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Lavínia Pannunzio dirige 'Betrayal', de Pinter 30/04/2026 Mise en scène
Celebridades Cultura

Lavínia Pannunzio dirige ‘Betrayal’, de Pinter – 30/04/2026 – Mise-en-scène

“Betrayal” não é uma peça sobre o que se diz, mas sobre porquê sobrevivemos ao que calamos. Sob a direção sensível e implacável de Lavínia Pannunzio, o palco deixa de ser cenário para se tornar laboratório do afeto. Ali, a famosa estrutura inversa de Harold Pinter nos transforma em cúmplices: assistimos ao termo para, só portanto, buscar as pistas do primórdio.

O minimalismo da cena é um invitação ao desnudamento. Em um espaço sem excessos, o sofá de seis metros — que se estende porquê um oceano intransponível entre os corpos — faz com que cada respiração pese. É um teatro de arqueologia humana, onde o público escava, junto com os personagens, os escombros de verdades que o tempo soterrou.

O que há de mais sólido nesta montagem é a decisão de manter os três atores em cena o tempo todo. Essa presença ininterrupta cria uma espécie de vigilância compartilhada; é o lembrete físico de que, no paixão e na traição, nunca se está realmente a sós. O espectro do “outro” habita cada gesto, mesmo quando ele não faz segmento do diálogo.

É nesse campo de forças que o trio principal trava uma guerra silenciosa e devastadora. Luiza Curvo, porquê Emma, foge de qualquer clichê; ela não é a “infiel”, mas a mulher que tenta lastrar seus desejos em um tabuleiro de lealdades cruzadas.

Ao seu lado, Leonardo Brício e Diego Machado conduzem com requinte o esfacelamento da fraternidade masculina. Há uma brutalidade contida no trabalho de ambos: enquanto um lida com a erosão lenta da crédito, o outro carrega a culpa que se disfarça de intimidade. A química entre Brício e Machado traduz o colapso de uma amizade que, sob o peso do sigilo, torna-se carcaça de si mesma.

Esse silêncio, aliás, não é um vazio, mas um evento que acontece o tempo todo no palco, esculpido pela luz de Sarah Salso e pela sonoridade de Rafael Thomazini. Ele evidencia o momento exato em que a ponte entre as pessoas simplesmente quebra.

Nesse hiato, a presença de Miranda Diamant surge porquê um ponto de estranhamento. Seja porquê a garçonete que testemunha a conversa em Veneza ou traduzindo em Libras a música “Can’t Take My Eyes off You” na cena final, ela parece simbolizar o rastro deixado por quem foi traído sem saber: o olhar da sociedade ou a própria consciência que tudo observa.

A tradução de Luiz Frias preserva a severidade original de Pinter, permitindo que Pannunzio extraia a brutalidade das relações de um jeito sofisticado, sem ceder ao dramalhão. A peça nos joga de frente com as nossas próprias rachaduras e com a percepção de que o palco pode ser o espaço onde a intimidade se torna questão pública de moral.

Três perguntas para…

… Lavínia Pannunzio

Seu texto de cena parece dissecar as relações sob uma luz quase clínica. Uma vez que foi o processo de transformar o palco nesse “laboratório” onde o silêncio e o espaço físico dizem tanto quanto o texto de Pinter?

É quase uma necropsia mesmo. Olhamos clinicamente para entender o que está por trás de um triângulo que nunca se configurou de roupa. O que me interessou foi investigar o “germe do veneno” nessa história. Quando a peça começa, do termo para o primórdio, já vemos uma relação sem química. Mesmo no auge do caso, existe um projeto de “galhofar de casinha” que um relacionamento extraconjugal não admite. É porquê um vinho que, ao ser franco, começa a morrer.

A questão mediano não é a libido, mas o que há entre essas três pessoas. Investigamos a misoginia e a objetificação da mulher. Há uma violência latente: por que o marido, Robert, humilha a esposa em público? Na nossa montagem, quando ele fala sobre ter derrotado nela, ele procura a cumplicidade da plateia masculina. Ele procura legitimação para sua brutalidade. O que Pinter descreve é a toxicidade de pessoas cultas e letradas que são capazes de crueldades absolutas.

A escolha de manter os três atores (Emma, Robert e Jerry) em cena o tempo todo cria uma vigilância regular. Uma vez que você trabalhou com o elenco essa sensação de “presença espectral”, onde o traído ou o traidor está sempre lá?

Essa escolha foi fundamental porque o terceiro elemento está sempre presente, mesmo quando ausente fisicamente. Quando dois estão juntos, o terceiro é o objecto. Eles estão permanentemente atrelados; um não é validado sem o outro. Quis assinalar essa “presença espectral” porque é a própria narrativa de Pinter que nos impõe isso. Outrossim, esteticamente, prefiro um teatro onde todos estão narrando a mesma história o tempo todo. Dificilmente você verá um ator escondido na coxia em uma peça que estou dirigindo. Ali, eles funcionam porquê testemunhas e narradores uns dos outros.

A presença de Miranda Diamant, principalmente no uso da Libras na cena final, traz uma estrato de estranhamento e formosura. O que essa figura representa para você no contexto da traição?

A Miranda é a luz e o contraponto contemporâneo. Ela representa uma geração que não aceita mais que digam porquê devem se vestir ou se relacionar. Eu queria alguém que comentasse o machismo sórdido desses personagens: homens que dizem não querer uma mulher “nem a um quilômetro de intervalo” de seus rituais masculinos.

Em cena, a Miranda funciona porquê uma comunicadora universal. Ela triangula com a plateia para mostrar que sabemos que aqueles personagens são “tiozinhos machistas”. Ela reescreve a peça visualmente, manifestando nossa indignação e garantindo que o público não “normalize” a toxicidade. O uso da Libras e a estética meio punk — que historicamente sucedeu a dez em que a peça se passa — simbolizam a peleja contra essa mediocracia hipócrita. Ela é a potência da fala feminina trazendo palavras melhores e novas perspectivas para uma obra de 50 anos.

Teatro UOL – avenida Higienópolis, 618 – Higienópolis, região oeste. Sexta a domingo, 20h. Até 31/5. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. R$ 150 (inteira) setor A, em


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Folha

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