M.I.A. improvisa e fala de Deus, Gaza e Lula em noite de culto a sua persona indomável – 03/11/2026 – Ilustrada
O show já ia para lá da metade quando a cantora atirou de sopetão o microfone na plateia. “Vocês é que vão falar!”, ordenou. Um balbuciou a situação política do Brasil, outra mandou Trump para aquele lugar, o público começou a trovar o jingle da campanha de Lula e o microfone voltou para a mão da artista, que tinha dito minutos antes: “Quem for permanecer ofendido que vá para o fundo da pista!”
Nesse incontrolável fluxo de improviso, misto de ira punk e pregação cristã, Mathangi Arulpragasam, mais conhecida porquê M.I.A., fez sua apresentação em São Paulo nesta segunda (2), no Cine Joia. Foi um show único em que a artista exibiu, sem meias-palavras, a sua inquestionável dificuldade —de heroína a vilã e vice-versa, um trajeto em quase 25 anos de uma curso marcada por tantos sucessos quanto polêmicas.
A controvérsia mais recente foi em maio. Convocada para o show de fenda da turnê do rapper Kid Cudi, nos Estados Unidos, a cantora disse ao microfone: “Nunca tinha pensado que seria cancelada por ser republicana”. Seguiram-se vaias, ao que ela respondeu: “Metade da minha equipe não está cá porque são ilegais.” Era a deixa para “Illygirl”, melodia que, em São Paulo, abriu o show.
O que veio antes da fita por cá também suscitou vaias. M.I.A. subiu ao palco com 45 minutos de delonga e uma plateia já desagradada. Tanto DJ quanto técnicos da mansão optaram por segurar o público com uma sequência barata e nostálgica de funk. A sensação é de que veríamos uma M.I.A. presa no início dos anos 2000, quando ela e o produtor Diplo compuseram uma proposta autêntica de música pop combativa e antisséptica na mixtape “Piracy Funds Terrorism”.
Nas paredes, os dizeres projetados: “Veja por sua conta em risco!”. O vídeo de introdução do show era tão somente um rosto que falava, em tom enfurecido, temas polêmicos ou uma língua estranha —glossolalia muito a calhar com a tempo atual da artista, que lançou seu próprio álbum gospel em abril. Parecia tudo plástico, quase lixo feito por IA (o tal “AI slop”), um palco para um teatro caricato de si mesma —até que M.I.A. entrou em cena.
Poucas faixas foram suficientes para que ela mostrasse porque ainda soa relevante, mesmo depois ter enrugado o campo progressista ao se opor a vacinas durante a pandemia e provar suporte a Trump na campanha presidencial de 2024. M.I.A. segue com uma qualidade invejável na música que a acompanha desde sua estreia: na sua mão, qualquer som ganha sua assinatura.
Seu primeiro sucesso, “Bucky Done Gun”, continua com a força que teve quando despontou porquê o primeiro funk brasílico a lucrar o mundo —as cornetas, originalmente do funk apócrifo “Montagem Rocky Balboa”, se transformaram em marca registrada da cantora e trombetas bíblicas em seu último álbum. Em “XR2” e “Bring the Noize”, ela prova domínio do flow, entre rap político e grime rápido, entre líricas de navalha e refrões pegajosos.
É o caso também de “Galang”, melodia que segue potente ao vivo, um retrato variegado da correria nas zonas cinzas de Londres entre encontros e conflitos de populações do subcontinente indiano, do Caribe e do mundo arábico —renovação da “London Calling” do grupo The Clash. Punk, aliás, é outro adjetivo que define a postura de M.I.A. no palco: na falta de seu equipamento completo, ela fez seu show numa troca frenética com a plateia.
Em meio ao público, sobre os ombros de um roadie, a cantora soltou faixas que pouco toca e aproveitou o tempo para discursos de toda sorte —momentos em que o Cine Joia prendia a respiração em uníssono, todos temerários dos caminhos da mente da artista. Para introduzir “Bad Girls”, manifesto feminista com beat imponente, ela lembrou que chegou aos 51 anos sem se render aos mandos da indústria da venustidade. Em seguida, disse que os ventres das mulheres devem ser “macios”.
Outras raridades foram “Sunshowers”, que apresentou à capela, e “Come Walk With Me”, melodia do seu quarto álbum. “Deus é Leal”, ela disse, em português, pouco antes de “Born Free” —outro momento punk rock do show: M.I.A. correu pela pista enquanto os sintetizadores maximalistas e distorcidos faziam mais uma de suas armas sônicas. Só com chuva, que ela mesmo jogou no público, para acalmar os ânimos.
O furor voltou quando, com postura de um Ice Cube na quadra do NWA, cantou “Borders” —mais um de seus poderosos manifestos de pop combativo. “Façam fragor para Gaza”, ela clamou, logo antes de se gabar: “Eu tenho as melhores músicas”. Ao vivo ela vive pelo que diz: é previsível na sua imprevisibilidade —muito ao contrário da empáfia de muitos artistas que se escondem detrás de letras infladas, respostas assessoradas e bom-mocismo.
Em meio aos insistentes cantos pró-Lula ao término do show —M.I.A. fez o sinal de “L” em seu show no festival Rock the Mountain—, ela afirmou: “Amem Lula porquê vocês me amam, porque é com Lula que o ano de 2030 vai chegar”, disse. Ninguém parece ter entendido a mensagem, a julgar pelo silêncio que se fez em seguida. Vai saber. M.I.A. deixa o Brasil porquê por cá voltou, uma famosa incógnita. Seu nome artístico é {sigla} para “Missed in Action” —”Perdida em Combate” ou “Perdidos em Combate”, em português.





