Durante o principal show de sábado do Lollapalooza no Brasil, festival que aconteceu neste término de semana, em São Paulo, a cantora Chappell Roan comentou sobre o que via de cima do palco —centenas de leques de cores e estampas diferentes acompanhavam o ritmo das batidas e faziam as vezes das palmas a cada término de música cantada por ela.
“Quando a Lady Gaga tocou no Rio, eu vi vocês com os leques. E eu pensei ‘uau, será que qualquer dia eu vou ver isso também’? E cá estamos nós”, disse, rindo. A cena não foi uma exclusividade do show da americana, embora tenha sido o vértice do uso desse objeto que, nas mãos dos brasileiros, acabou virando instrumento músico.
Oriente foi o ano do “lequepalooza”. A quantidade de leques por metro quadrângulo no Autódromo de Interlagos não foi um eventualidade —acompanhou uma aposta certeira do evento em escalar cantoras pop que estão em ótimos momentos das carreiras exatamente agora, caso da própria Chappell Roan.
Se o “Gagacabana” lembrado pela cantora foi réplica na curadoria de seus dois primeiros anos, ao escalar Lady Gaga e Madonna e atrair uma base de fãs comprometida, engajada e também enxurro de leques aos shows, o Lollapalooza pareceu buscar na iniciativa carioca inspiração para retomar o fôlego de um festival que enfrentou críticas nas últimas edições.
Isso se traduziu numa sexta liderada por Sabrina Carpenter com ingressos esgotados, um término de sábado memorável com Chappell Roan e um domingo marcado por shows de Addison Rae e Lorde, divas pop de mundos diferentes, mas que surfam na mesma vaga de álbuns recentes bem-sucedidos. Mesmo quando olhamos para além do pop, a presença de nomes uma vez que Doechii, Tyler, The Creator e Katseye foram apostas mais certeiras na música contemporânea.
Tudo aponta para uma curadoria mais ajustada aos desejos dos fãs de música, um tanto no qual o evento pareceu patinar nos últimos anos. Agora, o Lollapalooza voltou a aventurar mais que outros festivais grandes, mas ainda não ousa muito na maior segmento do tempo, variando em atrações balizadas pelo Grammy e o algoritmo do TikTok.
Se o leitor quiser trebelhar de julgar quais serão as atrações do Lollapalooza do ano que vem, são altas as chances de que a resposta esteja na categoria de artista revelação do prêmio. Foi assim com Sabrina Carpenter, Chappell Roan, Doechii, Rae e Katseye, neste ano, e com Billie Eilish, Olivia Rodrigo, Benson Boone, The Marías, Doja Cat, Rosalía e Lil Nas X em edições anteriores.
É simples que nem tudo que vem do TikTok é passageiro, assim uma vez que nem tudo que vem do Grammy é sinônimo de qualidade —e os artistas que frequentam esses espaços muitas vezes se misturaram nos últimos anos. Na verdade, as duas fontes de inspiração da curadoria só revelam que há certa restrição de imaginação de onde buscar nomes, em próprio aqueles que preencham o miolo do line-up.
O Lollapalooza também tem olhado para a rede social chinesa para escolher artistas com mais bagagem. Foi o caso do Deftones que, mesmo com quase 40 anos de curso, recentemente virou a margem de metal favorita da geração Z e fez um show amolado para fãs antigos e novos na sexta.
Se o grupo atuou uma vez que um gavinha entre os artistas alternativos mais experientes —filão em que o Lollapalooza sempre apostou— e os mais jovens, em alguns momentos essa conexão ficou perdida. Foi o caso no show do Cypress Hill, ícone do rap americano na dezena de 1990, que fez uma apresentação animada para uma plateia pequena no sábado. O quarteto tocou no mesmo dia de Chappell Roan, Lewis Capaldi e Marina, nomes pop que não dialogam com seu som.
É interessante que o Lollapalooza não abandone nenhum desses filões, que estruturam sua identidade, mas fica a sensação de que eles podem dialogar melhor. Um dos artistas que fazem essa conexão é Tyler, The Creator, um dos mais inventivos nomes do rap da última dezena, que foi headliner do domingo. Figura excêntrica, possuidor de uma música que varia entre a mania e a virgindade, ele tem um apelo pop e recíproco que é a face do festival, e não à toa funcionou muito muito no line-up.
Foi também o caso do Turnstile, margem que produz hardcore para os novos tempos. Sua escalação mostrou não só que o rock pode voltar a ocupar esses espaços uma vez que também ser essa ponte estética para as sonoridades mais consagradas. Isso se a escolha das atrações não recorrer para a vertente radiofônica mais formulaica do gênero ou se render a quem faz um mero “revival” do estilo.
O Lollapalooza também reafirmou neste ano sua estrutura consagrada —mais para o muito do que para o mal. A lodo, que deu as caras no Autódromo em seguida a chuva da quinta-feira, parece um problema insolúvel, ainda que o sol e o bom tempo do término de semana tenham restringido seu impacto.
A disposição dos palcos segue a mesma, uma geografia já reconhecida pelo público e que funciona melhor que na concorrência. Alguns banheiros e bares mudaram de lugar, mas isso não chegou a gerar grandes alterações na experiência do festival.
O que causou reclamações foi a saída do autódromo, com relatos de superlotação e lentidão para conseguir acessar o transporte público. Por outro lado, neste ano o Lollapalooza estreou o trem expresso, serviço que conecta estações estratégicas da cidade a um ponto próximo ao festival.
O que funcionou razoavelmente muito foi o sistema de som, que comportou a maioria das apresentações. Isso é um tanto de forçoso para que o público consiga se conectar com a música emanada do palco, e que nem sempre é uma regular nos megafestivais.
Isso aconteceu mesmo em apresentações abarrotadas uma vez que a de Chappell Roan. Um dos pontos altos desta edição, a artista parece ter sido a solução perfeita para renovar os ares do festival e trazer de volta o que sua identidade tem de melhor. Ela é sim atual e bastante popular, mas carrega alguma ração de mania —substância que faz de uma atração ter a face do Lollapalooza, que nasceu para contemplar alternativos.
