Livro quer derrubar ideia de que críticos são vampiros – 03/04/2026 – Ilustrada
Jornalista, redactor, editor e cineasta, Miguel de Almeida organizou “Meu Odiado Crítico”, um livro que resgata a sátira músico relevante no Brasil que acaba de ser publicado.
O título onusto de ódio é engraçado. O responsável elencou quatro nomes admirados, que arrebanharam seguidores a partir da dezena de 1960: Ezequiel Neves, Júlio Medaglia, Sérgio Cabral e Zuza Varão de Mello.
“Eu sempre acreditei que, assim uma vez que a música brasileira tem uma extrema qualidade, que a colocou em circulação no mundo inteiro, em determinado momento ela encontrou na sátira uma interlocução à fundura, um diálogo entre criadores e pensadores, músicos e críticos”, afirma Almeida.
A teoria do livro, com um formato que permite até um segundo volume com outros pensadores musicais, é “desmistificar essa história de que o crítico é um vampiro, que só usufrui da geração alheia” diz o responsável. “Possui uma capacidade de colaboração criativa. A sátira pode ser um instrumento de auxílio à produção.”
O livro traz um perfil de cada crítico, escrito por Almeida, e seleções de textos publicados de 1957 a 2020, totalizando 63 críticas. Além da variedade de gêneros abordados, surpreende a enorme quantidade de questões levantadas nos textos. “Esses nomes trouxeram pontos de debate que às vezes escapavam aos criadores musicais”, diz Almeida.
Os quatro eleitos para o livro, mesmo contemporâneos, têm focos de atuação muito diferentes. Ezequiel Neves (1935-2010) foi jornalista, produtor e boêmio. Além de atuar em veículos importantes, passou a ser uma figura medial do rock vernáculo quando o gênero despontava para formar uma cena brasileira. Ele apresentou Cazuza ao Barão Vermelho, sugerindo que a filarmónica teria nele o vocalista ideal.
Nascido em 1938, Júlio Medaglia é maestro, arranjador e um pensador que construiu uma curso guiada pela saber e uma ampla início ao experimental.
Foi uma espécie de braço intelectual da tropicália, merecendo reconhecimento uma vez que alguém que impulsionou os artistas do movimento à mistura entre popular e erudito. É o mais rigoroso dos críticos perfilados, num trabalho intenso de tentar aproximar o grande público de uma música mais complexa.
Um dos maiores historiadores do samba, Sérgio Cabral (1937-2024) fez gerações posteriores reverenciarem nomes fundamentais uma vez que Noel Rosa, Cartola e João da Baiana, todos de certa forma “pais” do gênero. Além de ter revelado Martinho da Vila.
Almeida admite que Cabral tem a maior trouxa social em seu trabalho. “Ele mostrou ao público sambistas que eram desconhecidos ou mal compreendidos. Ele influenciou a vida no Rio de Janeiro, mostrou à classe média branca da zona sul o que era o samba.”
O mais professoral do quarteto é Zuza Varão de Melo (1933-2020), responsável de bibliografia dedicada a examinar relações entre gêneros musicais. Além dos livros escritos com rigor histórico e conhecimento técnico, ele foi diretor de festivais de música memoráveis, uma vez que o Festival da Record.
Almeida dedica um trecho do livro para aproximar o trabalho desses críticos ao “new journalism”, movimento surgido nos Estados Unidos nos anos 1960 que mistura técnicas da ficção literária com reportagem factual. Um de seus modelos mais radicais é o jornalismo “gonzo”, no qual o repórter tem uma participação ativa nos acontecimentos que está cobrindo.
Os personagens do livro fizeram isso. “Foi um critério de escolha. O caso do Cabral é réplica. Ele organizou espetáculos, foi produtor, e depois se meteu a compositor, com bastante triunfo.” conta Almeida. “Os festivais do Zuza foram formadores de um palato músico no Brasil.”
“Ezequiel Neves conviveu intensamente com quem era foco de suas críticas. Era uma postura inusitada.” O crítico se tornou empresário da filarmónica paulistana Made in Brazil, durante a ditadura militar, quadra difícil para os roqueiros. Em seu perfil, Almeida conta uma história engraçadíssima envolvendo a intromissão da polícia em um show do Made.
“O mais interessante é que a ação sátira passa para o projecto físico. Não é exclusivamente redigir. O crítico consegue vislumbrar ideias ainda em curso, escoltar a geração e até interferir nela.”
Para Almeida, a qualidade da sátira foi um espelho da boa música, e agora isso não se repete. “A produção músico oferecida hoje não estimula a reflexão, não desafia.”





