‘Meu Filho é um Musical’ relembra legado de Paulo Gustavo – 15/09/2026 – Mise-en-scène
A temporada paulistana de “Meu Fruto é um Músico”, em papeleta no Teatro Renault posteriormente passagem pelo Rio de Janeiro, consolida a maturidade do teatro músico brasílico ao transformar a biografia de Paulo Gustavo em um quadro sobre cultura popular, afeto familiar e memória pública.
Concebida a partir da vivência de Dona Déa Lúcia e com texto assinado por Fil Braz e Beatriz Coelho, a produção investiga porquê o cotidiano suburbano fluminense e a linguagem das relações maternas foram convertidos no maior fenômeno de bilheteria do cinema e do teatro do país. A encenação compartilha a direção entre João Fonseca e Ju Amaral, equilibrando o rigor técnico das grandes montagens com a intimidade dos relatos domésticos.
A estrutura dramática acompanha a formação do artista desde os anos na Morada de Artes de Laranjeiras, onde Paulo Gustavo enfrentou resistências de diretores que consideravam sua identidade afeminada um travanca à curso teatral. O espetáculo demonstra porquê essa mesma singularidade foi mobilizada para produzir Dona Hermínia, figura que rompeu padrões da dramaturgia mercantil brasileira.
No palco, a separação do papel principal entre João Pedro Chaseliov e Pierre Baitelli, somada ao desempenho de Stella Maria Rodrigues no papel materno, permite que a encenação preserve a prontidão do tempo cômico e a alternância entre a farsa e o registro íntimo.
O ponto de inflexão da dramaturgia ocorre no terço final, quando a celebração dos palcos dá lugar à chegada da pandemia de Covid-19, retratada sob a ótica da pulsão de vida do artista. O espetáculo ilumina a impaciência e a urgência com que Paulo Gustavo aguardava a vacina — símbolo da volta aos palcos, da convívio em família e da preservação do porvir ao lado dos filhos.
A narrativa ressalta o seu interesse cotidiano em proteger quem estava ao seu volta: mesmo semoto das gravações, o ator mobilizou recursos próprios para prometer suporte financeiro a técnicos, camareiros e equipes de bastidores que haviam ficado sem trabalho durante a paralisação do setor cultural.
Ao registrar essa dimensão humana, a montagem encerra sua trajetória afirmando o riso não unicamente porquê entretenimento, mas porquê um pacto de afeto, nobreza e resistência que permanece vivo na memória coletiva do país.
Três perguntas para…
… Dona Déa Lúcia
Quando o Paulo criou a Dona Hermínia, a voz e os trejeitos da senhora ganharam o país inteiro. Agora, a senhora sobe ao palco para dar seu próprio prova. Porquê tem sido a experiência de deixar de ser inspiração para se tornar presença viva dentro do espetáculo?
Eu sinto meu rebento ali, não tem porquê explicar de outra maneira. Quando entro e a plateia começa a aplaudir, sei que aquele ovação não é só para mim, mas para ele. É o paixão que as pessoas ainda têm pelo Paulo Gustavo chegando até mim. Recebo isso com uma gratidão enorme. Às vezes penso na dimensão do que esse menino fez, porque ele conseguiu um pouco muito bonito, que foi entrar na moradia das pessoas e virar quase da família.
Todo mundo tem uma história com o Paulo, lembra de uma fala, de um filme ou de um momento em que ele fez rir. Não sinto que o público procura o Paulo em mim, mas que estamos todos juntos celebrando a existência dele. Estou no palco porquê mãe, mas cada pessoa naquela plateia também carrega um pedaço dele.
Quando a senhora entra em cena, o público reage de forma imediata e muito calorosa. Porquê é encarar uma plateia lotada que olha para a senhora procurando um pouco do Paulo Gustavo?
É uma loucura, né? Durante muitos anos, fiquei assistindo àquele menino me imitar para o Brasil inteiro e lucrar verba às minhas custas, coitado! Agora, sou eu quem sobe ao palco para narrar a minha versão da história. A emoção é enorme, nunca imaginei viver isso.
Quando entro em cena, vejo a trajetória toda sendo narrada, a Stella interpretando a Dona Hermínia e os atores vivendo o Paulo em diferentes fases da vida. Eu me emociono de verdade, porque ali não está unicamente o trajectória de um artista, mas a história do meu rebento, da nossa família, da nossa moradia. Estar ali, viva, contando um pedaço dessa memória com a minha própria voz, é um presente inimaginável.
O que a senhora mais deseja que as novas gerações, principalmente os filhos do Paulo, compreendam sobre quem ele foi ao assistirem a essa homenagem no teatro?
Que ele foi um varão plenamente feliz e que viveu com intensidade. O Paulo amava a família, os amigos, o trabalho, adorava fazer rir e tinha uma nobreza sem tamanho. Quero muito que o Romeu e o Gael cresçam sabendo não unicamente que o pai foi um dos maiores artistas deste país, mas entendendo quem era o Paulo Gustavo no cotidiano. Quero que conheçam o rebento devotado, o irmão, o companheiro leal e o pai enamorado que ele sempre foi.
O sucesso é maravilhoso e as salas cheias encantam, mas o que permanece é o afeto. O espetáculo funciona porquê um registro vivo para os meninos. Um dia eles crescerão, verão tudo isso e terão orgulho de proferir que aquele era o pai deles. Espero estar muito velhinha ao lado dos dois, contando cada pormenor, porque história sobre ele é o que não falta.
Teatro Renault – Av. Brigadeiro Luís Antônio, 411, Bela Vista, região meão. Quinta e sexta, 20h. Sábado, 15h e 20h. Domingo, 14h30 e 19h30. Até 11/10. Duração: 180 minutos (com pausa). Classificação indicativa: 12 anos (Menores de 12 anos devem estar acompanhados de pais e/ou responsáveis legais). A partir de R$ 25 (meia-entrada balcão) em ticketsforfun.com.br
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