Mar García Puig confronta maternidade e loucura em livro – 31/05/2026 – Ilustrada
No dia em que deu à luz seus filhos gêmeos, a escritora catalã Mar García Puig também foi eleita deputada do parlamento espanhol. O que deveria trazer duas marcas históricas acabou se transformando em uma experiência de sofreguidão extrema que a acompanhou por meses.
Dessa travessia nasceu “A História dos Vertebrados”, livro que sai agora no Brasil pela Loja do Tempo e que a autora apresenta na Feira do Livro e em outros eventos por São Paulo.
Publicado originalmente em 2023 e vencedor do Prêmio Cidade de Barcelona de experiência, o livro mistura autobiografia, sátira social, história da medicina e reflexão literária para investigar um tema raramente tratado sem idealizações: a relação entre maternidade e loucura.
Formada em filologia inglesa pela Universidade de Barcelona, editora, tradutora e ex-deputada do Podemos, García Puig transformou sua própria crise pós-parto em material literária.
“A motivação para a escrita do livro foi, sobretudo, minha experiência de loucura”, afirma. Depois do promanação dos filhos, ela enfrentou uma crise de sofreguidão aguda que alterou profundamente sua percepção de si mesma e do mundo.
Inicialmente, a investigação que daria origem ao livro não tinha pretensões literárias. Era uma tentativa de compreender o próprio sofrimento. Aos poucos, porém, a autora encontrou nos livros relatos de outras mulheres que haviam pretérito por experiências semelhantes.
De figuras da mitologia grega a escritoras porquê Sylvia Plath, uma constelação de vozes começou a revelar que seu drama pessoal fazia segmento de uma história muito maior. “Entendi que havia ali um fio condutor e que a loucura associada à maternidade tinha muito mais de coletivo do que de individual”, diz.
Essa invenção se tornou o coração de “A História dos Vertebrados”. Em vez de apresentar a maternidade porquê um estado de plenitude permanente, García Puig explora suas ambiguidades, contradições e zonas de sombra. Em suas páginas, aparece porquê uma experiência transformadora, mas também atravessada por pânico, exaustão, culpa e vulnerabilidade.
A autora argumenta que o sofrimento materno permanece contornado de silêncio porque desafia um dos pilares da tradição patriarcal. “O patriarcado sempre tentou nos vender que a maternidade é o estado ideal da mulher e que, portanto, só cabem a felicidade extrema e a tranquilidade absoluta”, afirma.
Segundo ela, essa visão continua influenciando a forma porquê as mães são percebidas e julgadas. Embora os debates sobre saúde mental tenham ganhado espaço nos últimos anos, muitas mulheres ainda enfrentam sozinhas o peso emocional da maternidade.
A fragilidade continua sendo mal aceita, enquanto a cobrança por desempenhar o papel de “boa mãe” permanece estável. O resultado é um ciclo de culpa e isolamento que frequentemente agrava o sofrimento psicológico.
A sátira da escritora não se limita ao campo simbólico. Ela aponta que a Espanha ainda oferece suporte insuficiente às famílias, principalmente às mulheres.
A escassez de creches públicas, as dificuldades de conciliar trabalho e maternidade e a subdivisão desigual das tarefas de zelo mostram que a geração dos filhos continua recaindo majoritariamente sobre as mães.
Ao mesmo tempo, García Puig rejeita leituras simplistas do tema. O livro também dedica atenção às mulheres que decidem não ter filhos e questiona a tendência de transformar as mulheres que são mães e as que não são em objetos de julgamento público.
Para ela, o núcleo da discussão deveria ser a capacidade das mulheres de resolver sobre suas próprias vidas.
Essa preocupação atravessa toda a obra. Mais do que um livro sobre maternidade, “A História dos Vertebrados” é uma reflexão sobre liberdade, identidade e pertencimento. A autora pergunta até que ponto as escolhas femininas são realmente livres em sociedades que continuam associando a exigência feminina à maternidade, seja para celebrá-la, seja para rejeitá-la.
Ao final de sua investigação, García Puig chega a uma peroração que é ao mesmo tempo política e literária: o zelo continua sendo tratado porquê uma responsabilidade privada, quando deveria ser percebido porquê um tópico coletivo. “Há alguma coisa de heroico na maternidade de todos os dias que seguimos considerando procedente e que não valorizamos porquê deveríamos”, afirma.
Ao transformar uma experiência de colapso em narrativa, a escritora catalã oferece uma visão rara da maternidade contemporânea —menos idealizada, mais contraditória e, justamente por isso, mais humana.





