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Lydia Davis: IA não vale sacrifício para saber tanto assim
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Lydia Davis: IA não vale sacrifício para saber tanto assim – 31/07/2026 – Ilustrada

Lydia Davis está preocupada com o quanto a perceptibilidade sintético suga os recursos do mundo e “arruína paisagens inteiras” com seus enormes “data centers”. Mas se preocupa ainda mais com o quanto ela está devorando o processo criativo de seus pupilos.

“Não acho que vale o sacrifício”, diz a autora americana, professora emérita da Universidade do Estado de Novidade York em Albany, logo antes de atenuar o tom com uma folgança. “Francamente, não tenho certeza de que temos que saber tanta coisa assim.”

O problema não é muito a IA nem a internet —Davis lembra que desde a invenção da televisão o exposição universal e a fala de ideias têm se tornado mais uniformes—, mas o veste de que hoje estamos “quase sendo treinados para ter déficit de atenção”.

“Recomendo aos meus alunos que tirem longas férias do celular, e alguns acham quase impossível permanecer sozinhos com os próprios pensamentos. A concentração é fundamental para redigir, e estamos sendo privados dela.”

Nesta entrevista, a autora de 79 anos expande ideias que aparecem no seu livro mais recente —a compilação de ensaios “Um Pato Estremecido É Assado”, traduzida por Camila von Holdefer para a WMF Martins Fontes— com orientações de uma veterana admirada sobre o processo de escrita.

Uma de suas dicas, uma vez que ela reforça na aprazível conversa em vídeo com o repórter, é lembrar que “o jeito macróbio de ir até uma enciclopédia para procurar alguma coisa era bom”.

“Embora recursos online sejam práticos, muitos deles são imprecisos, montados às pressas e/ou mal escritos”, aponta ela no livro. “Pode-se manifestar que, quanto mais antiga for a edição [de um livro], melhor ela é, ou ao menos mais cuidadosamente editada. E muito do teor não vai estar desatualizado.”

Ler de tudo é um bom remédio, mas um parecer direto da autora é priorizar obras mais antigas. “Você não quer uma dieta manente de literatura contemporânea. Você já pertence ao seu tempo.”

Diz, por fim, que ler “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, a despertou para o uso de capítulos curtos. E a “sensibilidade bizarra” e as “estranhas vozes narrativas” de Clarice Lispector a tocaram.

Antes de continuar, é preciso deixar evidente que Lydia Davis é uma das maiores escritoras dos Estados Unidos. Em 2013, passou a ocupar um panteão de unicamente seis autores, ao lado de Philip Roth, Chinua Achebe e Alice Munro, quando foi reconhecida com o prêmio Man Booker Internacional pelo conjunto de sua obra. A eminência foi concedida de 2005 a 2015.

Seu trabalho, porém, é pouco publicado e publicado no Brasil. O redactor e editor Joca Reiners Terron, responsável por lançar agora os ensaios da autora na preciosa coleção Errar Melhor, tem pistas do porquê.

“Antes de tudo, ela privilegia a forma curta, mal vista entre editores”, afirma. “Outrossim, formas curtas que não cabem em nenhum chiqueirinho: não são contos, nem poemas, nem ensaios. Logo são o quê? Literatura livre, que reinventa a escrita uma vez que sinônimo de liberdade.”

Os textos curtos a tornaram célebre, mas a autora promessa que não planejou isso. Pensa em bons começos —um exemplo é a frase de onde se pinçou o título da novidade coletânea, “um pato querido é assado por miragem”— e toca adiante até o ponto final, seja onde ele estiver.

“Eu palato de numerário, mas nunca senti que precisava lucrar numerário com meus livros, ou seja, que eles precisariam ser coisas vendáveis”, diz a professora de curso, ao recusar a teoria de que redigir em formatos insólitos seja aventuroso. “Nunca senti isso. Logo escrevo para aprazer a mim mesma e a leitores uma vez que eu.”

Suas duas obras publicadas pela Companhia das Letras, “Tipos de Perturbação” e “Nem Vem”, são rotuladas simplesmente uma vez que “ficções” —foram traduzidas por Branca Vianna. Seu único romance, “O Termo da História”, saiu pela José Olympio com tradução de Julián Fuks e é melhor descrito uma vez que um estudo a quente sobre o que é fazer um romance.

Davis resiste ao rótulo de “autora experimental” atribuído a ela com frequência. Diz que as pessoas usam essa vocábulo para qualquer coisa que “as deixe confusas, que pareça esquisita ou estranha”.

“Experimental dá a entender que o responsável tinha um projecto para testar alguma estratégia de escrita previamente concebida, para ver se funcionava”, argumenta. “Porquê no universal prefiro estrear um texto sem um projecto definido e sem saber exatamente o que estou fazendo, não acho que os contos que resultam desse processo sejam, de forma alguma, experimentais.”

Terron lembra que Davis “tem um verdadeiro séquito nos cursos de escrita” brasileiros. “Ela descomplica um tanto que pode parecer muito complicado, redigir, e aponta trilhas pouco batidas na forma e nas influências. Basicamente, mostra que se você ler o que todos estão lendo, vai redigir um tanto que todos estão escrevendo. Seus ensaios generosamente apontam a saída do ciclo vicioso.”

Uma das recomendações mais inusitadas da americana é que os potenciais escritores aprimorem suas próprias personalidades. “Sempre digo aos estudantes para trabalhar em suas habilidades de percepção, na sua capacidade de discernir as coisas e manter a mentalidade ocasião. Porque você é o instrumento. Se você não é curioso e se tem a cabeça fechada, sua prosa vai ser limitada.”

Ortografar não é só transmitir o que você pensa à página, segundo ela. É também pensar melhor. “Ao revisar uma frase, por fim, você revisa não só as palavras da frase, mas também o pensamento que está contido nela”, escreve Davis.

“Você não consegue pegar originalidade emprestada”, diz a autora durante a entrevista, o rosto severo, os óculos grossos e o cabelo grisalho contrastando com seus olhos claros de garoto. “Tudo tem que vir de dentro de você. Quanto mais individual você for, mais individual será sua escrita.”

Leia a íntegra de três textos de Lydia Davis

Teoria para um Documentário de Curta-Metragem

Representantes de diversos fabricantes de produtos alimentícios tentam penetrar suas próprias embalagens.

A Insônia

Meu corpo dói tanto —Deve ser esta leito pesada me apertando.

A Mosca

No fundo do ônibus, no banheiro, levante micropassageiro ilícito, a caminho de Boston.

(de “Tipos de Perturbação”, publicado pela Companhia das Letras com tradução de Branca Vianna)

Folha

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