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Jenny Erpenbeck, de 'Kairós', analisa direita na Alemanha 22/05/2026
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Jenny Erpenbeck, de ‘Kairós’, analisa direita na Alemanha – 22/05/2026 – Ilustrada

“Eu queria fazer um livro [sobre a Alemanha Oriental] que não fosse só centrado na Stasi”, afirma Jenny Erpenbeck, lembrando a polícia política que atuava no país cindido.

A entrevista da premiada escritora alemã à Folha aconteceu na terreiro Arkona, que pertencia à Berlim Oriental e era um lugar cativo de sol para os “ossies”, sobrenome do povo que ocupava a porção direita do país. Ali hoje há feiras movimentadas e crianças serelepes subindo pelas árvores.

Aquele dia 8 de maio era o chamado Dia da Libertação, referência à guião dos nazistas em 1945. A data era feriado pátrio na República Democrática Alemã, a RDA, mas não tinha esse status na Alemanha Ocidental nem o tem na Alemanha pós-reunificação.

Erpenbeck, nascida na porção oriental em 1967, ganhou o Prêmio Booker Internacional há dois anos por seu romance “Kairós”, que agora ganha tradução no Brasil pela Companhia das Letras.

Inconformada com a visão hegemônica que só retrata repressão e tragédia na sua terreno de origem, ela sugere outro olhar para a vida no país rachado pelo muro e logo depois sua queda.

“Muitas vezes, [os retratos] são experiências que nunca tivemos ou não correspondem às nossas memórias, uma vez que o filme ‘A Vida dos Outros’. Também havia vida normal, mas disso não podíamos falar. Há alemães orientais que hoje vivem no Oeste e acham brutal que eu diga que ia ao cinema!”, conta a autora.

Além da vida cotidiana, Erpenbeck se empenha em lembrar que havia um projeto político recíproco ao padrão ocidental em curso —e que fracassou.

Os trechos que mostram uma vez que eram os dias no país podem promover estranhamento. Para os homens, havia obrigação de servir no Tropa por três anos antes de cursar a faculdade. Pessoas em situação de rua eram inexistentes —há uma cena dedicada ao espanto da autora ao cruzar com um pedinte em uma viagem à Alemanha Ocidental. E produtos uma vez que sabão em pó e meias-calças finas eram escassos.

A autora, que é acusada por detratores de romantizar o autoritarismo, reconhece que não podia deixar de mencionar no livro as contradições de um regime que, ao reivindicar a emancipação, incorria em tortura e assassinatos políticos.

“A teoria era formosa, mas é preciso refletir com zelo sobre os erros cometidos. Essas ideias começaram uma vez que revolucionárias e, a partir do momento em que a revolução se alinha com o lado do poder —e em Israel vemos talvez um tanto parecido—, ela se transforma.”

Erpenbeck fez uma pesquisa significativa para redigir o romance, em arquivos na Alemanha e na Polônia. O resultado é uma narrativa factualmente precisa, que passeia de meados dos anos 1980 ao primícias dos anos 1990 e se conjuga à história de um paixão extraconjugal na Alemanha Oriental.

O livro conta a história de Katharina e Hans, um par que se conhece em um ônibus por possibilidade. “Kairós”, o título do livro, é o deus do momento feliz na mitologia grega —em verosímil referência a esse encontro. O relacionamento que se segue, porém, é agridoce.

Embora estivesse em um casório monogâmico, Hans embarca no caso por anos, e o livro reconstrói esse paixão em paralelo ao desenvolvimento político teutónico. “De alguma forma, podemos expor que a grande história se reproduz em miniatura neste relacionamento”, afirma a escritora.

“Também nele se fala de poder e miragem: ter uma grande esperança no início e, depois, um processo lento de desilusão. Eu sempre tive a imagem de Katharina sentada em um esquina ouvindo as fitas [de Hans] com seus fones de ouvido, enquanto lá fora a revolução estava acontecendo.”

E ela acontece. Em novembro de 1989, cai o muro de Berlim e começa o processo irregular de reunificação das Alemanhas. Chamada de Revolução Pacífica, a queda levou ao sepultamento do regime de Erich Honecker —famoso por sua foto, tornada pintura de mural, beijando a boca do líder soviético Leonid Brejnev— e à integração oriental ao Oeste, dos quais espólio está em disputa até hoje.

A reunificação foi declarada uma vez que uma “vitória totalidade do sistema numulário e da democracia”, diz a autora, mas a ela não restam dúvidas de que não foi bem-sucedida. Foi uma vitória econômica mais que qualquer outra coisa. “No término das contas”, resume Erpenbeck, “se impôs a pressão para o consumo, até mais que a pressão por liberdade”.

Até portanto, os regimes dos dois lados se exibiam, um ao outro, uma vez que vitrines de seus modelos econômicos, e acabaram se modulando por essa concorrência: o Oeste precisou incorporar políticas sociais, ao passo que o Oriente precisou tolerar o consumo do lado de lá.

Com a queda, houve um poderoso processo de inferiorização dos orientais, diz ela, vistos uma vez que vítimas de uma ditadura e incapazes de treinar a liberdade. Quem fosse inteligente, reza a teoria, devia tentar a vida no Oeste depois a rescisão do muro. Mas, segundo Erpenbeck, isso tudo é discutível. A democracia da secção ocidental “não foi autodescoberta, mas importada pelos americanos”.

Coube aos orientais amargarem a guião. O Oeste, lembra Erpenbeck, queria transplantar suas instituições para o outro lado do muro, esquecendo que “por lá também tinham pessoas, com suas próprias biografias e experiências”. Infligiu a própria constituição ao país unificado, não aceitou inúmeros diplomas universitários de orientais e dissolveu ou privatizou 80% das empresas da região.

As desigualdades continuam até hoje, mostrando as caras na ocupação assimétrica de postos de poder. “Os veículos de notícias estiveram sob controle dos ocidentais por tapume de 30 anos. Não há um único redator-chefe que venha da Alemanha Oriental. As cátedras universitárias são também basicamente ocupadas por alemães ocidentais.”

A reunificação desigual ainda está sendo precificada. A Escolha para a Alemanha, a AfD, hoje o partido mais popular do país, é de ultradireita e tem próprio aderência nas regiões da antiga Alemanha Oriental. Na última pesquisa de opinião, tem vantagem de quatro pontos percentuais sobre a União Democrata-Cristã, a CDU, partido do atual governo e da ex-chanceler Angela Merkel.

Para a autora, a relação entre as fissuras da reunificação e a subida da ultradireita é clara. O fortalecimento do extremismo “começou por desculpa dessas rupturas”, defende. “Muitas pessoas ali são contra estruturas de poder zero transparentes, decisões de Bruxelas [sede da União Europeia] que não compreendem e assim por diante.”

“Há esse dilema entre o mundo globalizado e a insuficiência sítio, e a AfD sabe fazer uso dele”, diz Erpenbeck. “Esses movimentos de extrema direita estão por toda secção, uma vez que se as pessoas estivessem cansadas de discutir e quisessem exclusivamente um varão poderoso”.

É por isso que, depois de todo esse tempo, a autora diz ainda descobrir necessário disputar a memória da RDA. Mesmo que não tenha oferecido visível, defende, foi uma tentativa de universalizar o entrada à comida e à ensino. “Seria valioso viver em uma sociedade em que quantia e consumo não exercem um papel meão. Mas talvez não consigamos fabricar isto.”

Folha

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