Pouco antes de estrear em “Pulp Fiction”, de 1994, filme de Quentin Tarantino que o colocaria de volta aos holofotes do mundo, John Travolta ficou recluso em um hotel no Maine, nos Estados Unidos, no meio de uma nevasca. Era hora de pensar na vida.
O momento era propício, por fim. Travolta vivia uma dezena de ostracismo nos anos 1980, depois de ter sido catapultado para o sucesso aos 23 anos, com o terror “Carrie” e os musicais “Os Embalos de Sábado à Noite” e “Grease”. Os cabelos negros penteados para trás em um topete, olhos azuis cristalinos e cintura solta para requebrar fizeram dele um dos galãs mais cobiçados de Hollywood.
O isolamento de dez dias na neve inspirou “Propeller One-Way Night Coach”, livro infantil que Travolta escreveu para seu rebento Jett, que tinha epilepsia e morreu aos 16 anos, em 2009. Publicada em 1997, a obra acompanha um menino fascinado por aviação em sua primeira façanha pelos céus — e agora ganha adaptação para o cinema em “Aventuras nas Alturas”, estreia de Travolta na direção. A história tem possante caráter autobiográfico. Assim uma vez que o protagonista, o ator sempre foi enamorado por aviões e acabou se tornando piloto.
O longa se passa nos anos 1960, durante a conhecida era de ouro da aviação, quando voar era símbolo de luxo e modernidade. O pequeno Jeff cruza os Estados Unidos com a mãe, atriz que sonha em virar estrela de Hollywood. Por não terem muito numerário, optam pela rota que faz várias escalas em outras cidades antes de chegar a Los Angeles —e, assim, o garoto conhece diferentes modelos de aeronaves, é mimado pelas aeromoças e conhece outros passageiros à bordo.
O ator americano estreou “Aventuras nas Alturas” no Festival de Cannes, o mais importante do mundo, onde ganhou uma Palma de Ouro Honorária —prêmio outorgado para comemorar carreiras notáveis no cinema. Foi uma surpresa. Era visível que Travolta, usando uma chapéu branca combinada a um lenço de mesma cor no bolso do paletó, não esperava pelo troféu, pelo qual agradeceu com voz trêmula de emoção.
“A maioria dos filmes que venceram [a Palma de Ouro] eram do meu palato. De Fellini a Bergman, de Lelouch a Truffaut”, diz, dessa vez com uma chapéu marrom —levou quatro no totalidade para o festival, uma de cada cor— e terno de mesmo tom, em conversa no Hotel Mariott, na Riviera Francesa.
Um dos longas premiados em Cannes que mais gostou foi “Orfeu Preto”. Apesar de ser uma produção francesa, o filme tinha atores brasileiros e foi gravado no Rio de Janeiro a partir de uma peça de Vinicius de Moraes. A trilha, ainda, foi criada por Tom Jobim e Luís Bonfá. “A música, o samba, a bossa novidade, era um tanto mágico”, lembra o ator, com certa nostalgia. Não por eventualidade, colocou “Corcovado”, “Samba de Uma Nota Só” e “Pequena de Ipanema” uma vez que trilha de “Aventuras nas Alturas”.
Apesar de falar sobre aviação, o filme faz também um tributo à era de ouro de Hollywood, quando os estúdios dominaram a indústria com produções grandiosas e estrelas que se tornavam ícones mundiais. Quando questionado sobre uma vez que vê o momento da indústria cinematográfica hoje, ele se esquiva, e prefere indagar a questão pelo vista músico.
“Sempre senti que a era dourada do cinema usava a música muito melhor do hoje. Imagine ‘Um Varão e uma Mulher’, ‘O Último Tango em Paris’ ou ‘O Poderoso Chefão’ sem aquelas trilhas”, diz Travolta. “Depois de 55 anos assistindo a pessoas fazendo filmes ótimos, bons, medíocres e ruins, consigo identificar o que funciona e o que não funciona. Você aprende com os erros dos outros.”
“Aventuras nas Alturas” é também um projeto familiar. Os irmãos do ator se distribuíram entre papéis de pilotos no filme, e sua filha, Ella, é uma aeromoça. Sentada ao lado do pai com um vestido Channel impresso com bandeirinhas de corrida automobilística, ela diz que ele é quase seu estilista, e também pede opinião da filha com frequência.
“Viajamos pelo mundo juntos. Ela é minha parceira”, diz Travolta, cândido. Além da morte de Jett, o ator perdeu a esposa, Kelly Preston, que tinha cancro de úbere. O incidente aparece em “Aventuras nas Alturas”, quando um garotinho com quem o protagonista faz amizade diz que todas as esposas de seu pai morreram de cancro —fado das outras duas ex-mulheres de Travolta além de Preston, Diana Hyland e Olivia Newton-John.
Há muitas referências autobiográficas em “Aventuras nas Alturas”. Porquê Jeff, Travolta descobriu o paixão por aviões na puerícia, aos cinco anos. “Morávamos em Novidade Jersey, entre os aeroportos de Newark, Kennedy e La Guardia. Quando os aviões decolavam, estavam a respeito de 600 metros supra da minha mansão. À noite, via as luzes piscando, e me perguntava: quem está lá dentro? Porquê é voar?”
No filme, a mãe de Jeff foi inspirada na mãe de Travolta, Helen, que uma vez que a personagem foi morar em Los Angeles com os filhos, também era atriz, e foi professora de teatro. Os trejeitos também são parecidos, conta o ator. “Ela admirava pessoas articuladas e achava que não ter sotaque refletia boa ensino”, lembra.
“Ela sabia que pessoas ricas vendiam roupas usadas no porão da igreja. Portanto eu andava com ternos da Dior que custavam dez dólares, de segunda mão. Tínhamos muito estilo, mas não o numerário”, diz. “Aventuras nas Alturas”, por fim, é feito pelo olhar empolgado de uma párvulo, que ele diz ser ainda muito presente.





