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Jorge Augusto propõe revolução na crítica literária negra 06/11/2026
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Jorge Augusto propõe revolução na crítica literária negra – 06/11/2026 – Ilustrada

Desde que a obra de Lima Barreto foi recuperada pela sátira literária brasileira porquê segmento integrante de seu cânone, o adjetivo “triste” costumou seguir o responsável. Muito por associação ao seu romance mais sabido, “Triste Término de Policarpo Quaresma”, mas também por sua biografia, marcada por sucessivas internações no Hospital Pátrio dos Alienados, no Rio de Janeiro, e uma morte precoce aos 41 anos.

Nas poucas fotografias a que temos entrada, o responsável carrega sempre o semblante severo. Mas, na envoltório de “Modernismo Preto”, do poeta e professor Jorge Augusto, Lima Barreto exibe um sorriso, ainda que contido.

É a retrato de sua ficha de internação, tirada em 1914, alterada por perceptibilidade sintético para fazê-lo sorrir. Vencedor do Prêmio Jabuti Acadêmico na categoria de letras, linguística e estudos literários, o responsável explica que a envoltório reflete o propósito do livro.

“A envoltório é um recado: o que vocês vão ver cá não é o que estão acostumados a ver na tradição, a literatura negra porquê um texto pesado, referto de dor, luto, resistência e violência, mas o preto sorrindo”, aponta o pesquisador. “Esse lado da luta também está presente, porque faz segmento da vida não só do preto, mas do Brasil. A envoltório diz: nós estamos vivos e sabemos sorrir.”

O riso de esquina de boca de Barreto se abre em ilustrações internas que vão escancarando o que Augusto labareda de “uma gargalhada na faceta dos caretas”, refletindo a ironia e o gracejo da literatura do responsável de “Triste Término de Policarpo Quaresma”. Questiona: “O que é sorrir tendo uma vida periférica e negra?”

A aspiração do livro é partir de sua literatura para discutir o campo das letras de forma mais ampla. Jorge Augusto escreve que seu investimento crítico é “movimentar o campo da literatura brasileira, multiplicar seus movimentos, alargar seus espaços, democratizar seu entrada”.

Tal ímpeto de transformação atravessa também sua atuação porquê professor universitário, poeta e pesquisador.

Nascido em Salvador e criado no bairro da Liberdade, um dos mais populosos da cidade e importante meio da cultura afro-brasileira, Augusto enxergava na Bahia uma cena literária “asfixiada, branca e elitista”, com poucas possibilidades de publicação nas mais diversas linhas de produção textual. “Era preciso revolucionar essa cena”, diz ele.

Essa revolução foi feita no formato da editora Organização, que fundou em 2013 ao lado da antropóloga e socióloga Fernanda Santiago. Sua coleção de estreia, “novos autores”, era voltada para poetas inéditos radicados na Bahia.

Em 2018, a editora inaugurou o Segundo Selo, risco responsável pela publicação de literatura, teoria e sátira, com o objetivo de incentivar a circulação de trabalhos que têm a democracia e a multiplicidade porquê princípios constitutivos. É pela Segundo Selo que Jorge Augusto, não mais no papel de editor e sim de consultor da vivenda editorial, publica “Modernismo Preto”.

A atuação editorial de Augusto reflete o pensamento sobre a formação da literatura brasileira desenvolvido no livro. O crítico observa que um evidente projeto literário vernáculo anda sob suspeita.

Seu estudo integra um movimento recente na liceu e no mercado editorial que questiona a preeminência do “projeto moderno proposto pela escol colonial/burguesa” na formação do campo crítico vernáculo.

Se esse projeto exclui os cantos, provérbios e demais expressões orais e territorializadas de culturas africanas, uma parcela da sátira já disputa o espaço da cultura da periferia —que para o responsável é definido pela cultura negra— na formação da literatura vernáculo.

“Não se trata de erigir uma história da literatura negra no Brasil”, escreve, “mas de entendermos que não existe literatura brasileira sem a produção textual negra”.

Nesse contexto, a sátira literária tem o papel de renovar seus métodos para reconhecer os saberes de culturas afro-brasileiras e indígenas na produção vernáculo.

“Por que Nêgo Papa, Ailton Krenak e Davi Kopenawa fazem tanto sucesso hoje?”, pergunta Augusto. “Porque eles nos dão um pouquinho de esperança, outros caminhos para imaginar uma liberdade em sentido coletivo”.

Ele defende a literatura porquê um lugar de disputa de formas imaginativas de porvir, frente ao esgotamento do neoliberalismo.

“Estamos asfixiados, precisamos de outras possibilidades. Mas elas não podem ser dadas hoje pela cultura europeia e estadunidense”, afirma. “Precisamos entender que as pessoas não estão lendo tanta literatura negra e indígena porque elas são boazinhas, mas porque são as literaturas que apontam para outras possibilidades de ver o mundo.”

Contra generalizações de todo tipo, o pesquisador reconhece que não basta ortografar um livro para enfrentar a asfixia do presente, mas clama pela posição do plumitivo porquê pai de “redes comunicativas”, obras que dialogam com a verdade para propor saídas.

“Os autores que estão fazendo uma literatura negra que não é dissidente deveriam fazer outra coisa. A literatura negra não pode e não deve ser integracionista”, defende.

A sátira literária também colabora com esse projeto ao assumir a postura não de integração, mas da valorização da diferença. Ao se debruçar sobre a obra de Lima Barreto, seu intuito não é encontrar um espaço para ela na prateleira do modernismo, entre Mário de Andrade e João Guimarães Rosa.

Esse enquadramento, diz, aplaca seu potencial disruptivo. “O que precisa ser periférico não é só a literatura —ela já é e sempre foi— mas a sátira. A sátira precisa se territorializar.”

Isso encontra um tropeço nas condições de produção e circulação de livros no país. Com a concentração do mercado editorial brasiliano na região Sudeste, com parque gráfico concentrado entre Rio de Janeiro e São Paulo, os custos de manter uma editora independente e fazer rodear obras editadas na região Nordeste são altos.

“Você tem que passar por São Paulo para vender um livro. Se não tiver política pública, acaba o campo do livro na região. É asfixiante a situação das editoras pequenas”, conta o responsável.

As distâncias, aponta ele, encarecem o preço dos livros e dificultam a participação da editora e seus autores em eventos importantes porquê as Bienais do Livro do Rio e de São Paulo.

A exiguidade de uma distribuidora de livros em uma cidade tão grande porquê Salvador, a quinta mais populosa do país, demarca a urgência de mudança. Augusto menciona a falta de políticas públicas para baratear o transporte e descentralizar a produção, lamentando o efeito que isso tem sobre seu próprio livro: “Eu não queria que meu livro saísse por R$ 129. Eu quero que o estudante o leia.”

Apesar das dificuldades, o pesquisador ressalta a relevância do trabalho da editora na cena sítio. Com sede no bairro onde ele cresceu —”funcionamos na periferia de verdade, dentro da periferia, com um repositório pequeno e um velho escritório”— a editora vem publicando obras com o objetivo de revelar a multiplicidade do pensamento preto.

Esse leque se espalha por um vasto catálogo que vai da trova à teoria, da Bahia de Jorge Augusto às Antilhas de Frantz Fanon, para mobilizar as literaturas dissidentes e “reintroduzir a categoria revolução no debate público”, conforme defende o responsável.

Folha

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