Livro de Bruno Ribeiro mostra a violência em toda herança – 03/07/2026 – Ilustrada
Poucas coisas assombram mais o Brasil do que o espectro da propriedade. A terreno, o sobrenome, a riqueza acumulada: aquilo que garante ininterrupção para alguns costuma produzir violência e exclusão para outros.
Em “O Proprietário e o Mal”, Bruno Ribeiro transforma esse discrição em um romance de fôlego vasqueiro na literatura brasileira contemporânea.
Ao seguir a trajetória da família Santos Assumpção ao longo de décadas, o responsável constrói uma saga familiar, um romance histórico e uma narrativa de horror que têm uma vez que objeto generalidade a formação do Brasil.
A trama segmento de um gesto simples de transmissão patrimonial. Em seguida a gravidez casual da jovem Valéria, filha mais novidade da família, de um garoto rico, os poderosos Lucena Neumann oferecem um vetusto boteco uma vez que forma de resolver o escândalo. A propriedade se transforma no restaurante Recanto Feliz.
Mas o que parece uma negociação privada logo revela alguma coisa maior: em “O Proprietário e o Mal”, quase toda legado carrega uma história de violência.
Batista, o patriarca dos Santos Assumpção, participa da construção da Transamazônica durante a ditadura, passa pelo presídio de Ilhéu Grande e é recrutado para atuar uma vez que matador a serviço do regime militar. Soledade, sua companheira, é entregue para trabalhar na mansão de uma família rica e engravida do herdeiro. O rebento dessa relação, Genival, cresce marcado pela exclusão.
Já Graciliano, rebento de Batista, reproduz a violência do pai ao se tornar um poderoso traficante no Rio de Janeiro. Em todos os casos, o que está em jogo não é somente o fado individual dos personagens, mas aquilo que recebem e transmitem, as forças históricas que muito os superam.
Ribeiro parece interessado em investigar uma vez que a violência atravessa gerações, muda de semblante e encontra novos hospedeiros, numa lógica de posse, mas também de possessão demoníaca.
O mal não aparece só uma vez que resultado de escolhas individuais, mas circula, é transmitido por cadeias muitas vezes imperceptíveis. Os ricos convertem violência em patrimônio; os pobres herdam somente seus destroços.
Talvez por isso o romance abandone os limites do realismo convencional. Fantasmas, demônios, maldições e possessões povoam a narrativa. É nessa chave que ganha força a figura do Inglês, presença demoníaca que assombra gerações da família.
Uma vez que o diabo de “O Rabi e a Margarida”, de Mikhail Bulgakov, o Inglês percorre o romance uma vez que uma força persistente, capaz de reorganizar destinos individuais e coletivos muito depois de sua origem histórica.
O sobrenatural, assim, não funciona uma vez que ornamento fantástico, mas uma vez que instrumento de leitura da história brasileira para torná-la inteligível. A violência retratada por Ribeiro é tão profunda que o horror surge uma vez que uma linguagem capaz de simbolizar aquilo que o realismo sozinho talvez não consiga explicar, desnaturalizando aquilo que tomamos uma vez que cotidiano.
Uma vez que narrar a permanência do colonialismo, do racismo e da desigualdade ao longo dos séculos? O romance responde transformando essas forças em assombrações.
Nesse vista, “O Proprietário e o Mal” se aproxima de uma importante linhagem da literatura latino-americana de hoje, de autores uma vez que Mariana Enriquez, para quem os fantasmas emergem de violências históricas que insistem em retornar. Mas o livro também dialoga com uma tradição brasileira muito dissemelhante: a dos grandes narradores interessados em compreender o país uma vez que totalidade.
Há ecos de José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Erico Verissimo em sua anelo de transformar famílias, paisagens e conflitos locais em material para pensar a formação pátrio. Ribeiro sabe herdar a anelo totalizante do romance brasílico de 1930, com uma imaginação sombria do horror contemporâneo.
O resultado é um romance de arestas, por vezes excessivo e frequentemente febril. Uma vez que os grandes livros que tentam abraçar um mundo inteiro, corre o risco permanente do desmoronamento. Ainda assim, sustenta uma das empreitadas mais ambiciosas da ficção brasileira recente: transformar a história do Brasil numa história de horror.




