Livro ‘Bons Tempos’ cutuca vespeiro das tradwives modernas – 23/08/2026 – Ilustrada
Na literatura dos Estados Unidos, o primeiro semestre deste ano foi marcado por dois livros que, além de alcançarem o topo da lista de mais vendidos, também se assemelham ao questionar os alicerces do tálamo.
Em “Strangers: A Memoir of Marriage” (ainda sem tradução ao português), Belle Burden expõe a fragilidade de sua experiência afetiva depois seu marido há 20 anos deixar tudo para trás por um caso extraconjugal. A curiosidade sobre a vida privada da escol de Novidade York catapultou as vendas.
Já “Bons Tempos – Yesteryear”, que chega agora ao Brasil pela editora Rocco, deixou a internet em polvorosa pela aproximação entre nascente romance de estreia de Dispendioso Claire Burke e a vida perfeita vendida pelos perfis de “tradwives”, as esposas que se mostram fiéis ao tradicionalismo nas redes sociais. É um movimento que põe em revisão o sonho americano.
Longe das fofocas digitais, é preciso atenção redobrada na leitura de “Bons Tempos”. A protagonista Natalie Heller Mills é uma mãe dedicada, cristã fervorosa e dona de morada que decide transformar sua rotina em teor. Começa postando algumas fotos despretensiosas, depois receitas caseiras, mas, ao viralizar, enxerga ali uma possibilidade de negócio.
Com as montanhas do estado de Idaho de tecido de fundo, em uma rancho equipada para colheita e para geração de animais, ela tem todas as ferramentas para tomar rédeas da narrativa de sua vida —que teve percalços familiares uma vez que um pai ausente, nenhuma amizade feminina e a ordenado premência de se provar perante a Deus e a si própria.
Sabemos, desde o primórdio, que tudo aquilo é um circo muito montado com o público aplaudindo (ou odiando) do outro lado da tela. Ela tem babás, uma cozinha equipada, uma produtora, advogados, agentes e o moeda herdado da família do marido.
Os vestidos florais, a dinâmica com as crianças e até os ambientes da morada são milimetricamente pensados para motivar libido, curiosidade e inveja. Com isso, Natalie provoca as “mulheres raivosas”, termo que usa para descrever as feministas chocadas com a imagem tradicional sendo repaginada uma vez que um libido contemporâneo.
Tudo isso para, um dia, a protagonista pactuar em 1855 e sentir na pele os reais desafios desse ideal cristão —e as consequências da falta de liberdade.
Apesar de lembrar a premissa de “Kindred”, de Octavia Butler, “Bons Tempos” passa longe do gênero da ficção científica e põe em seu cerne uma estrutura clássica de suspense psicológico.
Intercalando seus capítulos entre diversas temporalidades —o pretérito em que Natalie cresceu, o presente e esse outro pretérito irreconhecível—, Burke levanta perguntas básicas sobre a narrativa ao passo que nos dá pistas da personalidade não confiável de sua narradora-protagonista. A escrita ácida e irônica ajuda o leitor a velejar um mar de descrição em detalhes, característico da literatura dos Estados Unidos.
É na primeira metade do livro que assuntos mais relevantes são tratados com destreza. Ao acompanharmos a saída de Natalie da morada da mãe, também cristã, e sua ingressão na universidade, somos confrontados com as hipocrisias do feminismo branco na mesma régua das dicotomias da geração cegamente religiosa.
Quando a personagem conhece o porvir marido, Caleb Mills, as renúncias exigidas para seguir papéis sociais pré-determinados ficam em evidência. O tálamo com um varão que ela mal conhece, o parto de seis filhos e a morada no bairro suburbano vão sufocando lentamente essa mulher ambiciosa, inteligente e à deriva.
O bilhete de ouro, para ela, é pôr a família inteira no Rancho Yesteryear e vender aquela “verdade” uma vez que o auge do sucesso, mesmo que custe sua sanidade mental. Mas a tensão inicial vai se diluindo ao mostrar uma vez que a falta de vontade do pretérito esbarra na do presente.
As ideias propostas no início perdem relevância à medida que os capítulos avançam e se encurtam, cavando no leitor a vontade de desvendar o “plot twist” da narrativa supra de qualquer aprofundamento dos inúmeros temas propostos pela autora —da “machosfera” e da maternidade compulsória ao tino de vigilância ordenado incutido nas mulheres.
A metalinguagem narrativa, da personagem dentro da personagem, também deixa de fazer sentido nos capítulos finais, em uma solução aquém da ousada proposta inicial da trama.





