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JR transforma Pont Neuf em caverna inflável gigante 16/06/2026
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JR transforma Pont Neuf em caverna inflável gigante – 16/06/2026 – Ilustrada

Há um tanto de desconcertante na primeira vez que se vê a obra do basta das margens do Sena. A Pont Neuf, a ponte mais velha de Paris, desapareceu. No lugar da pedra secular e dos arcos familiares, surge uma formação rochosa que parece ter brotado das profundezas do rio —uma caverna de 120 metros de comprimento e até 18 metros de profundeza, toda em tons de branco, preto e cinza, que apaga a elegância clássica da cidade e põe no seu lugar um tanto ancião, bruto, quase pré-histórico.

Quem passa pelos cais ou atravessa uma das pontes vizinhas chega à extremidade, olha duas vezes e fica ali parado, tentando resolver a equação visual. A sensação pode ser a de um monte enroupado de neve, pode ser a de uma serrania em miniatura encaixada entre a Île de la Cité e a Rive Droite. Pode ser simplesmente o espanto de ver Paris ser outra coisa.

É essa desorientação calculada que o artista e fotógrafo JR passou anos preparando. “La Caverne du Pont Neuf”, ou a caverna da Pont Neuf, sua mediação mais ambiciosa até hoje, é uma estrutura inflável revestida de tela impressa que recria a ar irregular do calcário tirado das pedreiras da região de Oise —a mesma pedra com que a ponte foi construída há mais de quatro séculos.

Apesar da ar monumental, a obra pesa exclusivamente cinco toneladas —ar e tecido criando a ilusão de rocha. O artista quer revelar o que está escondido sob a superfície. “Quero convocar os visitantes a se aproximarem ao sumo das fendas da ponte, a revelar o que se esconde sob a superfície desse monumento histórico.”

A obra nasce porquê homenagem a Christo e Jeanne-Claude, que em setembro de 1985 embrulharam a Pont Neuf em tecido cor de arenito, atraindo 3 milhões de pessoas. O artista JR tinha dois anos na estação —não viu zero. Mas a obra o marcou de longe.

“É ao mesmo tempo uma honra extraordinária e um duelo considerável”, diz. “Sempre me senti muito próximo do trabalho deles. Compartilhamos o mesmo princípio de autofinanciamento, sem logotipos, para preservar a pureza da obra.”

Sua caverna não recebe um centavo de moeda público e é financiada pela venda de obras do próprio JR e por apoios privados.

Mas se Christo envolvia, cobria, escondia —transformava o monumento numa presença estranhamente ausente, drapeada em tecido suave—, JR escolhe o caminho inverso. Ele escava, aprofunda, abre. A Pont Neuf não desaparece sob a tela. Ela se torna outra coisa, mais antiga do que ela mesma. É exatamente essa tensão que a obra explora.

A escolha da caverna não é casual. O artista a ancora no mito de Platão. “O filósofo fala de percepção, ilusão, verdade —temas totalmente contemporâneos. Hoje, nossas ‘sombras’ são nossos telefones, nossas bolhas de algoritmos que nos encerram em versões diferentes do mundo e nos polarizam. A arte não dá respostas, ela levanta perguntas”, diz JR.

Para quem começou pichando muros nas periferias parisienses na mocidade, há uma categoria suplementar nessa arqueologia. “Voltar à caverna é voltar às origens do mundo e aos primeiros traços humanos, a vontade de expor ‘estou cá’ através de grafites nas grutas. Eu comecei pelo grafite, isso me apaixona.”

O trajectória de JR até a Pont Neuf foi longo e deliberado. Sua “Caverne” é a culminação de uma série de intervenções que exploram o que existe por inferior ou por trás da arquitetura visível. Há dez anos, no Louvre, uma colagem monumental revelou o avesso da pirâmide de vidro —o que havia nas profundezas do museu.

Na terreiro do Trocadéro, pedreiras imaginárias afloravam sob a Torre Eiffel. Em Florença, fissuras abertas nas fachadas do Palazzo Strozzi deixavam prever outro mundo por dentro. Há três anos, o Palais Garnier ganhou uma frontaria de caverna com passagens de rocha e luz —tentativa direto para o que agora toma forma sobre o Sena, desta vez em graduação ainda maior e com a novidade de que o público pode entrar.

Antes de Paris, ele passou pelas favelas. Em 2008, colou fotografias em preto e branco de rostos de mulheres nas paredes do morro da Providência, no Rio de Janeiro, no projeto Women Are Heroes —uma homenagem às que sustentam comunidades sob violência diária.

Nas Olimpíadas de dez anos detrás, voltou ao Brasil para instalar figuras monumentais de atletas saltando sobre prédios nas orlas de Botafogo e da Barra da Tijuca. A técnica é sempre a mesma, o efeito sempre dissemelhante — “trompe-l’oeil”, um jogo de perspectiva que engana o olhar, a serviço de uma revelação. Não o que você vê, mas o que você passa a enxergar depois.

A dimensão sensorial da “Caverne” é intensa. O interno da estrutura —atravessável de perdão, a qualquer hora do dia ou da noite, por até 700 visitantes simultâneos— foi pensado porquê “uma travessia simbólica, um progresso em direção ao incógnito, uma viagem em si”.

A trilha sonora é de Thomas Bangalter, ex-Daft Punk, que assina uma elaboração original para o espaço. A veras aumentada, via aplicativo e óculos Snap Spectacles, acrescenta uma categoria do dedo ao trajectória físico. E graças à dupla “pele” da estrutura —a tela impressa e o invólucro inflável interno—, o interno permanece até 15 graus mais fresco do que o exterior nos dias de calor. “Funciona porquê uma caverna de verdade, ou quase”, diz o artista.

A inauguração acontece posteriormente um prorrogação causado por fortes rajadas de vento, que rasgaram a estrutura durante trabalhos de manutenção. Os danos foram visíveis a olho nu —a tela rasgada expunha a estrutura inflável interna para quem passava pela ponte ou observava do cais.

A equipe do artista trabalhou por dias no reparo emergencial. Ensejo nesta segunda-feira, a obra será visitável até o término do mês, sem prorrogação, porque a ponte precisa ser devolvida ao tráfico.

O tempo é pequeno, mas isso também faz segmento do projeto. O artista JR pensa na efemeridade não porquê limitação, mas porquê material. “Mesmo que não reste vestígio físico, fica uma marca indelével na memória —e essas memórias, no término, são a própria obra de arte.”

Ele conta que, durante a instalação, parisienses vinham falar com ele e lembravam exatamente onde estavam e o que sentiram quando Christo embrulhou a ponte em 1985. “É bonito pensar em quais memórias vamos carregar para o resto da vida.”

A obra já está lá, visível das margens, das pontes vizinhas, dos barcos que sobem e descem o Sena. Paris olha para ela e não sabe muito o que vê. E isso é exatamente o que JR quer.

Folha

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