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Livro de Refaat Alareer ressoa após morte na Faixa de
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Livro de Refaat Alareer ressoa após morte na Faixa de Gaza – 25/10/2026 – Ilustrada

Em 2011, Refaat Alareer escreveu um poema para sua filha Shymaa. Os três primeiros versos diziam: “Se eu tiver que morrer/ você precisa viver/ pra narrar minha história”.

Na Fita de Gaza, onde eles viviam, a morte pairava com frequência. Anos depois, em 6 de dezembro de 2023, um bombardeio israelense matou Alareer, seu irmão, sua mana e quatro sobrinhos.

O poema, catalisado pela morte de Alareer, foi restaurado e percorreu o mundo, sendo publicado na florilégio póstuma “Se Eu Tiver que Morrer”. O livro, que mistura trova, tuítes e textos jornalísticos, chega ao Brasil agora pela editora Cosac, em tradução de André Capilé.

Compartilhado nas redes sociais e na prensa global, o trabalho de Alareer é hoje um dos símbolos da situação em Gaza.

A guerra começou em 7 de outubro de 2023, quando a partido radical palestina Hamas liderou um atentado contra Israel, deixando 1.200 mortos. Em resposta, a ofensiva israelense deixou mais de 70 milénio mortos em Gaza e devastou a infraestrutura do território. Organizações internacionais e governos —incluindo o brasílio— descrevem a situação porquê um genocídio. Israel nega e se opõe à classificação.

Alareer nasceu em 1979 no bairro de Shujaiya, sob ocupação israelense. Tel Aviv havia tomado o território palestino em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, e retirado seus soldados e colonos exclusivamente em 2005.

O poeta aprendeu primeiro com sua avó a força das histórias. Depois, estudou em Gaza, fez um mestrado no Reino Unificado e um doutorado na Malásia. Decidiu grafar em inglês para que suas ideias ultrapassassem a barreira linguística.

Em 2007, começou a dar aulas de inglês, literatura e escrita criativa na Universidade Islâmica de Gaza. Ajudou a desenvolver o projeto Não Somos Números, incentivando jovens palestinos a, assim porquê ele, contarem suas histórias em inglês.

Essa perspectiva aparece claramente em um dos textos da florilégio, datado de 2014, que diz: “Quando [meus alunos] conseguirem romper os muros do isolamento criados pela ocupação e pelo Egito, quando encontrarem judeus que trabalhem pela nossa desculpa, isso fará toda a diferença”.

Ele se referia ao bloqueio imposto por Israel e às restrições do Egito na fronteira sul de Gaza, que limitam a circulação de pessoas e mercadorias e contribuem para a crise humanitária.

No poema que dá título ao livro, Refaat não pede exclusivamente que a filha conte sua história. Pede também que venda suas coisas, compre “um trapo de tecido” e empine uma pipa.

Imagina, com isso, “uma párvulo, em qualquer lugar de Gaza,/ enquanto mira o firmamento muito nos olhos/ esperando o pai que se foi num clarão —/ e não se despediu de ninguém/ nem mesmo da própria mesocarpo”.

Essa mistura de linguagem poética com crueza marca a obra de Refaat, que apostava no impacto emocional e tratava o texto porquê um instrumento de persuasão.

Em outro poema, publicado um mês depois o início da guerra, Refaat descreve cadáveres de bruços nas margens do Mediterrâneo, onde enxerga “a humanidade encharcada de sal”. “Nem todos os perfumes da Arábia vão/ minorar a podridão/ que Israel choca”, dizem os derradeiros versos.

A imagem dos perfumes da Arábia é uma referência à peça “Macbeth”, de Shakespeare, e revela o diálogo permanente de Alareer com a literatura britânica.

Sua última mensagem na rede social X, o velho Twitter, mirava a audiência global, em próprio a americana. Ele acusava o Partido Democrata e o portanto presidente, Joe Biden, de serem responsáveis pelo que descrevia porquê um genocídio em Gaza.

O tuíte consta do término do livro, seguido da transcrição de algumas de suas últimas mensagens de voz. Refaat lamentava não conseguir proteger seus alunos —tinha 200 naquele momento— e pedia que eles escrevessem. Acreditava que podia inspirá-los pelo seu exemplo.

O poema “Se Eu Tiver que Morrer” se encerra com a esperança de que uma párvulo veja a pipa e pense, por um momento, que está vendo um querubim. “Se eu tiver que morrer/ que traga esperança/ que seja uma história.”

Poucos meses depois de sua morte, um bombardeio também matou sua filha Shymaa, para quem tinha escrito o poema. Shymaa morreu ao lado do marido e do fruto de dois meses. Ela não pôde, assim, narrar sua história, vender suas coisas nem empinar uma pipa. A tarefa ficou para os leitores.

Folha

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