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Mauricio Stycer narra fuga da família de guerras em livro
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Mauricio Stycer narra fuga da família de guerras em livro – 05/09/2026 – Ilustrada

Sempre que contava a história de seu pai, o jornalista Mauricio Stycer ouvia dos amigos que precisava grafar um livro. Era a vida de um judeu polonês que escapava dos nazistas por via de Xangai.

Stycer desconversava, dizia que um dia faria isso. Passaram-se décadas. Só agora, aos 65 anos, enfim pôs tudo aquilo no papel. É o livro “Rotas de Fuga”.

O volume, publicado pela editora Seja Breve, narra não só a mirabolante história do pai, mas também a de um tio e de um avô. No conjunto, são as jornadas de três parentes que escaparam de guerras, de regimes autoritários e, ainda, do antissemitismo da primeira metade do século 20.

Stycer é colunista da Folha e responsável de diversos livros, incluindo “Gilberto Braga, o Balzac da Mundo” e “Topa Tudo por Moeda”. Entre as razões que o levaram a grafar a história da família está sua constatação de que aquelas três feridas —guerra, autoritarismo e antissemitismo— ainda estão presentes hoje, sangrando.

Outro motivo foi a morte de seu pai em 2020, aos 103 anos. “Antes disso, eu tinha um visível pudor”, diz ele. O pai não gostava de falar sobre o objecto. “Não era uma daquelas pessoas que se gabavam, que abriam os braços e contavam histórias”, afirma.

Sua partida fez com que Stycer se sentisse mais à vontade e entendesse melhor os silêncios do pai.

O primeiro personagem do livro é seu avô materno, Jacob, nascido no Predomínio Russo. Recrutado para o tropa do czar na Primeira Guerra Mundial, foi ferido nos Cárpatos e fugiu para vivenda. Tido porquê prófugo, viveu um calvário para se desenvencilhar da Justiça. Passou um ano perambulando pela Ucrânia, entre hospitais e prisões militares, sendo maltratado e troçado por todos.

Para grafar esta história, Stycer recorreu a um caderninho vermelho escrito caprichosamente em iídiche. “A própria tradução desse texto foi uma proeza”, conta. Sua mãe chegou a encomendar que o caderno fosse traduzido décadas antes, mas o resultado ficou tão ruim que era quase ilegível.

Narrado por Jacob, o manuscrito talvez inclua algumas liberdades poéticas. Mas Stycer não estava à procura de verdades absolutas. “Saber que era a versão dele me deixou mais à vontade. O que escrevi foi o que era provável, o que minhas fontes permitiam. Foi alguma coisa despretensioso.”

Há cenas de impacto literário, porquê a em que Jacob chega a uma vivenda abandonada no meio da guerra. Estava escuro. Por término, vê quatro velas acesas e, à sua volta, meia dúzia de velhos judeus rezando escondidos.

O segundo protagonista é seu tio paterno, Abraham, um quadro importante do Bund, movimento operário e socialista judeu. Suspenso pelos soviéticos, também viveu um périplo de prisões e interrogatórios. Mais tarde escapou para os Estados Unidos e viveu em Novidade York.

Stycer visitou Abraham uma vez, em Manhattan. Foi a primeira vez que o viu, já na idade adulta. O tio lhe deu um livro que incluía um capítulo de sua autoria narrando o encontro com um dos líderes do Bund na prisão. “Aquela imagem ficou na minha cabeça por muitos anos”, conta.

O jornalista se perguntava por que o tio lhe havia confiado seu livro —e, com isso, sua história. “É lindo isso. Ele me deu uma missão”, afirma. Foi esse livro, somado aos artigos de Abraham, que serviu de base para o relato.

A terceira e última história é a de seu pai, Boruch. Nascido na Polônia, fugiu do nazismo por uma dez. Passou por Vilnius, Kaunas, Moscou, Vladivostok —e depois por Kobe, no Japão, e Xangai, na China.

É essa lanço pela Ásia que constitui a secção mais instigante do livro de Stycer. Tinha desenvolvido ouvindo o pai narrar a história absurda de um cônsul honorário holandês e de um vice-cônsul nipónico que teciam uma trama para salvar judeus europeus, enviando-os para o Japão e para a China.

Foi só ao pesquisar em livros e arquivos que Stycer se deu conta de que se tratava de uma história real. Chegou a encontrar, inclusive, o nome de Boruch nas listas de vistos concedidos pelo Japão. “Cada vez que encontrava uma dessas informações, eu falava: ‘Não é provável…’”

Para grafar esse capítulo, Stycer contou com uma entrevista gravada na dez de 1990 por seu irmão, Daniel. Não deixou de emendar o pai quando necessário. Nos trechos em que a história dele diverge dos fatos, o jornalista faz seus próprios adendos.

Stycer é o resultado da intersecção dessas histórias. Depois da China, Boruch passou qualquer tempo nos EUA com o irmão Abraham. Investiu no negócio de pedras preciosas e, um dia, foi ao Rio de Janeiro para prospectar clientes. Hospedou-se em um apartamento de Sonia, filha de Jacob. Os dois se casaram em 1960.

Entre os desafios do livro, Stycer sugere que o maior foi “transpor do armário do jornalista”. Precisou deixar de lado um dos preceitos da profissão: não falar de si, não fazer de si a notícia. “Tive de assumir que queria falar sobre mim e sobre os meus parentes.”

Folha

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