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Lee Chang dong volta a Veneza com 'Possible Love' 06/09/2026
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Lee Chang-dong volta a Veneza com ‘Possible Love’ – 06/09/2026 – Ilustrada

O cineasta sul-coreano Lee Chang-dong é um dos grandes queridinhos do chamado “cinema de arte” revelados no século 21, mas desde que ganhou o prêmio da sátira no Festival de Cannes pelo comemorado “Em Chamas”, em 2018, não lançava filme nenhum. No domingo, finalmente matou a saudade dos entusiastas de seu cinema duvidoso, lento e pleno de conotações políticas e existenciais, com “Possible Love”, exibido em competição no Festival de Veneza.

O longa nasceu secção de um projeto internacional que procura comemorar o “Decálogo”, série de filmes lançada no término dos anos 1980 pelo polonês Krzysztof Kieslowski, adaptando os Dez Mandamentos da Bíblia. A proposta é que cada um entre dez diretores de destaque atualmente use um mandamento para servir de mote para um filme —o primeiro foi o iraniano Asghar Farhadi, que apresentou em Cannes “Parallel Tales”, muito mal recebido pela sátira.

Desde que a Netflix entrou porquê produtora, o filme ganhou pernas próprias, mas a matriz bíblica permanece. Partindo do mandamento “Não cobiçarás coisas alheias”, Lee tece uma história que entrelaça a vida de dois casais de classes sociais muito distintas. Vemos Ye-ji, uma diretora de documentários abastada, casada com o atlético Sang-woo, bem-sucedido varão de negócios —a cineasta descobre que uma grande empresa na Coreia do Sul demitiu um mar de trabalhadores. Entre eles Ho-seok, que passou a exagerar na bebida depois o desemprego, o que obriga sua mulher, Mi-ok, a ter que sustentar a moradia e tentar consolar o marido.

A documentarista começa a gravar depoimentos de Mi-ok, que fala sobre a dificuldade da vida do parelha e tenta convencer o marido a também conversar com ela. Depois de muita insistência, Ho-seok aceita ir passar um término de semana em uma moradia de praia com a mulher e o parelha burguês. Ali, depois de lucrar a crédito do desempregado, a cineasta consegue fazê-lo falar: ele relata catarticamente seus dramas, e enquanto esperam os depoimentos serem registrados, seus respectivos esposos percebem que, entre eles, há uma inesperada atração sexual.

O filme é notável em estabelecer complexas relações de poder e atração mútua (e também repulsa) entre os personagens. Lee é um cineasta de extraordinária perspicácia, que investe no acúmulo de elementos que tornam sua obra mais vaga, reproduzindo na tela as ambiguidades da vida, contrapondo-o aos diretores que querem impor sua visão a qualquer dispêndio.

“Possible Love” promiscuidade estudo sociológica com crise existencial, em um filme que dura quase três horas. É um trabalho fabuloso, e porquê não seria? Por fim, o cineasta é perito em gabaritar o rol de expectativas de uma sátira de cinema mais intelectualizada sobre um filme: trabalha duro, milimetricamente, para que zero falte ali. Ou quase zero: apesar de suscitar assombro por merecimento e fazer uma obra quase inatacável, seu filme não tem uma pinga de espontaneidade. É feito sob medida para a louvação.

Outro filme com grandes chances de prêmios, o dinamarquês “Woman Unknown” já era notícia antes mesmo da exibição no domingo, já que era a única obra dirigida por uma mulher, May el-Toukhy, participando da disputa do Leão de Ouro —embora, de última hora, Veneza também tenha incluído Rachel Szor, que codirige com Yuval Abraham o longa “Naza”.

O filme conta a história de uma empregada doméstica de um industrial dinamarquês, logo depois do término da Segunda Guerra. Viúvo, ele decide se matrimoniar com a moça, mas um rapaz nascido na mesma cidade que ela aparece e prenúncio o matrimônio. Por fim, ela teve um romance com um invasor germânico quando a Dinamarca foi ocupada por nazistas, e logo depois da guerra, mulheres que tinham se relacionado com o inimigo tornavam-se párias, com recta a linchamento em terreiro pública.

A diretora mostra essa história com pulso firme, realçando a luminoso performance de Mathilde Arcel e destacando a hipocrisia masculina de sempre: as mulheres que se envolveram com os nazistas eram punidas, mas homens que negociavam com eles passavam incólumes pelo tribunal moral ulterior ao conflito.

Ainda na competição, “The Echo Chamber”, do italiano Andrea Pallaoro, teve as reações mais negativas do festival até o momento. É a arrastadíssima história de um músico, vivido por Luca Marinelli, em crise profissional e existencial, que procura reduzir seu vício em drogas e remédios no trabalho com uma cantora veterana, interpretada por Susan Sarandon. Ele conta também com a ajuda de uma enfermeira, vivida por Alicia Vikander, que tenta aplacar a depressão do namorado.

Praticamente zero dá claro nessa produção italiana falada em inglês, e o ritmo moroso, os silêncios que se pretendem “eloquentes” e a falta de definição sobre do que se trata realmente a trama tornam a experiência na sala escura um mica martirizante. Ao fechamento da projeção para a prelo, ouviram-se gargalhadas —de zombaria, pela presunção da obra, mas sobretudo de refrigério, pelo término da sessão.

Folha

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