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'Macbeth' ganha versão encenada por drag queens 29/10/2026
Celebridades Cultura

‘Macbeth’ ganha versão encenada por drag queens – 29/10/2026 – Ilustrada

Em uma das primeiras apresentações da adaptação de “Rei Lear”, de William Shakespeare (1564-1616), com um elenco formado por drag queens, as artistas ouviram no palco uma reclamação desbocada. “Que peça de drag é essa que não tem um bate-cabelo?”, gritou um testemunha inconformado.

“Macbeth”, a segunda montagem do projeto Shakespeare in Drag, da Cia. Extemporânea, preenche essa vazio. Uma das cenas mais aplaudidas do espetáculo em papeleta no Sesc Pompeia, em São Paulo, reproduz o movimento famoso nos shows em boates.

Uma vez que em “Rei Lear”, a peça é uma versão do clássico com linguagem e elenco drag. Também a exemplo da primeira experiência, a adaptação não abandona a grandeza literária do dramaturgo britânico e o que o público vê em cena é a tragédia sangrenta no reino da Escócia, com algumas pitadas do humor típico das transformistas.

Além do bate-cabelo, a linguagem drag queen aparece no uso de “lip sync” —a sincronização labial generalidade nos shows noturnos—, nos improvisos cômicos, na trilha sonora e em espadas que se transformam em leques nas batalhas.

A reflexão sobre a anelo, o poder e a moralidade humana está na tragédia escrita entre 1606 e 1607 e ressoa atualmente. Na trama, o general Macbeth encontra bruxas que profetizam seu horizonte porquê rei da Escócia, o que o leva, ao lado de Lady Macbeth, a um enredo de assassinatos, usurpação e culpa.

“Fazer uma comédia seria permitido, mas muito fácil. E eu queria o grande repto de fazer uma tragédia”, diz a diretora Ines Bushatsky. O espetáculo contraria a expectativa de quem imagina encontrar uma versão debochada de “Macbeth”. A adaptação assinada por João Mostazo não deixa de lado a profundidade e a força da tragédia.

“As duas linguagens, a de Shakespeare e a das drag queens, são populares”, diz o poeta e dramaturgo. “É interessante a rapidez que elas têm de ir do trágico para o cômico.”

O desvelo adotado, ele explica, é o de não banalizar a violência presente na obra original, ou seja, os conflitos, as dores e as mortes não viram motivos para piadas. As brincadeiras têm hora para suceder: até os improvisos foram testados nos ensaios e discutidos com a direção.

O cenário da montagem é obrigatório e foi pensado para ser útil, ou seja, está a serviço da movimentação das artistas e das necessidades da encenação. A intenção é evitar a competição com os figurinos, as maquiagens e as perucas das nove drags.

As peças de Shakespeare estão no horizonte de Alexia Twister, a tradutor de Macbeth, desde a puerícia em Taubaté, no interno de São Paulo. Ela assistia a teatro pela TV Cultura e ficou encantada com uma versão de “Macbeth” protagonizada por Antonio Fagundes e Vera Fischer, na dezena de 1990.

Vencedora do Prêmio Shell no ano pretérito pelo trabalho em “Rei Lear”, Twister sonhava em interpretar Lady Macbeth. Esse era, na verdade, um libido coletivo. “Todas queriam ser a Lady Macbeth”, diz. O papel da mulher ambiciosa foi entregue à atriz e diretora Thelores.

Para DaCota Monteiro, tradutor de As Três Bruxas na peça, Shakespeare foi apresentado porquê um responsável quase inacessível, distante, reservado para poucos.

“Não é para você. É subida cultura. Fica aí na sua”, ela diz em uma recordação sobre a barreira superada. “Eu sempre me destaquei no humor, logo nunca me deram muita chance de explorar as tragédias, os dramas.”

Isso mudou a partir de uma parceria com a diretora e professora Bolinha Monteiro, de Ribeirão Preto, a primeira a olhar para a drag e manifestar: “Você sabe atuar, vou colocar você para fazer Nelson Rodrigues, Plínio Marcos”. Em uma homenagem, DaCota adotou o sobrenome da mestra.

Indicada ao Prêmio Prio de Humor pela performance em “Rei Lear”, com a tradução do Conde de Gloucester, ela define porquê um “jogo de truco” a relação com a diretora da montagem atual em torno do que pode ou não ser engraçado.

“Verdade seja dita. A DaCota foi a primeira que ousou trazer a drag para a leitura. [No início] estava todo mundo muito respeitoso com o texto. Ela começou a recrear e vimos que havia essa possibilidade”, afirma Twister.

Ao explorar os talentos múltiplos e diversos do elenco, o espetáculo não encaixa as drags em personagens unicamente engraçados e não transforma o palco em uma plataforma de ativismo para denunciar o persistente preconceito contra a população LGBTQIA+.

“Acham que tudo o que o gay pode fazer é ser engraçado ou tolerar homofobia”, diz Twister sobre produções tradicionais, principalmente no audiovisual. “Acredito que está todo mundo cansado de ocupar esse lugar de coitadinho, de sofredor.”

Ela cita uma frase da atriz e vedete Rogéria para ressaltar sua posição: “Eu não tenho a história de um gayzinho triste para relatar”. Twister afirma ainda que a militância está no seu cotidiano, quando sai de mansão montada para pegar um carruagem de aplicativo e fazer shows em boates.

O Prêmio Shell, em 2025, é interpretado porquê um dos sinais de que uma artista drag não entra em cena unicamente para enfeitar ou descontrair o público. Twister dedicou o reconhecimento às pioneiras e também viu a glorificação porquê uma preparação de terreno para as que estão chegando.

“Elas vão saber que esse lugar é provável. Elas podem ocupar esse espaço.”

Folha

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