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Madonna: 'Confessions II' confronta caretice com a dança 02/07/2026
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Madonna: ‘Confessions II’ confronta caretice com a dança – 02/07/2026 – Ilustrada

Os críticos eram implacáveis com Madonna naquele início de curso. Em 1985, o jornalista Greil Marcus considerava que a artista não tinha qualquer interesse por música. “Ela vai completar virando uma grande estrela de cinema”, disse ele, em entrevista à revista Time. Na mesma reportagem, o editor Paul Grein era enfático. “Ela vai estar fora do mercado em seis meses.”

Mais de quatro décadas posteriormente essas previsões, a cantora não unicamente se manteve no mercado porquê construiu uma curso superlativa, colecionando hits, prêmios e recordes. Com o lançamento do disco “Confessions II”, nesta sexta-feira (3), a rainha do pop volta a frustrar expectativas. Se esperavam dela silêncio e reclusão ao chegar à vetustez, Madonna reafirma a sua presença ruidosa e insolente na pista de dança neste trabalho que é uma prolongamento do aclamado “Confessions on the Dance Floor”, de 2005.

Isso já estava evidente no curta, lançado no mês pretérito porquê uma prévia do álbum, e também nos primeiros minutos do disco, com 16 faixas. Em “I Feel So Free”, fita de orifício do álbum, ela nos convida a saber a força libertária da pista de dança. Enquanto em “Danceteria”, a cantora promove uma espécie de arqueologia da vida noturna de Novidade York.

O título da fita faz referência à lendária balada frequentada por nomes porquê Jean-Michel Basquiat e Keith Haring. Em 1982, Madonna convenceu o DJ Mark Kamins a tocar nesse espaço “Everybody”, a sua música de estreia. A partir daí, ela viu a curso decolar. Secção dessa história é narrada em “Danceteria”, melodia de letra atmosférica sobre as noitadas fervilhantes naquela boate.

Canções porquê essas parecem conduzir o ouvinte a uma viagem hedonista pelos prazeres da vida noturna. É uma jornada regada a altas doses de house, dance e música eletrônica, gêneros que dominam baladas mundo afora.

“Madonna está mostrando que uma mulher de 67 anos ainda pode se divertir e gerar exaltação”, afirma a americana Mary Gabriel, autora da biografia “Uma Vida Rebelde”, livro que repassa a curso da artista. A escritora diz que a dança é um elemento orientador. “Ela é dançarina desde rapariga. Essa é a sua raíz artística.”

Por isso mesmo, a cantora não considera a pista de dança um lugar sedativo. “As pessoas acham que a música dançante é superficial, mas estão completamente enganadas”, diz ela, na introdução de “One Step Away”, a terceira música do novo disco. “A pista de dança não é unicamente um lugar, é um limiar. É um espaço ritualístico onde o movimento substitui a linguagem.”

Gabriel diz que mexer o corpo ao som trepidante da música de indumento transmite mensagens sem precisar de palavras. “É uma forma de as pessoas se expressarem politicamente quando sabem que se disserem alguma coisa claramente serão censuradas. Madonna usa a dança dessa forma. É política até a medula.”

Esse potencial político da música dançante se torna ainda mais evidente em tempos de crise. Foi o que aconteceu nos anos 1980, em meio à epidemia de Aids, período em que a comunidade LGBTQIA+ fez das boates uma trincheira contra a dor e o preconceito.

“Madonna disse naquele momento para quem estava sofrendo: ‘Vamos nos reunir e dançar’. Lidaremos com isso na pista de dança, porque somos uma comunidade.”

Para ajudar a dissipar os estigmas em torno da doença, a artista incluiu uma silabário com informações no encarte do álbum “Like a Prayer”, lançado em 1989, no auge da epidemia. O material dizia que o vírus poderia infectar qualquer pessoa, independentemente da sexualidade. Em um período no qual a doença era conhecida porquê cancro gay, essa informação não era trivial.

Décadas mais tarde, ela volta a usar a dança para confrontar outro momento limítrofe. Dessa vez, o mundo lida com as incertezas provocadas pelas mudanças climáticas e pelo progresso do autoritarismo. “Mais uma vez, ela está dizendo para nos reunirmos e dançarmos”, afirma Gabriel. “Sim, o sofrimento existe, mas também sempre existirá alegria.”

Madonna fez da boate não unicamente uma forma de mourejar com crises coletivas, mas também de enfrentar turbulências pessoais, porquê quando fez o primeiro “Confessions”, há duas décadas.

Esse trabalho foi lançado depois do desempenho desastroso de “American Life”, de 2003. O disco não foi muito recebido em razão das críticas à invasão ao Iraque e ao portanto presidente George W. Bush.

Em seguida o fracasso mercantil, ela se refugiou na pista de dança com “Confessions on the Dance Floor”. Graças a ele, Madonna não só recuperou a popularidade, mas ajudou a trazer de volta a disco music ao mercado fonográfico.

Embora “Confessions II” seja uma sequência desse trabalho, o álbum está longe de ser uma repetição do que ela já fez. As canções reverenciam o pretérito, mas têm raízes fincadas no presente e olhos voltados ao horizonte. Prova disso são os artistas com os quais a popstar escolheu trabalhar.

Novidade queridinha da música pop, Sabrina Carpenter empresta seus vocais angelicais a “Bring Your Love” —o primeiro single do álbum, lançado no final de abril. Já “Bizarre” foi feita em parceria com DJ Martin Garrix, um dos nomes mais quentes da cena eletrônica hoje.

A julgar pelas críticas, a mistura entre o novo e o idoso deu notório. Veículos porquê BBC, The Guardian e Financial Times consideram esse o seu trabalho mais sólido em pelo menos duas décadas.

“Nesse disco, ela ocupa um lugar duplo, em que se aproxima das pessoas mais velhas, mas sinaliza uma certa pedagogia da pista de dança para os mais novos”, diz Thiago Soares, professor de notícia da Universidade Federalista de Pernambuco, a UFPE, na qual ele pesquisa sobre cultura pop.

Madonna exalta a vida noturna num momento em que pesquisas indicam uma inclinação da geração Z por lazeres domésticos. A artista parece fazer referência a esse fenômeno em “Everything”, sétima fita do novo disco. “Ninguém quer trespassar de morada/ Isso não está notório/ Eu fico chocada.”

Para o técnico, o trabalho mostra uma selecção a essa verdade. “É uma pedagogia para os gays novinhos sobre porquê a boate é um lugar de luta e de encontro.”

No caso da cantora, esse espaço se torna também uma arma contra o etarismo –problema que não é novidade em sua curso. Em 1993, a artista estampou as páginas de uma revista inglesa por ocasião da turnê “The Girlie Show”, considerada um manifesto ao prazer e à liberdade sexual.

Os editores da revista, no entanto, queriam que ela pegasse mais ligeiro. “Vai com calma, vovó”, dizia o título da material. À era, Madonna tinha 35 anos.

“Quando as pessoas imaginam o envelhecimento, elas pensam em se recolher e permanecer em morada, porquê um notório ostracismo”, diz Soares, acrescentando que a cantora vai no caminho inverso e reivindica envelhecer na pista de dança. “A grande revolução da Madonna é continuar.”

A própria artista deixou isso muito simples, em 2016, quando foi homenageada no prêmio Billboard Women in Music. “As pessoas dizem que eu sou muito controversa, mas a coisa mais controversa que eu já fiz foi ter continuado por aí.”

Folha

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