Luiza Gottschalk usa da potência da luz solar em mostra – 11/05/2026 – Ilustrada
O sol brilha do lado de fora e também dentro da galeria, onde se espalha pelo pavimento e cria um halo em torno das pinturas. A artista Luiza Gottschalk mandou adesivar de dourado quase toda a extensão do espaço, criando ao mesmo tempo uma rota em torno dos quadros e uma estratégia de espelhamento.
Desde que pintura existe, e ela é uma pintora na raiz, muito se fala de luz, do prestidigitação de sua construção sobre a tela, à tendência assombrosa de Rembrandt ou Caravaggio, à procura obsessiva por uma luz interna que atravessa a superfície do quadro ou atmosfera pura e dura, à maneira de Mark Rothko ou o mais literal James Turrell.
Gottschalk, que tem sua mostra agora em papeleta na galeria Slag& RX, no Chelsea nova-iorquino, em paralelo à semana da feira Frieze, lembra ter desenvolvido em estreito contato com a mata atlântica no Brasil e conta que nunca tinha notado uma vez que o sol muda os dias e a vida de quem passa meses sem luz no insensível do inverno. Daí a teoria de terebrar sua exposição na primavera em Manhattan, quando o sol volta a fulgir e as ruas se acendem com os primeiros sinais de calor. É o sol na cabeça e nos quadros.
Essa luz transborda intensa já na pintura que abre a mostra, na vitrine da galeria voltada para a rua. É a visão de uma densa floresta atravessada por um rio todo branco e clarões vibrantes rosa-choque. Não é coisa etérea, inexplicável. Essa luz toda, uma teia de tensões e atravessamentos, é construída quase uma vez que arquitetura, num processo de pintura aplicada, tinta sobre tecido sobreposto à tela e depois arrancado, deixando essas cicatrizes por onde vazam as cores, o branco do tecido e o revérbero do entorno.
São duas operações em paralelo, ou amalgamadas. É a teoria de clareira, um espaço luminoso no breu da ramagem, e também um recorte cinematográfico, nas palavras da artista, um fotograma vibrante que se desprende de uma sequência na trevas.
Ela entende disso. Atriz de formação, uma das mais longevas das intérpretes dos Satyros, companhia lendária que chacoalhou as estruturas e os palcos do meio paulistano, Gottschalk foi durante anos também a cenógrafa do grupo. Seu trabalho na pintura, de certa maneira, é um desdobramento dessa lucidez cênica, o esplendor coreografado, a luz orquestrada, tudo em função do drama que acontece no palco.
Suas pinturas, em universal, retratam visões quase abstratas de ângulos da natureza, a mata devassada por um voyeur, alguma coisa perdido na floresta. Não é uma natureza virgem. É esse talvez o “plot twist” da obra de Gottschalk. A sua é uma selvageria cênica, controlada, iluminada à sublimidade.
Ela diz que isso vem da vivência da puerícia, não de ver a natureza pela janela, alguma coisa distante, mas viver dentro dela. Nesse sentido, suas pinturas se estruturam uma vez que espaços a explorar, a teoria de engolir o testemunha —em universal, a graduação é exagerada, telas de metros de profundidade, que deixariam pesada a atmosfera da galeria, mas isso se contorna cá com o jogo de cores, o cinza nas paredes, o dourado no pavimento e a luz própria, e intensa, dos quadros.
No escuro totalidade, ou no espaço maninho da galeria nova-iorquina, suas telas são clareiras, espaços cheios de luz, sem fazer da claridade dura um espetáculo. É a procura de uma potência reluzente precisa, que acende os ângulos e arestas ao volta e não afoga qualquer delicadeza.
Uma série de obras na mostra, aliás, dão essa teoria nítida de selva, uma floresta devassada pela luz solar potente, ou vultos no escuro da noite vistos ao luar. São trabalhos que ela labareda de colheita, com telas de dia e de noite.
Muitos deles são composições parecidas, uma vez que se fossem a sentimento positiva e a negativa da mesma imagem, sendo que a textura cá, as tais cicatrizes deixadas pelo tecido no processo da pintura, provoca a perfeita ilusão de figura e fundo, o tronco das árvores, de madeira maciça, contra a luz dura ou difusa.
Talvez o principal trabalho da exposição seja uma chave para entender a obra de Gottschalk nesse pausa entre luz e trevas. É a única pintura não nas paredes, mas mostrada num pintura traste, que ali não sai do lugar, mas indica que poderia se transladar, sobre rodas, pela galeria, indo em direção ao sol ou à sombra.
É um ostentação cênico, que desnuda a ilusão da pintura uma vez que construção sintético crua, nenhum lastro na veras a não ser a natureza construída nas lembranças da artista, clareiras inventadas dentro da tela, nunca vistas de longe, através da janela.
O jornalista viajou a invitação da Slag&RX





