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Thais Farage estuda relação entre gênero, poder e moda
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Thais Farage estuda relação entre gênero, poder e moda – 16/06/2026 – Ilustrada

Em uma reunião da escola de seus filhos, a pesquisadora de gênero e perito em consumo feminino Thais Farage, 42, interveio quando uma professora sugeriu pensar em estratégias para controlar a raiva que uma aluna de quatro anos estava sentindo. “Na hora, eu falei: ‘gente, há situações em que temos que ter raiva, deixa a rapariga’”, conta.

Ela mesma diz que, muitas vezes, é considerada brava e não acha isso uma ofensa. Nascida em Montes Claros, no interno de Minas Gerais, e criada na também mineira cidade de Leopoldina, Thais perdeu a mãe quando tinha 14 anos. A partir de logo, foi cuidada pelo pai adotivo, pela avó e pelas tias —mulheres bravas, segundo ela.

“Nunca fui ensinada a ser dulcinéia por todo mundo. Isso fez diferença na minha vida porque fico tranquila se alguém acha isso ou aquilo de mim”, diz.

A pesquisadora afirma que se importa mais com a própria opinião, e foi isso que a fez mudar o rumo da curso em seguida dez anos trabalhando porquê consultora de estilo. Até 2022, Thais viajava por várias cidades do Brasil com o workshop “Estilo no Trabalho”. Nos encontros, ouvia sempre as mesmas perguntas feitas por mulheres, porquê: Qual é o comprimento visível da saia? Que roupa devo usar para não ser interrompida nem assediada? E para ter credibilidade?

As dúvidas têm relação com os números da pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, que ouviu Thais para os dados qualitativos. Feito pelo Estúdio Clarice, organização de lucidez e geração focada em investigar e fomentar o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais, o levantamento mostrou que 45% das mulheres negras e 31% das brancas entrevistadas (totalidade de 1.059) afirmaram mudar a roupa para serem ouvidas.

“Ao escutar aquelas mulheres [preocupadas com a opinião masculina], comecei a perceber que a voga não era suficiente. Não importa o que a gente veste. Era necessária uma discussão de gênero”, lembra Thais.



Ao escutar aquelas mulheres [preocupadas com a opinião masculina], comecei a perceber que a voga não era suficiente. Não importa o que a gente veste. Era necessária uma discussão de gênero

Ela já tinha lançado, em 2021, o livro “Mulher, Roupa, Trabalho: Uma vez que se Veste a Desigualdade de Gênero” (editora Paralela), em parceria com a advogada Mayra Cotta, e, no ano seguinte, decidiu ampliar ainda mais seu conhecimento. Foi fazer mestrado na USP (Universidade de São Paulo) sobre as relações entre gênero e poder a partir da voga.

Na reta final do trabalho, ela investiga porquê as três ex-presidentes latino-americanas —a brasileira Dilma Rousseff, a chilena Michelle Bachelet e a argentina Cristina Kirchner— usaram o modo de se vestir porquê cultura material e instrumento para legitimar o poder.

“Percebi que quanto mais eu estudo, mais eu vejo que não trabalho com voga. Trabalho com roupa porquê cultura material, porque a roupa é uma consequência da cultura.”

Em sua pesquisa acadêmica, ela analisa porquê a questão do gênero aparece na política. “A Dilma e a Michelle Bachelet, por exemplo, são mulheres que vieram de histórias de luta, com um profundo conhecimento político. Elas tiveram que trenar um poder tido porquê masculinizado. Usam, por exemplo, roupas que vêm do terno. Elas precisaram pegar esses códigos da masculinidade emprestados.”

Mesmo fazendo isso, elas ficaram longe de conseguir o poder oferecido aos homens, observa. “As mulheres são muito mais atacadas, inclusive pelo que vestem. A gente não criou um lugar minimamente salubre para que elas ocupem posições de influência na política, espaço que estudo.”

Dilma sofreu um impeachment em 2016 e hoje é presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (Banco do Brics); Bachelet, em seguida concluir dois mandatos porquê presidente, em 2018, atualmente é uma das principais candidatas ao missão de secretária-geral da ONU; Kirchner foi condenada a seis anos de prisão por devassidão, em junho de 2025, no caso que investigava cobrança de propinas na construção de rodovias. Ela cumpre a sentença em seu apartamento, em Buenos Aires, e está impedida de se candidatar a cargos públicos.

Não à toa, quando questionada sobre qual é a imagem do poder, Thais diz que é um varão branco de terno. “Ele representa o líder, o proprietário das conversas”, afirma.

No entanto, ela ressalta que não admira nem persegue esse estereótipo. O que a movimenta é ser uma pessoa livre e terebrar espaço para mulheres que buscam o poder.

Folha

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