‘Meu Deus!’ estreia em SP com Deus em crise no divã – 11/08/2026 – Mise-en-scène
Em vez de procurar milagres nos céus ou tentar interpretar os desígnios do Universo, a peça “Meu Deus!” prefere fazer uma pergunta muito mais prática: o que acontece quando o próprio Fundador entra em crise e resolve ir ao psicólogo? Escrita pela dramaturga israelense Anat Gov (1953–2012) e em edital no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado, a comédia dirigida por Elias Andreato coloca Deus frente a frente com uma terapeuta exausta em uma sessão de emergência de 80 minutos.
Na trama, o Fundador surge sob o sobrenome “D”, interpretado por Sergio Guizé. Aniquilado por uma depressão que já dura dois milênios, ele está cansado das cobranças humanas e desiludido com o rumo da cultura, a ponto de cogitar um término definitivo para a sua obra. Do outro lado da sala está Ana, vivida por Bianca Bin. Mãe solo de Paulo, papel de Enzo Morente, um jovem no espectro autista, a terapeuta equilibra uma rotina exaustiva com um ateísmo pragmático, adotado quase porquê uma resguardo contra as decepções do cotidiano.
A partir desse encontro improvável, a peça inverte a lógica tradicional da fé. A figura que historicamente ouve as preces e lamentações agora precisa ser ouvida. Sem recorrer a dogmas, catequese ou pregações, o diálogo avança bravo em um humor prestímano e ácido. Ao tentar convencer o paciente a não desistir do mundo, Ana acaba confrontando as próprias feridas. A escrita de Anat Gov evidencia que a crise divina é, na verdade, um revérbero da própria desorientação humana, lembrando que culpar o direcção ou a providência pelas tragédias costuma ser somente uma forma de fugir da responsabilidade moral.
A encenação, realizada pela Morente Potente Produções Teatrais, doze anos depois a primeira montagem do texto no país, aposta na economia de recursos e na força da vocábulo. O espetáculo foca no ritmo da conversa, no tempo da comédia e na cumplicidade entre o par protagonista, cuja sintonia fora dos palcos se reflete em um jogo de cena fluido e proveniente.
A ambientação reforça essa escolha pelo necessário. O cenário de Rebeca Oliveira cria um consultório hospitaleiro, vestido pelos figurinos urbanos de Fábio Namatame. A iluminação de Wagner Pinto constrói a luz suave de um final de tarde, interrompida somente por sutis feixes azuis que sinalizam a presença do sobrenatural. A trilha sonora de Jonatan Harold acompanha os estados de espírito dos personagens e costura as transições sem sobressaltos.
No término das contas, “Meu Deus!” junta comédia e reflexão existencial para mostrar que a saída para o caos, seja ele humano ou divino, não exige grandes eventos mágicos, mas sim a capacidade de ouvir, sentir empatia e encarar a vida de frente.
Três perguntas para…
… Bianca Bin
De que forma dividir o palco com o Sergio Guizé influencia o processo de experiência e a construção da intimidade entre os personagens? A cumplicidade do cotidiano ajuda a encurtar caminhos na procura por esse tempo de reação no palco?
Sem incerteza. A intimidade e a cumplicidade que construímos na nossa relação tornam esse caminho muito mais pequeno. Dividir o palco com o Sergio tem sido uma experiência muito próprio. Eu me sinto segura, à vontade e me divirto muito também. Existe uma crédito muito grande entre nós, e isso faz toda a diferença em cena. Um conhece o tempo do outro, a respiração, o silêncio, o olhar. Essa escuta mútua deixa tudo mais vivo e mais verdadeiro.
Isso acontece também fora do palco. Nas entrevistas, por exemplo, parece que um completa naturalmente o pensamento do outro. É porquê uma equipe, só que formada por duas pessoas. Essa parceria fortalece a troca artística e torna todo o processo muito mais prazeroso.
A sua personagem é mãe solo de um jovem no espectro autista. Porquê foi o processo de pesquisa e escuta para trazer a rotina e os desafios dessa maternidade de forma honesta, sem desabar em clichês ou na idealização?
Acho que o próprio texto já trata desse universo com sutileza, muita delicadeza e sensibilidade, sem transformar essa exigência na única propriedade da personagem. O meu trabalho foi me aprofundar cada vez mais nessa dramaturgia e me colocar nas circunstâncias dessa mulher: uma mãe solo emocionalmente exausta, ferida, descrente em muitos momentos, mas que, ainda assim, precisa seguir cuidando, resistindo e encontrando forças para continuar.
Para mim, a Ana representa muitas mulheres que conhecemos. Mulheres que carregam o mundo nas costas, que vivem sobrecarregadas e, mesmo assim, seguem em frente. Tenho amigas que vivem realidades muito parecidas, logo não precisei buscar inspiração muito longe. Meu libido foi edificar uma personagem profundamente humana, com suas fragilidades, contradições e enorme capacidade de amar.
A peça trata de empatia e do ato de escutar o outro porquê uma forma de salvação em momentos de crise. Trazer uma discussão porquê essa para o palco hoje muda, de alguma forma, a sua própria percepção sobre as relações humanas e o protecção no dia a dia?
Acredito que falar sobre escuta, afeto e o poder dos encontros seja quase um ato de resistência nos dias de hoje. Vivemos um tempo de muita velocidade, excesso de informação, pouca presença e, muitas vezes, pouca disponibilidade pro outro. A peça nos lembra da valimento de parar, olhar nos olhos, ouvir de verdade e albergar.
O mais bonito é que, ao humanizar Deus, a história nos aproxima da nossa própria humanidade. Ela nos faz refletir sobre nossas fragilidades, nossas dores e também sobre a potência da dor e da esperança. Acho que saio do palco todos os dias um pouco mais lembrada de que um amplexo, uma conversa ou uma escuta sincera podem transformar um dia e, às vezes, até uma vida.
Teatro das Artes | Shopping Eldorado – Avenida Rebouças, 3.970, Pinheiros, região oeste. Sexta e sábado, 20h. Domingo, 17h. Até 1º/11. Duração: 80 minutos. Classificação indicativa: 12 anos. A partir de R$ 25 (meia-entrada ingresso popular) em eventim.com.br
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