Linguagem é como um escafandro, diz Eduardo Halfon na Flip – 25/07/2026 – Ilustrada
Uma das mesas mais emocionantes da Flip até cá girou em torno das fronteiras entre linguagens —e porquê elas podem demarcar também fronteiras de vida, por exemplo, entre a puerícia e a idade adulta, entre o íntimo e o profissional.
O debate reuniu Eduardo Halfon, guatemalteco criado nos Estados Unidos, e Paloma Vidal, argentina criada no Brasil, em uma sintonia muito muito pensada pela curadoria e mediada à fundura por Gabriela Mayer, jornalista que também apresenta o podcast Moca da Manhã, na Folha.
Halfon ostentou durante a mesa um carisma hipnotizante, turbinado por uma emoção que parecia sincera de estar em Paraty. “Não sei porquê se diz isso em português”, pontuava várias vezes durante sua fala que, ironicamente, foi em espanhol. Mas o tique denotava sua preocupação crônica em ser muito recebido por seus anfitriões.
O guatemalteco veio falar de seus dois livros na editora Autêntica, “O Pugilista Polonês” e “Tarântula”, traduzidos por Silvia Massimini Felix. São relatos curtos, pungentes e de subida voltagem literária protagonizados pelo responsável. Duas outras obras dele foram editadas antes pela Mundaréu, “Canción” e “Luto”.
Vidal também é uma autora prolífica, que equilibra o português e espanhol em seus diversos livros, que compõem um projeto literário de longo prazo, construído porquê uma longa estrada através dos anos. Seu lançamento mais recente é “Do Lado de Lá”, da editora Loja do Tempo.
Uma vez que disse a mediadora, são autores em procura de um lugar, um país, uma língua. Vidal mora no Rio de Janeiro desde o exílio de seus pais na quadra da ditadura argentina. Sua obra foi quase toda escrita em português, com exceção do último livro, feito todo em espanhol e traduzido para cá por ela mesma.
Seu linguagem familiar, ela disse com toda a seriedade, é o portunhol. Espanhol, para ela, é sua língua infantil, vocal, ligada às brincadeiras de puerícia. Portanto é o linguagem em que expressa brincadeiras e medos. “Pessoas que dormiram comigo dizem que meus pesadelos são em espanhol”, disse, para risadas da plateia enxurrada da manhã de sábado.
“São línguas próximas, de países entre os quais há muitas tensões. Queria trabalhar com a maneira porquê essas línguas podem ser tensionadas também, porquê elas se infiltram e porquê podem viver juntas na literatura.”
Halfon disse que seu caso é dissemelhante, porque apesar de criado nos Estados Unidos —saiu da Guatemala no dia de seu natalício de dez anos, com sua família empurrada para longe por uma guerra social—, voltou a morar na sua terreno natal depois de adulto.
“A linguagem é porquê um escafandro, você põe para sobreviver. Se eu queria respirar nos Estados Unidos, tinha que usar o escafandro do inglês. Meus pais falavam comigo em espanhol e eu respondia em inglês.”
Quando voltou à Guatemala, adulto e formado em engenharia, era um país que já não conhecia. Teve que redescobrir tudo ali, inclusive o linguagem.
“Isso que vocês escutam agora é uma língua recuperada. Estou em processo de recuperação da minha língua materna desde que descobri a literatura. Eu me converti em leitor aos 28 anos, na Guatemala. Nunca tive incerteza em escolher o espanhol para ortografar.”
Sua língua materna é o inglês, mas a língua de sua puerícia é o espanhol, diz. É um linguagem que lhe remete a traumatismo e ruptura, dois temas centrais de sua literatura, principalmente de “Tarântula”.
“Sinto que todo livro que escrevi é um livro proibido. Toda história que me lanço a narrar, alguém não quer que se conte. Sinto exprobação, resistência sempre.”
“O Pugilista Polonês”, apontou ele, começou com uma memorandum de um número tatuado no antebraço de seu avô judeu. “Ele me dizia que era seu telefone. Aos poucos entendi que não queria falar daquilo. Ninguém na família sabia zero. Um dia ele topou conversar comigo sobre isso e falou por cinco horas.”
Entre as histórias, estava a de um lutador que o salvou da morte no campo de concentração de Auschwitz. “Sabia que essa pequena anedota de um minuto e meio seria minha legado. Mas sabia também que era uma história proibida, que não deveria publicar. E o fiz. Meus três tios não falaram mais comigo. Nunca leram o livro. Não é que estavam contra um tanto que eu disse, mas contra o indumento de eu ter dito.”
Os dois autores encaram a literatura porquê uma missão de vida, construída tijolo a tijolo ao longo dos anos, mas também reescrita, repensada, rasurada.
“Livros são um ponto de chegada. Mas não definitiva”, disse Vidal. “Vão deixando sobras, erros que podem ser corrigidos. Pensar assim me faz trabalhar com literatura com muito mais alegria.”





