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Melly lança álbum Mais Forte que a Dúvida 28/05/2026
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Melly lança álbum Mais Forte que a Dúvida – 28/05/2026 – Ilustrada

O símbolo adinkra Sunsum, originário do povo Akan, em Gana, representa uma pujança invisível que anima o corpo e a psique. É uma força ligada à percepção, à intenção e à coletividade —uma espécie de gavinha místico entre sujeito e comunidade. Foi nesse noção ancião que a cantora baiana Melly encontrou o eixo para “Mais Poderoso que a Incerteza”, seu segundo álbum de estúdio, que será lançado nesta quinta-feira (28), no qual transforma instabilidade em asseveração.

“A incerteza é da cabeça, a certeza é da psique”, resume a artista sobre o trabalho. Se em “Amaríssima”, disco de estreia indicado ao Grammy Latino, Melly parecia expor as feridas do coração sem filtros, agora ela procura um lugar de maior plenitude. “Em ‘Amaríssima’, eu coloquei meu coração. Agora, quis colocar minha psique”, afirma.

O novo álbum nasce desse movimento de voltar-se para dentro. Durante o processo de formação, Melly mergulhou em leituras sobre espiritualidade africana, corpo e consciência coletiva. Foi portanto que encontrou os símbolos adinkra, sistemas gráficos ancestrais usados para transmitir ensinamentos e valores nas culturas da África Ocidental. “São mensagens que fazem com que o subconsciente se conecte com essa noção de coletividade, de espiritualidade, de vida”, diz.

Essa pesquisa aparece não unicamente na narrativa conceitual do disco, mas também na maneira porquê Melly pensa a própria música pop. Aos 24 anos, ela reitera seu libido de edificar uma linguagem pop atravessada pela afro-baianidade, incorporando pagodão, samba de roda, reggae, R&B, arrocha e percussões inspiradas nos blocos afro de Salvador. “Eu ainda insisto em expressar que é provável fazer música pop com riqueza cultural”, afirma.

Há uma sensação de crédito inédita em “Mais Poderoso que a Incerteza”. A artista diz que essa é a principal diferença em relação aos trabalhos anteriores. “Eu estou muito mais segura das minhas escolhas, daquilo que escolho versar e tocar”, afirma. O disco foi feito em murado de quatro meses —muito menos que os dois anos consumidos por “Amaríssima”. “A psique é um território que a gente não precisa pensar duas vezes.”

Essa segurança aparece logo na introdução, “Porquê Deve Ser (Nem Me Estresso Mais)”, em que canta: “Pinto o mundo sarapintado, eu nem me estresso mais”. Já “Mirone”, Melly amplia essa reflexão ao relativizar a dimensão humana diante do mundo. “A gente é só um grão de areia no mundo”, canta, antes de concluir que “só o mar sabe onde quer chegar”.

O disco oscila entre contemplação místico e prazer corporal sem estabelecer fronteiras rígidas entre uma coisa e outra. Em “Mexer”, corpo e psique aparecem fundidos: “Quando o corpo se junta com a psique/ melhor você mexer”.

A Bahia é o núcleo gravitacional da obra. É da terreno de Melly que vêm algumas das imagens mais solares do álbum. Em “Palato Mucho”, a artista toma cenas cotidianas de Salvador porquê inspiração: a volta na Gamboa, o sorvete na Cubana, o calor de meio-dia, o “banho à fantasia”. Já “Vagarosamente Sem Agonia”, com Léo Santana, mergulha no universo do pagodão.

O disco também amplia o alcance pop da cantora ao reunir participações de Anitta, Liniker, Luedji Luna. Com Anitta, Melly divide “Ela Gosta de Moçoila”, tira sobre um libido sáfico que a tira do prumo. “Ela veio pra me perturbar”, canta. A parceria nasceu em seguida as duas se aproximarem em um camp de formação do novo disco da cantora carioca, “Equilibrium”, para o qual Melly compôs três músicas.

A presença do paixão entre mulheres, aliás, atravessa toda a obra de Melly desde seus primeiros trabalhos, mas ganha novas camadas cá. Em “Ana”, parceria delicada com Liniker, ela faz da namorada sua musa inspiradora. “Ana é tanta coisa, quase um continente”, canta.

Para Melly, trovar relações entre mulheres é também um gesto político —mormente quando atravessado pela experiência de ser uma mulher negra. A artista afirma que cresceu sentindo-se menos desejada do que as colegas brancas e que demorou a compreender porquê raça e afeto moldavam essas diferenças. “Eu entendi que existem diversas variáveis para tornar essas nossas experiências tão discrepantes”, diz.

Por isso, em seu trabalho ela insiste em declarar que mulheres negras também merecem afeto pleno. “A gente também é digna de um relacionamento saudável, a gente também é digna de libido, a gente também é digna do paixão”, afirma. Para ela, falar sobre paixão entre mulheres negras é uma forma de reparação simbólica diante de uma sociedade que frequentemente lhes nega humanidade e delicadeza.

Folha

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