Janones desafia a esquerda a abandonar a ‘campanha fofa’ – 18/08/2026 – Wilson Gomes
André Janones anunciou no X que está de volta à traço de frente da campanha de Lula. Disse ter “aceitado a missão”, publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: desistir a “campanha fofa” e entrar na guerra do dedo “sem terror, sem pudor e sem remorso”.
Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.
O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o “extermínio completo do bolsonarismo” e declarou-se pronto para “matar ou morrer”. Depois, acusou seu campo de “treinar fofo”, enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.
Em seguida vieram a retrato, o proclamação da suposta missão e a enunciação de guerra. Finalmente, convocou a militância a desistir a “esquerda limpinha” e escolher suas armas, prometendo “tiro, porrada e explosivo nas redes, 24 horas por dia”.
Pode ser unicamente Janones reivindicando para si um lugar que a campanha de Lula não lhe concedeu. De toda forma, é interessante uma vez que ele revela uma concepção bastante precisa de informação eleitoral que é compartilhada por secção considerável da militância: não se pode ter nojo de sujar as mãos e lutar na vasa, se necessário.
Campanhas eleitorais sempre combinam estilos de informação. Há a campanha solene, submetida à legislação, às pesquisas, às alianças e ao conta reputacional do candidato. E há partidos, parlamentares, influenciadores, militantes e redes de escora que atuam com graus de coordenação e autonomia. Alguns podem assumir as tarefas que o núcleo solene não quer incorporar à sua voz.
É esse lugar que Janones reivindica. “Um governo tem limitações que nós não temos cá pelas redes”, escreveu ao remitir Lula, o governo e a Secom daquilo que considera a incompetência do dedo da esquerda. A proposta é uma repartição do trabalho: enquanto a campanha solene preserva o candidato, outros provocam, ridicularizam, alarmam, atacam reputações e brigam por atenção nas plataformas.
Não é invenção sua. Figuras muito diferentes da direita do dedo, uma vez que Carlos Bolsonaro e Pablo Marçal, também operam num repertório em que conflito, choque, linguagem direta, quebra de liturgias e provocação têm valor estratégico. Janones adota secção dessa gramática, mas acrescenta uma justificativa: não se entra no esgoto porque seja bom, mas porque o contendedor já está lá. Recusar suas armas seria concordar lutar em desvantagem.
Daí o desprezo pela “campanha fofa”, pela “esquerda limpinha”, pelos “cirandeiros” e “arrogantes de salto cocuruto”. O intuito interno é quem supostamente confunde escrúpulo e correção de linguagem com eficiência eleitoral. O janonismo cultural reaparece, assim, uma vez que uma ensinamento de espelhamento: se a extrema direita prosperou com agressividade, transgressão e guerra permanente por atenção e impacto, a esquerda deveria fazer o mesmo.
Há, todavia, bons motivos para se ter cautela com esta ensinamento. O primeiro tem a ver com prudência política. Quem escolhe a devastação reputacional e a guerrilha de narrativas uma vez que armas deve recontar com a reciprocidade do inimigo. Janones deveria saber que quem tem telhado de vidro não está principalmente protegido em uma guerra de pedras e que, com dois escândalos políticos suspensos uma vez que lâminas sobre o pescoço dos candidatos leste ano, talvez não seja sábio esticar demais a corda.
O segundo é rudimentar: eleição não é guerra. Ninguém precisa matar nem morrer. Uma campanha existe para convencer pessoas, inclusive algumas que votaram no contendedor. A retórica da aniquilação pode excitar militantes, mas não é evidente que seja o melhor linguagem para persuadir quem ainda pode mudar de lado.
Finalmente, “livrar o país” de um campo político é uma fantasia de militantes radicais. Eleições derrotam candidatos; não exterminam os milhões de cidadãos que votam neles. O bolsonarismo mostra o quanto a promessa de expulsar o inimigo mobiliza os fiéis e, ao mesmo tempo, reduz a política a uma guerra moral sem término.
A esquerda pode aprender com a direita do dedo sobre velocidade, presença nas redes e capacidade de resposta. Não precisa aprender que política é guerra nem que adversários existem para ser exterminados. Uma campanha pode até precisar entrar na vasa de vez em quando. O erro é imaginar que é no lodo que estão os eleitores que faltam para vencer.
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