Jovens de uma geração de mal-educados não dizem ‘bom dia’ – 05/08/2026 – Marcelo Rubens Paiva
Digo “bom dia” a toda pessoa que cruza o meu caminho. Talvez eu me inspire no meu pai, que perguntava de manhã a quem encontrasse: “Bom dia, flor do dia, tomou banho de bacia de chuva fria na moradia da sua tia?”
No interno, todos respondem. Na cidade, a grande maioria. Se for um segundo depois do meio-dia, passa a ser boa tarde, e muita gente me corrige se ainda digo bom dia.
Um segundo depois das seis da tarde, vira boa noite. Me pergunto se aqueles que corrigem ficam aguardando o ponteiro do relógio pregar a hora de mudar para repreender quem erra a saudação.
Um grupo considerável não responde: os jovens. Que também não dizem “obrigado”. Numa pesquisa global da Ipsos, 70% dos jovens preferem resolver interações via texto e evitam conversa por voz.
Suspicácia? Ocupados numa verdade paralela, marcada pelos traumas do isolamento social da pandemia? Fones de ouvido? Sinapses em pequeno por conta da desconcentração causada pelas redes sociais?
Ou, pior, uma geração de mal-educados se forma diante de um mundo distópico e prepotente, legado de gerações anteriores. Fico triste por eles. Por vezes, repito: “Bom dia”. Me ignoram novamente.
Pouco a pouco, vou desistindo, não cumprimento mais, repetindo o terrível lema de uma sociedade individualista: “Ema, ema, ema, cada um com seus problemas”.
Minha mana Nalu se mudou para Paris em 1982. Desde que fui visitá-la na primeira vez, ela me ensinou a etiqueta fundamental para se falar com franceses. E, quando me esqueço, ela até hoje me labareda atenção. Viu a pessoa, “bonjour”.
Entrei certa vez numa loja, tinha cinco vendedores, e escutei cinco vezes “bonjour”. Responde-se a cada um.
Estrear a pergunta sempre no porvir do pretérito do indicativo, na forma de tratamento “vous”, nunca “tu” (a não ser para íntimos), sem se olvidar do “por obséquio” ao final, “s’il vous plaît”.
A Revolução Francesa procurou igualar os cidadãos. Todos devem ser tratados com a mesma deferência, de um transcendente a um plebeu. “C’est la vie”…
Nunca se olvidar do “obrigado”, “merci”. E de se despedir ao trespassar. Servem as variações: “au revoir” (até logo), “à bientôt” (até breve), “à tout à l’heure” (o nosso até mais), e minha preferida, “bonne journée”, cuja tradução literal é metafísica, boa jornada, que é o que mais esperamos da vida: que ela seja intensa.
Italianos também usam “buona giornata”. E exigem, antes de qualquer troca de palavras, um saboroso “buongiorno”, assim porquê os espanhóis, “buenos días”.
Se um brasílico reclama de que os franceses são mal-educados, deveria reconsiderar. O problema não está em nossa espontaneidade? Se um patrício chegou a essa desfecho, é porque não proferiu as etapas corretas de se pedir um cafezinho.
Por exemplo: “Bonjour. Est-ce que je pourrais avoir un moca, s’il vous plaît? Merci”. Cá chegamos ao balcão e soltamos, fazendo gestos com a mão: “solta um cafezinho”, enquanto lá: “Bom dia. Será que eu poderia ter um moca, por obséquio? Obrigado”.
Cá rolam as variações “cafezinho, chefia”. Ou “director”, “chegado”, “companheiro”, “colega”, “tio”, “parceiro”, “patrão”, e a novidade vaga, “papai”. Nenhum país é tão formal porquê a França. É lindo o saudação que se tem pelo outro. E nenhum país é tão informal porquê o Brasil; o que está impregnado na nossa espírito é nossa identidade, mas pode ser considerado descortês.
No sofisticado podcast Não Importa —sempre uma lição que não se encontra numa faculdade de linguística—, João Vicente e Gregorio Duvivier debatem a linguagem do cotidiano. O programa é genial, porque falam num tom peremptório do aparentemente ordinário.
No incidente sobre “nepo babies”, eles discorrem sobre cumprimentar um colega e diferenças entre “meu irmão”, “irmãozão”, “bróder”, “broderzaço”, “meu bróder”. “Querido”, “querida” e “meu criancinha” foram cancelados.
Duvivier conta um incidente que aconteceu recentemente em Lisboa. Está viciado a ser reconhecido e muito tratado no aeroporto, por conta do sucesso lá de Porta dos Fundos. Diante do agente de imigração, enquanto procurava o passaporte, disse: “Desculpe, tá cá, colega”. Levou uma dura: “Não sou seu colega”.
Estava diante do profissional na origem mal-humorado. Deve inclusive fazer segmento do processo de seleção da alfândega escolherem os mais mal-humorados entre os inscritos. E, no treinamento, aperfeiçoarem o mau-humor. Se tivesse começado com um “bom dia”…
Meu pai dirigia sempre supra da velocidade permitida. Metia os cinco filhos no banco de trás e caíamos na estrada. Todos sem cinto, amontoados. Certa vez, fomos parados pela polícia. O patrulheiro se aproximou. Ele abriu a janela e ofereceu: “Bom dia, policial, quer um charuto?”. Não foi multado.





