Lula Barbosa reúne canções e histórias de mais de 40 anos de curso no espetáculo “Lula Barbosa – Memória Viva”, que apresenta no dia 29 de outubro, quinta-feira, às 19h, no Meio Cultural Vila Itororó, na região mediano de São Paulo. A ingresso é gratuita.
No repertório estão “Mira Ira”, composta com Vanderlei de Castro e segunda colocada no Festival dos Festivais, da Mundo, em 1985, “Tempo de Fé” e “Brincos”, de Amauri Falabella. O cantor e compositor, que teve músicas gravadas por Roberto Carlos, Fábio Jr. e Jair Rodrigues, intercala as interpretações com relatos sobre sua trajetória.
Antes do show, às 17h30, o artista conduz uma vivência músico sobre formação e processo criativo, também gratuita. Na entrevista à Música em Letras, a seguir, ele recorda o início nos festivais estudantis, comenta as mudanças da indústria fonográfica e discute o estabilidade entre preservar a identidade artística e ampliar o alcance de suas canções.
Uma vez que surgiu o projeto “Lula Barbosa – Memória Viva” e o que significa apresentá-lo no Meio Cultural Vila Itororó?
Quando a PNAB [Política Nacional Aldir Blanc] 60+ abriu inscrições, conversei com o meu camarada Cicinho, que é um grande músico e experiente nesse tipo de projeto. Ele abraçou a teoria e sugeriu o nome “Lula Barbosa – Memória Viva”. Começamos a partir daí, porque temos uma equipe sensacional de profissionais dando totalidade suporte para oferecermos muita qualidade e emoção ao público, atendendo a todos os requisitos exigidos.
Eu, que já tive a oportunidade de participar de outros projetos culturais, fiquei muito feliz com esse 60+ em próprio, porque completei 70 anos de idade com praticamente 45 anos de curso. Sigo sempre ativo, apresentando-me com a mesma emoção, compondo e gravando álbuns.
Eu poderia recontar e trovar a minha história no mundo da música, que começou nos anos 1970 com a participação em festivais estudantis. Meu primeiro festival ocorreu quando eu ainda cursava o ginásio. Eu e mais dois amigos, Joel e Paulinho, compusemos um samba chamado “Meu Sonho na Avenida”, e a nossa escola foi premiada em segundo lugar em 1972, no Festival da 4ª Delegacia de Ensino.
Assim, com o meu grupo Semente, participei de muitos festivais estudantis, que estavam muito em voga na estação. Em 1976, quando eu cursava o Anglo Latino, ali na rua Tamandaré, o Departamento do Aluno era muito entusiasmado. Entre uma lição e outra, eu ia para lá; sempre havia um violão e uma timba. Conheci amigos estudantes porquê eu — Mineiro, Persio, Joel, Nico Rezende, Ulisses Rocha, Mário, Zé Lopes e Claudinha — e fazíamos shows sob a batuta do querido professor Jonas, mais sabido porquê Barba. Em 1977, venci o festival estudantil de São José dos Campos com a música “Estirão”, em parceria com Vagner Salis. Depois disso, não parei mais e comecei a tocar nos bares da cidade.
Você cursou publicidade e propaganda na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo. Chegou a se formar? Uma vez que o curso contribuiu para sua curso músico?
É verdade. Entrei na Metodista no curso de publicidade e propaganda em 1978, mas não concluí a graduação por falta de recursos financeiros. Fui até o terceiro ano. Confesso que o estágio me foi muito útil, pois trabalhei com jingles por bons anos, tanto porquê tradutor quanto na geração de alguns deles.
A publicidade e a propaganda me proporcionaram um olhar interessante sobre a notícia, sobre porquê uma teoria chega às pessoas e de que maneira podemos erigir uma identidade. Isso tem tudo a ver com a música, porque o artista também precisa remeter aquilo em que acredita.
Na música, porém, existe um pouco que nenhum curso consegue ensinar completamente: a verdade daquilo que você canta. É verosímil ter a melhor estratégia de divulgação do mundo, mas, se não houver sentimento, a melodia não cria raízes.
Uma vez que selecionou o repertório para reunir canções e memórias de cinco décadas em uma apresentação?
O repertório é cronológico, na medida do verosímil, com os maiores sucessos e as canções mais representativas da minha curso. Essa é uma das partes mais delicadas e bonitas do projeto. Escolher composições de uma trajetória tão longa é porquê perfurar um álbum de fotografias: cada imagem traz uma recordação, e cada recordação pede um lugar próprio.
Procurei pensar não exclusivamente nas músicas mais conhecidas, mas naquilo que cada uma representa na minha vida. Algumas marcaram momentos importantes da curso; outras guardam encontros, amizades, descobertas e sentimentos que talvez o público nem imagine.
Existe também o libido de mostrar que uma curso não é feita exclusivamente dos grandes acontecimentos. Às vezes, uma melodia aparentemente pequena carrega uma história enorme. Quero que o repertório tenha movimento, que passemos por diferentes momentos, sonoridades e emoções. E que, entre uma música e outra, exista espaço para conversar, rir, lembrar e até se emocionar um pouco. Finalmente, a memória não é um museu fechado; ela continua acontecendo dentro da gente.
Além do show, o projeto inclui uma vivência músico. Qual é a proposta dessa atividade e porquê você vê a troca com novas gerações de músicos e ouvintes?
São muitas canções, mas, porquê antes do show haverá a vivência, aproveitarei esse bate-papo informal com o público para mostrar composições que não estarão na apresentação e recontar suas histórias.
A proposta é perfurar um espaço para conversar sobre o processo criativo, a formação, as escolhas musicais e tudo aquilo que acontece antes de uma melodia chegar ao público. Quero compartilhar o que vivi e ouvir as perguntas dos participantes. A música se renova quando existe essa troca; no fundo, ensinar e aprender caminham juntos. A música tem essa liberalidade de passar de uma pessoa para outra sem nunca se esgotar. Não pretendo chegar ali porquê alguém que tem todas as respostas.
O “Memória Viva” é um invitação para compartilhar experiências. Vou trovar músicas que fazem segmento da minha trajetória, recordar encontros e dividir um pouco do que vivi ao longo desses anos. Mas não quero que seja exclusivamente a minha memória; quero que cada pessoa encontre ali também as próprias lembranças ou talvez os seus sonhos. A música tem a capacidade maravilhosa de nos fazer viajar no tempo. Uma melodia pode nos levar de volta a um paixão, a uma amizade, a uma antiga lar, a alguém que já se foi ou a um projecto que ainda queremos realizar.
Sua discografia começou com o compacto “Estirão”, de 1981, e inclui 24 trabalhos. Uma vez que nasceu a parceria com o poeta paraense João Pinho no álbum “Borboletas no Firmamento”, de 2025, que tem participação de Cida Moreira?
“Borboletas no Firmamento” tem uma delicadeza muito próprio para mim. O encontro com João Pinho representa a capacidade que a arte tem de aproximar universos e colocar pessoas em sintonia, mesmo quando vêm de origens e experiências diferentes. A verso toca o que sentimos, mas nem sempre conseguimos explicar. Quando ela encontra a música, nasce uma terceira linguagem, que não pertence inteiramente nem ao poeta nem ao compositor, mas passa a ser de quem escuta. Essa parceria com o João trouxe justamente a possibilidade de diálogo entre vocábulo e melodia. Existe uma venustidade muito grande em deslindar música dentro de um poema e, ao mesmo tempo, encontrar novas imagens dentro de uma melodia.
A participação da Cida Moreira acrescenta uma presença artística muito marcante a esse universo. Ela tem uma possante personalidade interpretativa, capaz de dar novas cores àquilo que canta.
O título do álbum já convida a imaginar transformação, liberdade e venustidade. Para mim, fazer esse disco foi também reafirmar que a vontade de gerar não envelhece. Enquanto houver curiosidade, encontros e sentimento, sempre haverá uma novidade melodia esperando para nascer.
Você lançou trabalhos de forma independente e por gravadoras porquê CBS, RGE, Velas e Atração. Quais eram as diferenças entre esses caminhos e o que mudou com o streaming?
A indústria fonográfica mudou muito dos anos 1970 para cá. Percebi, nos anos 1980, o marketing entrando com força na música. Com a chegada de novas tecnologias, as empresas começaram a resolver quem poderia fazer sucesso ou não. Uma vez que a maioria das gravadoras tinha sede no Rio de Janeiro por culpa da Rede Mundo, quase tudo acontecia por lá. Em 1983, o Jessé gravou “Tempo de Fé”, de minha autoria, o que me abriu portas porquê compositor. Mas foi com a música “Mira Ira”, que ficou em segundo lugar e recebeu o prêmio de melhor restauro no Festival dos Festivais de 1985, que tive minha maior oportunidade e fui contratado pela CBS. Na sequência, lancei o LP “Os Tempos São Outros”. Foi uma longa guerra.
No pretérito, estar ligado a uma grande gravadora significava ter uma estrutura maior de produção, distribuição, divulgação e aproximação às rádios. Em contrapartida, o artista precisava mourejar com decisões que nem sempre estavam inteiramente nas suas mãos.
No trabalho independente, a liberdade costuma ser maior, mas a responsabilidade também cresce. Você passa a cuidar de muitos aspectos que vão além da música, porquê produção, orçamento, divulgação e distribuição. Às vezes, o artista precisa atuar porquê compositor, produtor, empresário e até carregador de equipamento.
Hoje, o streaming e as plataformas digitais abriram portas importantes. Um artista pode lançar uma filete e fazê-la chegar a pessoas que talvez nunca alcançasse pelos meios tradicionais. Isso é maravilhoso. Colocar uma melodia no mundo ficou mais fácil, porém fazer com que ela seja realmente ouvida continua sendo uma tarefa difícil. Nunca tivemos tanta música disponível e, ao mesmo tempo, tanta disputa pela atenção do público. O formato muda, o mercado muda, mas a emoção continua sendo o que faz uma melodia permanecer. Acredito que a tecnologia precisa estar a serviço da música, e não o contrário.
“Mira Ira” ficou em segundo lugar no Festival dos Festivais, em 1985. Uma vez que você se lembra da apresentação no Maracanãzinho e da repercussão da melodia?
“Mira Ira” foi um verdadeiro fenômeno. Ela seria a quarta música na eliminatória de São Paulo, no ginásio do Ibirapuera. No entanto, já na passagem de som, diante do jurado César Camargo Mariano e de outros participantes, a recepção foi tão calorosa que decidiram transferi-la para o fecho da noite. A partir dali, ela manteve essa posição de destaque até o término do festival, o que foi suficiente para transformá-la em um sucesso pátrio. Foi emocionante.
Lembro-me desse momento porquê uma experiência de muita intensidade. Sentimos uma alegria enorme, simples, mas também passamos a compreender que a música pode ocupar um espaço importante na sociedade. Ver “Mira Ira” compreender aquele público foi perceber que a mensagem que carregávamos dentro de nós encontrava repercussão em milhares de pessoas.
O Festival dos Festivais tinha uma dimensão gigantesca. Estar naquele palco, defendendo uma obra com uma fardo tão possante, trouxe uma responsabilidade e uma emoção difíceis de descrever. Quando compomos uma melodia, nunca sabemos até onde ela vai chegar. Ela nasce de uma inquietação, de uma teoria, de um sentimento. Depois, começa a caminhar pelo mundo e ganha vida própria.
O mais bonito é que não se tratava exclusivamente de uma apresentação músico. Havia ali uma mistura de culturas, de sonoridades e de identidades, com todos os grupos contribuindo para uma mesma proposta. Quando uma melodia emociona e, ao mesmo tempo, convida as pessoas à reflexão, ela realiza um pouco muito próprio.
Minha inspiração veio da amiga e cantora Miriam Mirah, do grupo de música latina Tarancón. Ela carregava em sua voz marcante as nossas raízes latino-americanas, interpretando grandes artistas da MPB e de outros países da região.
Foi inolvidável ver aquela povaréu cantando conosco. Naquele contexto de transformação política, havia a premência de ampliar os espaços de frase e de reflexão. Para mim, essa continua sendo a grande força de “Mira Ira”: falar de identidade, liberdade e pertencimento sem perder o valor estético da música.
A melodia procurava atingir esse objetivo por meio da verso, das imagens e da força da própria sonoridade. Sempre considerei que uma mensagem se torna mais profunda quando não precisa ser transformada em exposição político explícito. Havia na estação uma vontade muito possante de olhar para a nossa identidade e questionar quem somos e quais histórias estamos contando sobre nós mesmos.
O Brasil possui uma riqueza cultural extraordinária, mas frequentemente procura referências externas antes de reconhecer o que está próximo: as raízes indígenas, a relação com a terreno, a natureza e a história dos povos latino-americanos que integram a nossa formação. A música também atua porquê forma de memória e de consciência, capaz de relembrar narrativas que não devem ser esquecidas e vozes que precisam ser ouvidas, independentemente do tempo.
Depois de seguir diferentes movimentos e festivais ao longo da curso, o que labareda sua atenção na música atual?
É interessante observar a produção atual porque cada geração encontra uma maneira própria de expressar o seu tempo. Considero fundamental o trabalho de quem continua valorizando a melodia autoral, a verso, a pesquisa de nossas raízes e as manifestações regionais. O Brasil é tão rico musicalmente que é uma pena o mercado focar exclusivamente no que aparece com mais força nas grandes vitrines.
Ainda existem festivais de música por todo o país, formatos que considero muito superiores aos reality shows. Uma boa música inédita continua sendo a melhor forma de lançar novos intérpretes, compositores, arranjadores e instrumentistas. Esses programas de televisão costumam exclusivamente requentar sucessos antigos com novas roupagens, um padrão que dificilmente se consolida a longo prazo.
Falta atualmente um projeto que abrace esses novos talentos revelados em festivais regionais, dando-lhes visibilidade e credibilidade em contexto pátrio. Os festivais têm o papel de aproximar artistas, públicos e diferentes gerações.
Vivemos um período de intensa mistura de gêneros. O artista contemporâneo pode partir de uma tradição brasileira, incorporar elementos eletrônicos e dialogar com o jazz, o rock ou o hip-hop, criando uma linguagem que não cabe em uma única definição. Mais do que mostrar um movimento específico porquê o mais importante, prefiro manter os ouvidos abertos e a curiosidade viva. A música não precisa pedir licença para mudar, e nós, que estamos nela há tanto tempo, precisamos continuar dispostos a escutar.
Suas composições foram gravadas por Roberto Carlos, Fábio Jr., Jair Rodrigues e Jessé, entre outros. Você compõe pensando em quem vai interpretar a melodia?
Nunca compus pensando especificamente em outros intérpretes; esse método não funciona para o meu processo criativo. Minha dinâmica consiste em me inspirar na letra para que a sonoridade surja na minha mente. Construo a melodia a partir da sonoridade das palavras e, quando a formação está pronta, gravo e a ouço alguns dias depois. Normalmente, é exclusivamente nesse momento que tenho a percepção de qual voz combinaria com a obra. Sempre funcionou assim.
Cada tradutor possui personalidade, trajetória e uma maneira própria de sentir a música. Quando se imagina uma melodia para determinada voz, é proveniente considerar a extensão vocal, o palavreado, o temperamento e a forma porquê a pessoa se relaciona com o texto. Todavia, procuro não perder a origem da geração. A música precisa ter uma verdade própria antes de chegar ao cantor.
No caso de Fábio Jr., o diretor da gravadora CBS me ligou perguntando se eu tinha qualquer material para enviar ao artista. Encaminhei três faixas: “Desejos e Delírios”, “Só Querer” e “Depois Eu Explico”. Ele gravou todas. Sinceramente, eu não esperava que ele registrasse nenhuma formação minha, mas acabamos nos tornando parceiros e temos muro de dez músicas gravadas juntos.
Já com Jair Rodrigues, enviei “Vila Rica” e “Espírito Negra”, e ele também registrou ambas. Ter uma formação interpretada por outros artistas é um privilégio e uma emoção muito grande. São nomes com identidades marcantes, que deixaram legados profundos na música brasileira. É gratificante perceber que uma melodia pode transpor da sua intimidade e compreender a vida de milhares de pessoas. No fundo, o maior libido do compositor é que seu sentimento encontre alguém que precise ouvi-lo. É uma alegria muito grande quando uma melodia que nasce dentro da gente encontra a voz de outro artista e ganha uma novidade vida.
Ao revisitar sua trajetória no projeto “Memória Viva”, que marca você gostaria de deixar na música brasileira?
O “Memória Viva” é um invitação para compartilhar experiências. Vou trovar canções que fazem segmento da minha trajetória, recontar histórias, recordar encontros e dividir um pouco daquilo que vivi ao longo desses anos. Mas não quero que seja exclusivamente a minha memória. Quero que cada pessoa encontre ali também as próprias lembranças.
A música tem essa capacidade maravilhosa de fazer a gente viajar no tempo. O sentimento na preparação do projeto “Memória Viva” é de gratidão. Não exclusivamente pelo caminho que percorri, mas por todas as pessoas que fizeram segmento dele. A música é uma construção coletiva. Mesmo quando a gente está sozinho compondo, existe um mundo inteiro dentro daquela melodia. Essa é a principal marca do artista.
Eu acho que a música tem que mexer com o sentimento das pessoas de uma forma construtiva, despretensiosa. Agora, o sucesso não dá pra gente prever. Uma das minhas músicas mais tocadas na noite paulistana é “Tempo de Fé”. Ela não frequentou nenhuma paragem de sucesso, mas, até hoje, emociona as pessoas. Alguém sempre pede para eu tocar.
“Brincos”, do Festival da Mundo de 2000, é outra que não ficou entre as três melhores do festival. Ganhou o prêmio de preferida do público e acho que é a mais lembrada daquele festival.
Acho que a principal marca que gostaria de deixar é a de alguém que sempre procurou fazer música com verdade, com liberdade e com reverência à melodia.
Não penso em legado exclusivamente porquê números, prêmios ou reconhecimento público. Tudo isso tem seu valor, naturalmente, mas existe um pouco muito bonito em saber que uma música sua acompanhou alguém em um momento importante da vida. Talvez uma pessoa tenha ouvido uma formação minha quando estava apaixonada. Outra, quando perdeu alguém querido. Outra, ainda, quando precisava encontrar esperança para continuar.
Se uma melodia consegue fazer companhia a alguém, ela já cumpriu uma missão enorme.
Ao longo desses anos, procurei testar, criar, fazer parcerias e continuar aprendendo. Nunca acreditei que a música devesse permanecer paragem dentro de uma fórmula.
Uma vez que você vê a diferença entre ter canções gravadas por artistas conhecidos e o alcance do seu próprio trabalho porquê tradutor?
Bom, eu faço a minha segmento, mas sei também da grande dificuldade de um artista nascido nessa cidade, que é uma megalópole, desabrochar. Certa vez, numa conversa com o Ivan Lins, ele me perguntou por que eu não me mudei para o Rio. “Porque São Paulo é um país e o Rio é o Brasil”, disse ele. Isto é, cá você some na povaréu de opções, mas, no Rio, se você aparece, o país inteiro te vê. Acho que ele estava evidente.
Eu sempre batalhei sozinho na luta pela divulgação. Não tive a oportunidade de receber o suporte de empresários focados na minha curso. É uma luta árdua. Olha, eu seria hipócrita se dissesse que o reconhecimento não é importante. Todo artista deseja que seu trabalho seja ouvido, percebido e valorizado. A gente compõe porque tem alguma coisa para proferir e, naturalmente, gostaria que essa mensagem chegasse ao maior número verosímil de pessoas. Mas, com o tempo, fui entendendo que a história da música não é contada exclusivamente pelos nomes que aparecem com mais frequência na televisão ou nas grandes campanhas de divulgação.
Existem muitos artistas que construíram obras importantes longe dos holofotes mais intensos. Isso não significa que o trabalho deles tenha menos valor, embora seja verdade que a visibilidade faz diferença e pode perfurar muitas portas. A música brasileira é imensa, e a memória cultural nem sempre consegue dar a cada artista o espaço que ele merece.
Eu continuo fazendo aquilo em que acredito, compondo e procurando novos caminhos. E projetos porquê o “Memória Viva” são uma oportunidade formosa de aproximar o público dessa história. Se mais pessoas descobrirem minhas canções agora, será uma alegria enorme. Finalmente, uma música nunca perde a oportunidade de encontrar um novo ouvinte.
E talvez seja esse o lado mais romântico da nossa profissão: a gente nunca sabe quando uma melodia antiga vai tocar o coração de alguém pela primeira vez.
Uma vez que a procura por liberdade artística e o espaço disponível na mídia influenciaram sua trajetória?
O espaço na mídia para música de qualidade se reduziu drasticamente em conferência com o que era nas décadas de 1960, 1970 e 1980. Na TV, nos dias de hoje, praticamente não temos programas musicais. Em sua maioria, são programas de variedades e entretenimento, e a música entra exclusivamente porquê pormenor no programa, sem um espaço justo. Acredito que as duas coisas podem se encontrar, embora nem sempre de maneira planejada.
A liberdade estética sempre foi muito importante para mim. Nunca achei que o artista devesse perfurar mão da própria identidade para se encaixar completamente em uma tendência. Evidente que a gente aprende, experimenta e dialoga com o mercado, mas existe um limite em que é preciso preservar aquilo que faz a sua música ser sua. Ao mesmo tempo, não dá para ignorar que a grande mídia tem seus critérios, suas prioridades e suas limitações. Muitas vezes, o espaço é concentrado em determinados estilos, nomes e formatos, enquanto uma produção autoral mais diversa encontra dificuldade para chegar ao público.
Mas não sabor de transformar isso em uma disputa entre música mercantil e música autoral. Existem grandes canções em todos os espaços, e uma obra pode ter qualidade artística e também compreender milhões de pessoas. O que me preocupa é quando o mercado passa a estabelecer sozinho o valor da música.
Eu prefiro crer que a arte precisa de liberdade para viver de muitas maneiras. Algumas canções chegam porquê um caso inopino; outras vão encontrando seu público aos poucos e permanecem durante décadas. Cada trajetória tem seu próprio ritmo. E a gente precisa respeitar isso.
Que juízo daria a quem está começando e enfrenta o dilema entre buscar o sucesso e preservar a identidade artística?
Eu diria, antes de tudo, para não ter pressa de deslindar quem você é artisticamente.
Hoje, existe uma pressão muito grande para que tudo aconteça depressa. O artista lança uma música, acompanha os números, observa as tendências e, às vezes, começa a crer que precisa se transformar a cada semana para continuar sendo ouvido.
É simples que precisamos aprender a mourejar com o mercado, com as ferramentas digitais e com as novas formas de notícia. Isso faz segmento da verdade. Mas é importante não confundir visibilidade com identidade.
Estude, escute muita música, conheça os grandes compositores, descubra artistas novos, experimente caminhos diferentes. E, principalmente, procure entender o que você tem de verdade para proferir.
Não tenha terror de mudar, mas também não mude exclusivamente por terror de permanecer para trás. O sucesso pode vir de muitas maneiras. Pode chegar rapidamente ou pode ser construído ao longo de anos. O que realmente importa é que, quando você olhar para o seu trabalho no horizonte, consiga se reconhecer nele.
E tem outra coisa: não caminhe sozinho. Procure parceiros, converse com outros músicos, aceite críticas sinceras e mantenha a humildade de quem sabe que sempre existe um pouco a aprender.
A curso é uma maratona, não uma corrida de século metros.
Se eu pudesse deixar uma mensagem, seria esta: cuide da sua música porquê quem cuida de um paixão. Com dedicação, paciência, reverência e liberdade. Porque, quando existe verdade no que você faz, sempre há a possibilidade de tocar alguém.
O que você espera que o público ligeiro da apresentação?
Espero que o público saia com a sensação de que viveu alguma coisa verdadeira. Que tenha rido, se emocionado, revelado uma melodia ou simplesmente pretérito um momento gostoso na companhia da música.
Depois de tantos anos, continuo acreditando que o palco é um lugar de encontro. Eu levo as minhas canções, as pessoas levam suas histórias e, por qualquer tempo, tudo isso se transforma em uma experiência compartilhada.
Se cada pessoa transpor de lá levando uma emoção formosa no coração, já terá valido a pena.
Show “Lula Barbosa – Memória Viva”
Quando: 29.out.2026 (quinta). Vivência músico às 17h30; show às 19h
Onde: Meio Cultural Vila Itororó — rua Maestro Cardim, 60, Bela Vista, região mediano de São Paulo
Quanto: Gratuito. Show sem retirada de ingresso; vivência sem letreiro prévia. Aproximação por ordem de chegada, sujeito à lotação
Duração: Show, 60 minutos; vivência, 75 minutos.
Classificação: Livre
Acessibilidade: Libras, audiodescrição e visitante tátil





