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Livro conta como montadoras ajudaram a manter ditadura no Brasil
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Livro conta como montadoras ajudaram a manter ditadura no Brasil

Em 2015, com base em depoimentos recolhidos pela Percentagem Vernáculo da Verdade, o Ministério Público de São Paulo (MPSP) aceitou transfixar um procedimento para investigar a cooperação de diversas empresas com a ditadura militar brasileira. Entre elas estava a montadora Volkswagen.

Seis anos depois, o Ministério Público divulgou um relatório que revelou que a Volkswagen “contribuiu intensamente com o sumptuosidade repressor” e que isso ocorreu com conhecimento da direção da empresa.

Em 2017, a própria empresa contratou um historiador para investigar o papel da Volkswagen durante a ditadura militar brasileira. Em seu relatório, o germânico Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, escreveu:

“A VW do Brasil foi irrestritamente leal ao governo militar e compartilhou os seus objetivos econômicos e de política interna.”

“Está simples que a Volkswagen estabeleceu por disposição própria uma intensa relação de imposto com os órgãos da repressão política, muito além dos limites da fábrica. A empresa demonstrou vontade de participar do sistema repressor, sabendo que submetia seus funcionários a risco de prisões ilegais e tortura”, diz um trecho do relatório elaborado pelo Ministério Público de São Paulo.

Repressão Sociedade Anônima

A Volks, no entanto, não foi a única. Um livro lançado esta semana, em São Paulo, revela que diversos bancos, metalúrgicas e fabricantes de veículos contribuíram para a manutenção da ditadura no Brasil.

Escrito por Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli, o livro Repressão Sociedade Anônima apurou porquê muitos trabalhadores, principalmente da região do Grande ABC Paulista, foram observados, fichados, investigados, perseguidos, demitidos, presos e até torturados porquê consequência dessa intensa imposto entre as empresas e o aparelho de repressão.
 


São Paulo(SP)- 30/09/2026. Lançamento do livro “Repressão Sociedade Anônima” de Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
São Paulo(SP)- 30/09/2026. Lançamento do livro “Repressão Sociedade Anônima” de Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli no lançamento do livro Repressão Sociedade Anônima – Paulo Pinto/Escritório Brasil

A obra é resultado de três anos de pesquisas documentais e de coletas de entrevistas.

“A gente teve informação de muitas empresas, mas focamos em cinco delas: a Mercedes-Benz, a Volkswagen, a General Motors, a Scania e a Ford. Centramos [o trabalho] na região do ABC e nas grandes metalúrgicas”, explicou Reina, em entrevista à Escritório Brasil.

“Elas financiavam com verba a máquina da repressão. E porquê a coisa foi surgindo? A gente estava analisando os livros de registro de ingressão do Dops [Departamento de Ordem Política e Social] cá no Largo General Osório [na capital paulista] e ali descobrimos uma lista de ramais. Nessa lista tinha um ramal de um estande de tiro. E descobrimos que algumas empresas financiavam equipamentos para esse estande de tiro tais porquê munições e até compra de protetor auricular. O protetor auricular era a GM quem financiava”, disse Reina.

Essa cooperação, explicaram os pesquisadores, não se dava somente pela compra de materiais ou pelo esteio financeiro à ditadura. Ela também ocorria, por exemplo, pela incorporação de militares dentro das fábricas e até de arapongas, explicou Ferrasoli.

“Os arapongas eram pessoas que se misturavam ali com os trabalhadores e que depois iam dedurar quem estava fazendo reivindicações”, disse ela.

“Havia um conjunto de ações que as empresas adotavam para substanciar ou firmar essa cumplicidade com a ditadura e ir expulsando os trabalhadores. Por exemplo, se o trabalhador participava de uma greve, ele não precisava nem ser de um partido de oposição ou de combate à ditadura, se ele participava de uma greve, ele já entrava numa lista. Essa lista, que hoje a gente labareda de lista suja, era espalhada para várias outras empresas, portanto ele nunca mais conseguia trabalho”, contou a pesquisadora.

Além desse monitoramento, havia outro paisagem generalidade que era o descaso das empresas com as condições de trabalho nesse período.

“A gente tem um capítulo todo devotado a mostrar essa questão dos acidentes de trabalho. Em 1975, por exemplo, teve dia em que houve mais de cinco milénio acidentes de trabalho registrados no Brasil. E olha que, naquela estação, o registro de acidentes era extremamente precário, porque a delegacia do trabalho ou qualquer instância da justiça do trabalho estava na mão dos militares”, ressaltou Reina.


São Paulo(SP)- 30/09/2026. Eduardo Reina posa para foto durante Lançamento do livro “Repressão Sociedade Anônima”.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
São Paulo(SP)- 30/09/2026. Eduardo Reina posa para foto durante Lançamento do livro “Repressão Sociedade Anônima”.
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Jornalista Eduardo Reina no Lançamento do livro em São Paulo – Paulo Pinto/Escritório Brasil

Situação das mulheres

Tratadas aos gritos pelos chefes, assediadas e com tempo controlado até para ir ao banheiro, a situação das mulheres trabalhadoras durante a ditadura militar também não foi zero fácil de ser enfrentada.

Maria Angélica Ferrasoli conta que entrevistou algumas dessas mulheres que começaram a trabalhar com 12 ou 13 anos. Muitas relataram condições ainda mais degradantes no envolvente de trabalho, que chegava até mesmo ao controle de uso do papel higiênico.

“Elas precisavam pegar uma chave para usar o banheiro. Se demorassem mais do que 3 ou 4 minutos, já tinha gente batendo na porta. Em outras empresas, o papel higiênico ficava em cima da mesa do gerente. Ela tinha que ir lá e pegar uma prestação [de papel]. Portanto, se acabava o rolinho dali, elas tinham que se virar no banheiro, levar de mansão ou fazer o que fosse provável”, relatou.

Dopinho do ABC

Em suas pesquisas, os dois jornalistas descobriram também a existência de um braço do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) em São Bernardo do Campo, que era o principal polo metalúrgico do Brasil e que integra a região do Grande ABC.

Segundo os pesquisadores, esse Dopinho do ABC era formado por empresas da região e continha um sistema de vigilância e de controle dos trabalhadores e dos ativistas sindicais. “Uma espécie de controle industrial sobre a sociedade social”, contam, no livro.

“A gente descobriu a existência de uma filial do DOPS no ABC que ficava a três ou quatro quadras distante da sede do sindicato. Lá, as pessoas eram presas e torturadas. Para lá iam presos os trabalhadores, pessoas ligadas aos movimentos eclesiais de base ou de movimentos de melhoria nos bairros. A gente conta a história, inclusive, de um menor de idade que foi recluso e torturado ali”, disse Eduardo Reina.

Essas descobertas, reforçam os pesquisadores, demonstram que ainda há muito a ser pesquisado sobre a cooperação das empresas com a ditadura militar brasileira. Principalmente sobre a participação das empresas públicas, o que ainda não aconteceu.

“Eu acredito que a ditadura sobreviveria [sem a participação empresarial]. Mas ela sobreviveu de uma forma muito mais escalonada com a participação dessas empresas”, diz Ferrasoli.

“Acho que o livro contribui bastante para mostrar isso”, disse Reina, em entrevista à Escritório Brasil.

“A história da ditadura no Brasil tem milhares de coisas que precisam ser contadas. Muitas coisas foram enterradas e muita coisa desapareceu. Muitos arquivos militares foram destruídos. Mas a gente precisa ter um outro olhar para toda essa documentação e avançarmos com isso para mostrar todas essas coisas que aconteceram e continuam acontecendo. Se a gente fizer um paralelo, a polícia militar age do mesmo modo hoje porquê agia na ditadura. Se formos para a periferia, portanto, os pretos e os pobres são as maiores vítimas dessa ditadura hoje, porquê eram também na estação da ditadura. E isso ninguém contou até hoje”, destacou o pesquisador.

Montadoras

A Escritório Brasil procurou as cinco montadoras citadas no livro, mas até o momento da publicação elas não se manifestaram sobre o tema. 

Em nota enviada aos escritores do livro, a Volkswagen informou que assinou um termo de ajuste de conduta (TAC) com o Ministério Público e que foi a primeira empresa estrangeira a reavaliar sua história durante o regime militar no Brasil.

Já a Scania disse que repudia qualquer tipo de violação aos direitos humanos e que não guarda mais documentos sobre aquele período.

A Mercedes-Benz escreveu aos autores que não identificou, até o momento, evidências de suporte da empresa com a ditadura militar.

A GM, por sua vez, negou envolvimento com ações repressivas ou de colaboração com a ditadura, e a Ford também não se manifestou aos autores do livro.

O livro Repressão Sociedade Anônima é uma publicação da Editora Parque. 

Fonte EBC

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