Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker reavivam afrosambas, após 60 anos, em álbum com grandes vozes e violões
O cantor Marcos Sacramento (à esquerda) e o violonista Zé Paulo Becker lançam o álbum ‘Afro sambas – 60 anos’ nesta sexta-feira, 29 de maio
Guilherme Ligiero / Divulgação
♫ CRÍTICA DE ÁLBUM
Título: Afro sambas – 60 anos
Artistas: Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker
Cotação: ★ ★ ★ ★
♬ A força atemporal do álbum “Os afro-sambas de Baden e Vinicius” se comprova – 60 anos depois a edição do antológico LP posto no mercado fonográfico em 1966 pela gravadora Forma – com o lançamento do álbum em que o cantor Marcos Sacramento e o violonista Zé Paulo Becker reavivam o repertório do disco.
Ao cancioneiro do álbum, inteiramente formado pelo violonista fluminense Baden Powell (6 de agosto de 1937 – 26 de setembro de 2000) com o poeta carioca Vinicius de Moraes (19 de outubro de 1913 – 9 de julho de 1980), Sacramento e Becker acrescentam outras quatro músicas da dupla – entre elas, “Berimbau” e “Consolação”, ambas lançadas em 1963, três anos antes do histórico álbum – que se afinam sob o prisma rítmico, poético e místico com o noção e a forma do repertório de “Os afro-sambas de Baden e Vinicius”.
Lançado nesta sexta-feira, 29 de maio, em edição da gravadora Biscoito Fino, o álbum “Afro sambas – 60 anos” é disco de (grandes) vozes e violões, além das percussões eventuais de Netinho Albuquerque e Paulino Dias.
O violão principal é naturalmente o do músico carioca Zé Paulo Becker. Diretor músico e arranjador do álbum gravado com produção músico de Diego do Valle, levante também responsável pela mixagem e masterização, Becker tem evidenciada no álbum a maestria de um violão que consegue ser reverente ao toque de Baden Powell e, ao mesmo tempo, buscar o próprio caminho, leal ao espírito desses sambas compostos por Baden e Vinicius sob inspiração dos ritmos e harmonias dos temas das religiões de matriz africana.
As vozes são muitas, todas belas. Naturalmente, a do protagonista Marcos Sacramento – tarimbado cantor niteroiense, uma vez que comprova o primor rítmico do tradutor no quina dextro de “Berimbau” – sobressai ao longo do disco.
Porém, Sacramento divide o quina com intérpretes do porte de Ney Matogrosso, artista do qual é discípulo pela presença cênica. O feat de Sacramento com Ney em “Esquina de Ossanha” – a música mais conhecida do álbum de 1966 – abre o álbum, valorizado pelas presenças de convidados uma vez que o violonista Yamandu Costa, dos quais toque frenético das sete cordas elevam a temperatura de “Tempo de paixão”.
Na introdução de “Esquina de Iemanjá”, o vocalize cristalino de Roberta Sá remete ao quina do orixá feminino que reina nas águas – evocação feita pela cantora Dulce Nunes (1929 – 2020) no disco de 1966. No termo da tira, a voz de Roberta se afina com a de Sacramento.
Na vaga de “Bocochê”, o quina de Sacramento soa revolto em sobra, imerso em mar que continua insofrido com a ingresso da voz da cantora Juliane Gamboa. A vaga se acalma com o quina lapidar de Fabiana Cozza, presença ilustre na gravação de “Tristeza e solidão”, o afrosamba que mais se aproxima da forma do samba-canção, inclusive pelos versos dolentes da letra.
Já a voz de Ilessi abrilhanta “Esquina de Xangô”, tema de início entoado por Sacramento. Fita conduzida somente pela levada do violão de Zé Paulo Becker, tal uma vez que “Esquina de Ossanha”, “Esquina de Xangô” recusa a rima de paixão com dor enquanto saúda o orixá do título.
Se o Trio Madeira Brasil – de volta à cena em 2024, com o violonista Rafael Mallmith nas sete cordas originalmente tocadas no grupo carioca por Marcello Gonçalves – depura o retoque instrumental de “Consolação”, o trompetista Silvério Pontes e os músicos do Samba do Sacramento reacendem “Labareda” (1962) com a labareda festiva de uma roda de samba.
Já “Tem dó” (1963) – standard da parceria de Baden e Vinicius que precedeu o álbum de 1966 – reitera o delicado tino rítmico do quina de Marcos Sacramento. “Tem dó” e “Lamento de Exu” são as duas únicas faixas do álbum “Afro sambas – 60 anos” gravadas somente com a voz de Marcos Sacramento e o violão de Zé Paulo Becker em totalidade afinação e simetria.
Mesmo sem reinventar a roda do afrosamba, cantor e violonista se engrandecem em álbum que, embora valorizado pelas presenças dos convidados, se bastaria somente com os dois protagonistas.
Capote do álbum ‘Afro sambas – 60 anos’, de Zé Paulo Becker e Marcos Sacramento
Pedro Capello / Divulgação
Fonte G1





