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Ivan Viripaev: incomunicabilidade em cena no CCBB 05/05/2026
Celebridades Cultura

Ivan Viripaev: incomunicabilidade em cena no CCBB – 05/05/2026 – Mise-en-scène

O relógio marca cinco da manhã, mas o tempo na cozinha de Barbara e Werner parece ter glacial em um impasse. Em “A Traço Solar”, o dramaturgo Ivan Viripaev utiliza o esgotamento de um parelha uma vez que um microscópio para observar uma vez que a fala humana perde sua função de ponte e passa a operar uma vez que um muro. Sob a direção de Marcelo Lazzaratto, o que começa uma vez que uma luta doméstica se expande para uma investigação sobre a impossibilidade de se habitar o mesmo projecto de verdade que o outro. A discussão, que já atravessa a madrugada, revela o ponto exato em que a tentativa de se fazer entender se transforma em um esforço para vergar a vontade alheia.

A montagem brasileira, idealizada por Carol Gonzalez, remove os excessos decorativos para que o texto de Viripaev ocupe o meio da cena. No espaço desenhado por Simone Mina, as cadeiras móveis funcionam uma vez que planta de forças em jacente mutação. Carol Gonzalez e Chico Roble operam em uma frequência de atenção absoluta, onde cada vocábulo é lançada com a precisão de um lance de xadrez. O humor que atravessa a peça serve para patentear o contraditório de duas pessoas que, posteriormente sete horas de embate, ainda acreditam que uma explicação definitiva poderá salvá-las da própria incomunicabilidade.

O noção da traço solar que separa os protagonistas remete a uma intervalo que a linguagem não consegue encurtar. Barbara insiste em uma fusão onde as diferenças sejam apagadas em nome do paixão, enquanto Werner se posiciona na resguardo de sua individualidade, apontando a incapacidade dela em mourejar com a alteridade. Essa fronteira invisível é iluminada pelo próprio Lazzaratto de modo a tornar visível o cansaço que emana dos corpos. A luz atua uma vez que um elemento que pressiona os personagens, ressaltando o isolamento de cada um mesmo estando a poucos centímetros de intervalo.

O texto, com tradução de Elena Vássina e Aimar Labaki, permite que o público perceba uma vez que a repetição das frases e a insistência nos mesmos argumentos criam uma espécie de vertigem. Essa estrutura rítmica leva a peça para além do realismo, aproximando-a de uma experiência metafísica sobre os limites da consciência humana. Ao espelhar essa crise privada em um contexto mais vasto, a obra sugere que as falhas estruturais que impedem o entendimento na cozinha são as mesmas que geram as rupturas políticas e sociais observadas no cenário global de 2026.

A trilha sonora de Eddu Ferreira pulsa sob a fala dos atores, sustentando o clima de urgência que precede o término de um ciclo. O que se vê no palco do CCBB não é somente o retrato de uma separação, mas a exposição de um mecanismo quebrado. Viripaev propõe que o desentendimento não é uma falta de caráter dos indivíduos, mas uma quesito de um sistema de informação que entrou em colapso.

Três perguntas para…

… Carol Gonzalez

Você teve contato com oriente texto em 2018, em Paris, e desde portanto trabalhou para trazê-lo ao Brasil. O que naquela primeira leitura indicou que essa obra deveria ser montada no cenário brasílico atual?

“A Traço Solar” expõe o problema de informação que atravessamos — uma questão atual do mundo, e acredito que não somente do Brasil. As personagens Barbara e Werner reproduzem, em suas ações, o desequilíbrio da nossa sociedade, na qual somos atravessados pela intolerância e nos encontramos cada vez mais divididos, separados por muros, ideologias e opiniões. Viripaev expõe os sofrimentos e as contradições de suas personagens para abordar, de maneira indireta, a crise sociopolítica contemporânea. A peça trata dos extremismos, do ódio e da impossibilidade de informação; aborda a perfeita “incompreensão de tudo”, uma vez que diz o personagem Werner.

Na peça, a questão da alteridade é mediano. Vemos dois personagens que desejam se compreender, mas não conseguem se colocar no lugar do outro; dois personagens que se amam, mas cogitam se separar por não conseguirem trazer o outro “para o seu lado da traço solar”. A peça expõe o mundo individualista em que vivemos atualmente e fala do nosso “lirismo” contemporâneo — em que nunca falamos tanto de nós mesmos, nos fotografamos e mostramos nossas vidas cotidianas por meio das redes sociais —, mas, paradoxalmente, estamos cada vez mais isolados.

Existe um humor muito específico, quase cruel, no texto. Porquê você e o Chico Roble trabalharam o “timing” para que o público sinta o ridículo daquela situação sem perder a seriedade do conflito?

Eu procuro sempre estar na escuta do Chico, jogando junto com ele e respondendo às “provocações”, no bom sentido, e ritmos que vão surgindo do seu jogo e que acabam me inspirando. Mas esse “timing” também está presente no próprio texto de Viripaev e na direção de Marcelo Lazzaratto.

Na peça, assistimos à insuficiência do teatro em enunciar uma verdade sobre o varão e o mundo. Coloca-se às claras a enfermidade do médium teatral, reenviando, no mesmo gesto, os espectadores à situação mais rudimentar: uma conversa entre duas pessoas incapazes de deixar desabar a frente detrás da qual se escondem e, para sempre, divididas por uma invisível “traço solar”.

A escrita de Viripaev retira seu potencial, aliás, dessa exposição e do questionamento da teatralidade, por meio, entre outras coisas, da explicitação do ato interpretativo do ator. O responsável dá vida aos personagens sem deixar de revelar o ator em cena, por meio de uma escrita que cria ações de grande intensidade dramática, resultando em situações cômicas, fruto do contraste entre a violência e a verso próprias do seu teatro.

Percebemos um esquema recorrente na peça: ações que se desenvolvem em um movimento ascendente de tensão dramática resultam em atos inusitados, um pouco absurdos (mas coerentes com o estado atual caótico do mundo), chegando, ao final, a situações de verdadeiro refrigério cômico. Através desse jogo proposto pelo responsável, parece que vemos a máscara do personagem desabar e revelar, por detrás dela, os atores em cena. Esse efeito cria a passagem inesperada do dramático ao cômico ou do cômico ao trágico, dando a sensação, quando a ação se completa, de que estávamos assistindo a uma gracejo ou a um jogo.

Acho que esse esquema faz com que o público sinta o ridículo da situação sem que nós, atores, percamos a seriedade do conflito. Tudo isso combinado com uma direção precisa de Lazzaratto, que nos propõe vetores de ação por meio de marcas dinâmicas, em correspondência ao ritmo dessa vocábulo pronunciada em cena e à sua trajetória de associações de ideias.

A direção do Marcelo Lazzaratto foca muito na verticalidade e na vocábulo. Porquê é terebrar mão de recursos mais “decorativos” da atuação para responsabilizar quase inteiramente na partitura do texto?

Uma delícia! Em “A Traço Solar”, a vocábulo é a personagem, a máscara. Pela forma uma vez que a vocábulo se constrói, entendemos a personagem, seus conflitos e estados emocionais. O texto vai nos guiando sem precisarmos utilizar recursos psicológicos ou “decorativos”, uma vez que você mencionou.

Um dos fatores que também me surpreende na escrita de Viripaev, e cá em “A Traço Solar”, é a maneira uma vez que ele constrói diálogos que conseguem captar o estado de incomunicabilidade dos tempos atuais de forma retrabalhada e original. A peça é composta por uma vocábulo “esfacelada”, repetitiva, enxurrada de palavrões, que se transformam na matéria-prima e no trunfo do responsável. Viripaev utiliza os próprios “defeitos” atuais da linguagem de maneira rítmica e poética, ressignificando a informação contemporânea e nos fazendo refletir sobre o estado atual do mundo pela via do humor, por meio dos choques criados por essa língua extenuada.


CCBB – rua Álvares Penteado, 112 – Meio Histórico. Quinta, sexta e segunda, 19h. Sábado e domingo, 18h. Até 17/5. Duração: 70 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. A partir de R$ 15 (meia-entrada) em bb.com.br/cultura



Folha

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