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Guimarães Rosa inspira peça no SESI SP com entrada grátis
Celebridades Cultura

Guimarães Rosa inspira peça no SESI-SP com entrada grátis – 29/10/2026 – Mise-en-scène

O maior risco ao levar a puerícia de um grande repórter ao teatro é desabar no clichê do menino gênio, sitiado de explicações didáticas que enfraquecem a cena. Em “João, Joãozinho, Joãozito”, espetáculo escrito e dirigido por Márcio Araújo a partir do livro de Claudio Fragata, essa embuste é evitada desde o início.

A montagem não tenta unicamente homenagear um responsável consagrado, mas investigar as origens de sua escrita. Olha para o cotidiano de Cordisburgo para mostrar uma vez que a miopia, o isolamento e os hábitos de um menino generalidade serviram de base para a obra de Guimarães Rosa.

O recorte de tempo é direto: vai do promanação de Joãozito até sua mudança para Belo Horizonte, aos nove anos. O meio da ação é a venda de secos e molhados de Seo Fulô, em frente aos trilhos do trem. No cenário feito de caixotes móveis, criado por Bruno Anselmo, circulam vaqueiros, tropeiros, bichos e viajantes.

Longe do futebol e das brincadeiras de rua, o garoto aprendeu a ler sozinho aos quatro anos e decidiu registrar o que via. A timidez do menino não vira tristeza, mas tirocínio de escuta. Ele presta atenção aos sons dos animais e às conversas dos adultos, descobrindo o peso das palavras antes de pensar em virar repórter.

A principal escolha da direção foi evitar o destaque individual: o papel de Joãozito não fica com um só ator. Os nove integrantes do elenco se revezam uma vez que o protagonista. O símbolo dessa troca é uma gravata-borboleta —marca do Rosa adulto que cá vira brinquedo, passando de mão em mão uma vez que laço, presilha de cabelo ou fita solta.

Essa separação do papel também ganha sentido prático e social ao distanciar a figura do responsável de um único padrão. Quando o menino ganha o corpo de uma atriz trans ou a voz de uma atriz negra, o teatro mostra ao público jovem que a imaginação não depende de privilégio de origem.

O texto dialoga com as obras futuras sem dar aulas. O companheiro imaginário do pequeno João é Miguilim. Ao aproximar o responsável de seu personagem, a peça trata da miopia de ambos, mostrando que colocar óculos pela primeira vez mudou a forma uma vez que viam o mundo. Aparecem ali referências a personagens conhecidos, uma vez que Hermógenes e Diadorim. A linguagem de Rosa surge uma vez que uma mistura procedente entre a conversa da roça e o interesse por dicionários.

A encenação aposta no trabalho artesanal. Em vez de recorrer a efeitos de grandes musicais, apoia-se no próprio palco. Os atores tocam, cantam e contam a história. Os dezenove bonecos criados por Jésus Sêda representam os bichos do tapado, enquanto a iluminação de Guilherme Bonfanti e os figurinos de Clau Carmo compõem o clima do interno de Minas. A trilha sonora, com viola caipira e sanfona, ajuda a situar a história.

Em edital no Teatro do Sesi-SP com ingresso gratuita, audiodescrição e Libras, o espetáculo aproxima Guimarães Rosa do público infantil sem simplificar ideias e sem subestimar o público. Mostra que o sertão na obra do responsável nunca foi unicamente um lugar no planta, mas uma forma atenta e curiosa de olhar para a vida.

Três perguntas para…

… Márcio Araújo

Você escreveu e dirigiu “João, Joãozinho, Joãozito” a partir do livro de Claudio Fragata. Uma vez que se deu esse encontro com o material original e em que momento você percebeu que ali havia um espetáculo?

Foi um presente do presente, do presente…

Começou assim: o Josué, companheiro do Claudio Fragata e do Daniel Palmeira, se apaixonou pelo livro e deu um de presente para o companheiro Daniel. Daí foi a vez dele se enamorar! E com o bom olho de produtor que tem, percebeu que ali tinha um bom material para uma peça.

Logo, o Palmeira me deu um livro de presente com o invitação: vamos fazer uma peça desta obra? Eu li e imediatamente me apaixonei também. Mas isso foi há seis, sete anos, desde que fizemos o primeiro projeto, até nascer a peça em 2026.

A gravata-borboleta uma vez que signo que corda a rotação dos atores é um invento cênico. Uma vez que surgiu essa teoria e o que ela representa para você?

Nas muitas pesquisas que fiz, percebi que na maioria das fotos que encontrava do Guimarães na vida adulta, ele tinha essa marca em seus ternos sempre muito finos: a gravata mariposa. Ele adotou isso ao seu visual uma vez que um pormenor excêntrico, pessoal, ousado, e eu que estava indo pelo caminho óbvio pensando usar uma rosa uma vez que símbolo pra ele, pensei, não! O símbolo será a mariposa!

E ela representa vida, originalidade, alegria, transformação, tudo o que eu queria passar nesse menino Rosa!

O menino de Cordisburgo que se alfabetiza sozinho aos quatro anos e cataloga o mundo é uma figura que dialoga com tantas crianças neurodivergentes ou introspectivas. Você pensou nisso ao edificar a dramaturgia?

Sim. Foi o grande motor para eu relatar essa puerícia. Ter pontos delicados e frágeis que poderiam fabricar identificação com todas as crianças, e atravessá-las, crianças da cidade, do interno, todas com suas dores e medos… Foi esse o caminho para redigir essa dramaturgia coringa, e a escolha de um elenco muito diverso, onde todos pudessem ser o Joãozito. De propósito, nas cenas onde João é mais frágil, tem terror, optei pelos homens, já nas cenas de viagem pelo mundo, das descobertas científicas, das leituras, escolhi as mulheres.

Assim, todas as crianças, brancas, pretas, ricas, pobres, obesas, neurodivergentes, podem se ver e sonhar em serem o que quiserem! E espero que isso realmente aconteça! Uma vez que escrevi na última frase da peça: “Voa, muchacho! Voa!”

Meio Cultural FIESP | Teatro Sesi – Avenida Paulista, 1.313 (em frente à estação Trianon-Masp do Metrô). Quintas e sexta, 11h. Sábados, 15h. Domingo, 14h. Até 13/12. Duração: 60 minutos. Classificação indicativa: Livre, indicado para todas as idades. Ingressos gratuitos. Reservas pelo www.sesisp.org.br/eventos

Folha

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