desenham a muro a partir de um gabarito.
Espírito Santo, tão afeito aos padrões industriais e ao controle, se encanta com as irregularidades do alambrado. Para ele, é aí que mora a subjetividade. “A etimologia da termo ‘drawing’, em inglês, vem de ‘draw’, de trazer para perto”, ele diz. “É um tipo de apropriação.”




