Sete anos depois de lançar o disco “Trovão”, Larissa Luz retorna com “Desmonte”, seu quarto álbum solo, em que a artista baiana une a catarse coletiva do Carnaval e a introspecção do rock.
“O disco nasceu da urgência de se aprofundar no conhecimento das estruturas, sejam elas pessoais ou sociais, para desfazer e reprogramar o que for necessário”, afirmou a cantora. “Passei por um longo período de mergulho em mim e no meu pretérito em procura de algumas coisas que perdi pelo caminho.”
O álbum começa expansivo, atravessado pela pujança dos blocos afro, dos trios elétricos e da rua. Aos poucos, porém, as canções se tornam mais confessionais, chegando a momentos de vulnerabilidade que contrastam com a força coletiva do início.
Curiosamente, essa estrutura não foi planejada desde o primórdio. Segundo Luz, ela surgiu à medida que as composições se acumulavam. A primeira segmento foi gravada em Salvador, cidade natal da cantora, e o restante do disco, em São Paulo. “Acabou que quase virou um primeiro ato e um segundo ato”, diz. “Um momento em que eu tive muito sol e que estava sempre com outras pessoas. E depois um momento mais para dentro, mais sobre mim.”
O resultado é provavelmente o trabalho mais autobiográfico de sua curso. “Porque tem nele a juvenil que estava ali surgindo e conhecendo o rock, querendo mudar tudo, mas tem também a mulher que eu me tornei depois de todos esses anos passando pelos ritmos afro-baianos, pelo Carnaval e por tudo que vivi depois”, afirma.
Embora a mistura de referências sempre tenha feito segmento de sua produção, desta vez o rock ocupa um lugar meão. As guitarras aparecem com mais destaque, mas sem extinguir as matrizes afro-baianas que moldaram a trajetória da cantora desde os tempos em que integrou o Ara Ketu, filarmónica de axé brasileira fundada originalmente uma vez que um conjunto afro.
A aproximação entre esses universos nasceu de uma pesquisa sobre as origens negras do gênero. Ao revisitar nomes uma vez que Sister Rosetta Tharpe e Jimi Hendrix, Luz passou a enxergar o rock sob uma perspectiva dissemelhante.
“Fui perceber o quanto preto era o rock”, afirma. “Quando eu trago o rock para o cerne da paragem e o coloco para dialogar com vários ritmos negros, é uma certeza dessa conexão.”
A proposta não é somente músico. O próprio título do álbum sugere uma operação de desmontagem de narrativas cristalizadas. Entre elas, a teoria de que determinados gêneros pertencem a universos culturais separados. “Minha teoria foi desmontar esse quadro e mostrar que o rock e vários outros ritmos negros têm muita relação, muita simbiose.”
Mesmo assim, sua passagem pelo Ara Ketu aparece uma vez que peça importante nessa construção. A cantora lembra as longas viagens com os percussionistas da filarmónica uma vez que uma espécie de formação paralela. “Eu fui tendo aulas sobre isso com o Ara Ketu”, conta. “Aprendi o que era um ijexá, o que era a clave do Olodum, as diferenças entre os sambas. Foi uma grande riqueza para mim.”
A influência do Carnaval atravessa o disco. Para Luz, a pujança de um trio elétrico guarda mais semelhanças com um show de rock do que se imagina. “O Carnaval tem tudo a ver com o rock”, diz. “A pujança das pessoas, a roda, o mosh, a forma uma vez que os corpos se movimentam. Esses mundos não eram tão distintos assim.”
Há faixas divertidas, uma vez que “Sem Sal”, construída uma vez que sátira às dinâmicas de visibilidade que atravessam o Carnaval e a indústria cultural. A música nasceu, segundo Luz, das discussões sobre quem ocupa os espaços de destaque e quem permanece à margem. “É uma provocação”, afirma. “Zero contra quem está ali, mas contra um sistema que privilegia certos corpos em detrimento de outros.”
A tira pode remeter à influenciadora Virginia Fonseca, que foi rainha de bateria da escola de samba Acadêmicos do Grande Rio no desfile da Sapucaí leste ano e levantou questões sobre os limites da influência nas redes. “Vigia/Chegue lentamente no sapatinho” diz o refrão. “Umas têm molho/Outras sem sal”.
A disposição para desafiar formatos aparece de maneira explícita em “DR”, uma das faixas mais inusitadas do álbum. Construída quase inteiramente a partir da fala, ela se assemelha mais a um interlúdio. “Não é uma música, é um texto, mas que soa uma vez que uma música.”
O gesto resume muito o espírito de “Desmonte”, que, apesar de muito intenso, ainda pertence a uma artista que exala ternura. “Talvez esse seja o disco mais eu que eu já fiz”, afirma. “Não porque ele responde tudo, mas porque hoje eu tenho maturidade para sustentar as perguntas.”





